Artigos de Opinião

De A a Z para a Música na Educação

A partir de janeiro de 2017 a APEMNewsletter tem uma nova rubrica: De A a Z para a Música na Educação.

Convidamos professores, investigadores, músicos, artistas de outras áreas, políticos e mais cidadãos interessados, a apresentarem o seu abecedário de Música na Educação.

A partir de palavras organizadas por ordem alfabética, os autores convidados apresentam uma seleção de palavras e uma pequena justificação dessa seleção criando a sua visão sobre a música na educação.

É um desafio, um risco, um exercício criativo e também um bom princípio para refletirmos sobre este tema, que já nasceu no Encontro Nacional da APEM em novembro passado com a temática: “Que futuros para a Música na Educação?”

Clique aqui para ler todos os artigos de A a Z publicados.

De A a Z para a Música na Educação... Cristina Brito da Cruz

Cristina Brito da Cruz

Completou o Curso Superior de Piano (EMCN), a Licenciatura em Engenharia Civil (IST), uma Pós-graduação em Pedagogia Musical (Kodály Institute - Hungria) e o Mestrado em Ciências Musicais, no ramo de Etnomusicologia (UNL).

Começou nos anos 70 a lecionar formação musical (FM), piano, harmonia e acústica na Academia Luísa Todi, e nos anos 80 lecionou na Academia de Amadores de Música e no Conservatório Nacional. É docente na Escola Superior de Música de Lisboa desde 1991, coordenando actualmente a Variante de Composição, Direção e Formação Musical da Licenciatura em Música e presidindo ao Conselho de Representantes. Foi Presidente do Conselho Pedagógico e do Conselho Técnico Científico da ESML (2001 a 2015).

Tem colaborado nas áreas de formação de professores e de investigação com a ESMAE, Universidade Nova de Lisboa, ESELx, Universidade de Aveiro, Universidade Católica do Porto, Instituto Piaget de Almada, conservatórios, escolas de música e outras instituições, como a APEM, a DRC Açores, o Centro Nacional de Cultura, o Museu da Música Portuguesa, a Fundação Calouste Gulbenkian, vários centros de formação e outras instituições. Tem orientado workshops em Portugal, Espanha, Bélgica, Hungria e Cabo-Verde, e participado em projetos da Yehudi Menuhin Foundation (Bruxelas) e da Association Europeénne des Conservatoires (Utrecht) desenvolvidos em vários países europeus (Portugal, Espanha, França, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Suécia, Alemanha, Suíça, Áustria, Hungria, Itália, Malta, Grécia e Turquia). Os artigos que publicou no âmbito da Educação Musical e da Etnomusicologia estão disponíveis no Repositório do Instituto Politécnico de Lisboa.

Com Helena Vaz da Silva fundou a Associação Yehudi Menuhin Portugal (27/01/2000), sendo actualmente membro da Direção presidida por Guilherme de Oliveira Martins. Propôs, com Manuela Encarnação, a criação do Centro Kodály de Portugal (CKP), integrado na APEM. Após aprovação da Assembleia Geral (7/7/2017), foi nomeada Directora do CKP. O governo húngaro agraciou-a com uma Cruz de Mérito em Outubro de 2017.

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de Avós, de Afectos, de Audição, de Artur Santos.

Porque tudo se liga! Os meus avós, os vossos avós, os avós dos nossos filhos, nossos pais, pela importância que tiveram e têm nas nossas vidas, porque o passado é importante para a construção do futuro; os afetos pela importância que têm na nossa relação com a música, nas nossas memórias familiares, nas de mestres, de alunos, de colegas, de amigos, daqueles com quem fizemos e ouvimos música.

A audição musical, audição interior, audiação e a audição ativa, as capacidades de saber ouvir, de sentir, reagir e compreender a música que “imaginamos”, que ouvimos e que fazemos, capacidades de compreender e de nos relacionarmos com os outros.

O Professor Artur Santos (1914-1986), que foi durante 7 anos meu professor de composição, no Conservatório Nacional. Compositor e “folclorista científico” seguiu as orientações teóricas de Kodály e Bartók, tal como Lopes Graça, sendo um dos precursores da etnomusicologia em Portugal. Defendi a dissertação de mestrado em etnomusicologia na UNL, sob a orientação de Salwa Castelo-Branco, com o título Artur Santos e a Etnomusicologia em Portugal (1936-1969).

Pode ser consultada em:

https://run.unl.pt/handle/10362/15218

B

de Bartók (Béla Bartók 1881-1945), o pianista, o compositor, o etnomusicólogo, o amigo de Kodály, o húngaro nascido na atual Roménia que se exilaria nos Estados Unidos, atravessando o Atlântico a partir de Lisboa.

O génio que Fernando Lopes Graça conheceu em Paris e a quem não conseguiu dirigir palavra, o génio sobre cuja obra Lopes Graça escreveria como ninguém, aqui em Portugal.

Bartók, o emigrado que viveu em Nova Iorque com grandes dificuldades económicas e a quem outros músicos geniais encomendaram obras para o ajudar a sobreviver, como Joseph Szigeti e Benny Goodman (1940, Contrastes, para violino, clarinete e piano), Yehudi Menuhin (1944, Sonata para violino) e Sergei Kussevitzki, regente da Orquestra Sinfónica de Boston (1944, Concerto para Orquestra, composto em sete semanas).

Bartók acabou a revisão do Concerto para Orquestra em Fevereiro de 1945, já diagnosticado com leucemia. Morreria a 25 de Setembro desse ano, longe da sua Hungria, onde um ano antes os ocupantes alemães tinham sido substituídos pelos ocupantes soviéticos.

Em Junho de 1988 os restos mortais de Bela Bartók foram trazidos para o cemitério de Buda, por decisão dos seus filhos, Béla e Peter Bartók.

Bartók:Contrasts For Violin,Clarinet&Piano-Szigeti,Goodman&Bartok (YouTube)

Bartók: Sonata for violin Tempo di ciaccona Yehudi Menuhin (YouTube)

Bartók: Concerto for Orchestra Koussevitzky/3D Sound (gravação de 1944 no YouTube)

C

de Centro Kodály de Portugal (CKP), criado a 07/07/2017 na Assembleia Geral da APEM, presidida pela Professora Teresa de Macedo.

Em 1975, um grupo de professores e alunos húngaros foram trazidos a Portugal, pela então Diretora da APEM, Maria de Lourdes Martins, para realizarem classes de demonstração. Em 1986/87 as primeiras estudantes portuguesas frequentaram o Instituto Kodály em Kecskemét (cidade natal de Kodály) que tinha sido visitado por Lopes Graça no ano da sua inauguração em 1975: Rosa Maria Torres e eu, seguidas quatro anos depois por Fátima Antunes, que vive em Macau.

Orientei a primeira ação de formação Kodály em 1988, na Academia de Amadores de Música, a convite da APEM. Nos quase 30 anos que decorreram desde então orientei dezenas de ações de formação, por todo o país.

Em 1998, a Rosa Torres publicou um livro sobre a adaptação da metodologia Kodály ao caso português. A partir de 2008, com a mobilidade permitida pelo programa Erasmus, um estudante da Universidade de Aveiro, uma estudante da ESE do Porto e cerca de 40 alunos da Escola Superior de Música de Lisboa frequentaram o Instituto Kodály. A partir de 2008 organizei visitas de estudo de uma semana (com 70 alunos e professores envolvidos) e uma dezena de portugueses frequentaram os International Kodály Seminars, em Kecskemét, onde também lecionei de 2009 a 2013.

Existindo finalmente um corpo de profissionais com formação Kodály, decidiu-se criar o CKP que tem como objectivos:

“1. Divulgar a filosofia Kodály nas áreas da investigação, etnomusicologia, educação, composição e performance da Música.

2. Promover ações de formação, seminários, publicações, encontros de coros, concertos e outras iniciativas artísticas, científicas e/ou pedagógicas que se enquadrem nas competências do CKP.

3. Apoiar e acompanhar músicos, investigadores e professores que desenvolvam ou queiram desenvolver projetos com base na filosofia Kodály.”

http://www.apem.org.pt/centro-kodaly-portugal/

D

de Dalcroze (Émile Jacques-Dalcroze 1856-1950), o pai dos métodos ativos de pedagogia musical, criador do método conhecido como A Rítmica de Dalcroze (Eurhythmics) e personalidade fundamental para divulgação do Solfejo Cantado como técnica de aprendizagem.

Em Portugal, ficará ligado a esta metodologia o legado da Professora Margarida de Abreu, bailarina e professora de Ballet que estudou com Dalcroze na Suíça.

https://dalcrozeusa.org/index.php/history

International Conference of Dalcroze Studies, Canadá, 2017

E

de Escola Superior de Música de Lisboa (ESML), a “minha casa” há mais de 20 anos.

Visitem o site e venham aos concertos da escola, se gostam de ouvir repertório para solistas, música de câmara, coros, orquestra de cordas, orquestra de sopros, orquestra sinfónica, de ópera, de combos e de Big Band de Jazz, de música antiga até à contemporânea, de música eletroacústica ou mista, com estilos e géneros ecléticos, mas todos de grande qualidade musical e artística.

https://www.esml.ipl.pt/

F

de Filhos, porque o contexto em que se nasce e se vive nos molda e nos proporciona experiências únicas e gratificantes. Orgulho-me do percurso dos meus três filhos. A do meio (Maro) está a iniciar uma carreira musical:

https://www.facebook.com/marianaforjazsecca/

G

de Gulbenkian, de Graça e de Gordon pela sua importância na música na educação em Portugal.

Calouste Sarkosian Gulbenkian (1869-1955) transformou a vida cultural em Portugal através da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), criada em 1956.

Comecei a estudar música na FCG aos cinco anos (1964), frequentando os Cursos de Iniciação Musical (Raquel Simões), as aulas de Piano (Vitória Reis), de Instrumental Orff (Maria de Lourdes Martins), de Flauta de Bambu (Inês Mazoni) e o Coro Infantil (Leonor Moura Esteves).

Edgar Willems vinha regularmente a Portugal orientar a formação destes nossos (então) jovens professores. Orff veio assistir a aulas de Maria de Lourdes Martins, dadas em Setúbal. Nós, as “crianças da Gulbenkian” tivemos uma formação inicial de exceção e não admira que tantos, agora na casa dos 50 e 60 anos, sejam músicos e professores de música.

Ao longo dos anos, e muito graças a Madalena Perdigão, que foi também presidente da APEM, a FCG foi organizando seminários com os mais proeminentes pedagogos: para além de Willems e Orff, foi na fundação que conheci Edwin Gordon e Murray Schafer, por exemplo. E os Encontros anuais da APEM são realizados nas instalações da fundação.

É também de elementar justiça lembrar a importância do Coro e da Orquestra Gulbenkian, bem como a do saudoso Ballet Gulbenkian, e os milhares de concertos sinfónicos, de câmara e dos melhores solistas mundiais que, nestes mais de 60 anos, a fundação tem proporcionado.

https://gulbenkian.pt/

https://gulbenkian.pt/fundacao/calouste-sarkis-gulbenkian/

Fernando Lopes Graça (1906-1994), que conheci na Academia de Amadores de Música onde leccionei nos anos 80 integrando, com Alexandre Branco Weffort, a Direção Pedagógica presidida por Paulo Valente Pereira, foi uma das personalidades de referência da cultura musical do século XX em Portugal. Weffort publicou o livro A Canção Popular Portuguesa em Lopes Graça (2006) que vale a pena ler.

Em 2016, e numa escala mais modesta, publiquei o artigo “Música, Educação e Cultura, segundo Lopes Graça”, disponível em:

http://repositorio.ipl.pt/handle/10400.21/6767

Edwin Gordon (1927-2015), o pedagogo e doutorado em Psicologia da Música que conheci logo na sua primeira vinda a Portugal em 1995, trouxe-nos aprendizagens musicais destinada a recém-nascidos, uma sólida Teoria de Aprendizagem Musical, o enfoque em “como se aprende” e não apenas em “como se ensina” e a sua personalidade absolutamente cativante.

Em 2015 foi criado em Lisboa o Instituto de Aprendizagem Musical Edwin Gordon (IAMEG), por um grupo que incluía a Professora Doutora Helena Rodrigues, da Universidade Nova de Lisboa, a quem devemos a introdução da metodologia em Portugal.

https://www.giamusic.com/bios/edwin-gordon

http://cesem.fcsh.unl.pt/event/workshops-teoria-de-aprendizagem-musical-de-edwin-gordon

H

de Hungria, pela gratidão que tenho a este país por tudo o que lá aprendi, por tudo o que os meus alunos lá aprenderam, pelos músicos extraordinários que conhecemos e com quem fizemos música, pelos amigos de todo o mundo que ali fizemos e também pela Cruz de Mérito do Estado Húngaro, com que fui agraciada a 13 de Outubro de 2017 nas comemorações da criação do Centro Kodály de Portugal.

Se estão a contemplar estudar na Hungria, vale a pena consultarem os sites da Academia Liszt e do Instituto Kodály:

http://zeneakademia.hu/en/home e http://www.kodaly.hu/

I

de Imaginar. Visualizar imagens e movimentos, ouvir sons e palavras, planificar ações, improvisar e criar, imaginando. Imaginar futuros, criar equipas e laços, construir.

Sem imaginação somos menores e provavelmente menos felizes. São sinónimos de imaginar [https://www.sinonimos.com.br/imaginar/]:

“sonhar, fantasiar, criar, conceber, idealizar; elaborar, traçar, planejar, idear, inventar, projetar; achar, prever, supor, prognosticar, presumir, pressupor, julgar, conjecturar, crer, acreditar; concluir, identificar, saber, descobrir, atinar; refletir, pensar, meditar, cismar, considerar.” Pois então, imaginemos!

J

de ! Porque é mesmo importante não procrastinar, não adiar, não deixar nada para depois.

K

de Kódaly (Zoltán Kódaly 1882-1967). Vale a pena verem o vídeo “Safeguarding of the folk music heritage by the Kodály concept”, da Unesco (YouTube), de que transcrevo as palavras iniciais:

“Yehudi Menuhin summarized the significance of Zoltán Kodály’s life work as follows: He left three living monuments to his Homeland and to Mankind: his musical compositions, the folk-music research he completed jointly with Béla Bartók and last, but not least, his new method of teaching music to children.

Let music belong to everyone! But how can we make it widely accessible? This is the question I have been pondering since I reached the mezzo del cammin, or the midway point of my life - wrote the 70 years old Kodály in the dedication of an anthology of his writings.

The world renown Hungarian composer, ethnomusicologist, Professor of Composition of the Hungarian Academy of Music, former President of the Hungarian Academy of Sciences, later, President of the International Folk Music Council and Honorary President of the International Society for Music Education, and granted Honorary Doctorates by numerous universities, considered facilitating the accessibility of all strata of society to the possibilities and benefits of Music Education to be his most urgent task. Starting in the mid 1920s together with former students and enthusiastic school music teachers, he revolutionized the Music Education system, in Hungary.”

E, se puderem, ouçam algumas das obras que Kodály compôs, como por exemplo:

Janos Starker - Kodály Cello Solo Sonata

Kodály Girls’ Choir – Mountain Nights (Hegyi Ejszakak)

Kodály: Dances of Galánta / Fischer, Berliner Phiharmoniker

Zoltán Kodály: Psalmus Hungaricus, Op. 13, Kertész, London Symphony Orchestra

L

de Literacia musical. Porque ouvir música não pode ser apenas um embalo de quem ouve uma linguagem exótica que não percebe de todo; porque cantar não é aprender música como um papagaio que repete o que lhe ensinam, sem sentir, nem perceber o significado musical do que repete; porque tocar é mais do que a repetição mecânica de gestos até à exaustão.

Formemos pessoas cultas, que saibam ouvir e cantar e, de preferência, tocar. Que saibam ler uma partitura como sabem ler um livro, em silêncio, também. Formemos músicos e amadores cultos e conhecedores, que valorizem e atribuam sentido à música que prezam.

M

de MÚSICA PARA TODOS, num processo de aprendizagem que as crianças devem começar cedo, cedíssimo: de preferência “desde que a avó está grávida da mãe”, como disse Kodály.

Música que fruímos ouvindo, cantando, tocando ou dirigindo. Música nas obras que estudamos, que aprendemos, divulgamos e ensinamos, nas obras compostas ou improvisadas.

A música de que vivemos, com quem convivemos por vontade própria e/ou por obrigação profissional, por prazer ou porque não poderia ser doutro modo, nem quereríamos que o fosse.

E música para todos no MUS-E, Musique à l’École - Artistas na Escolas, na sua versão portuguesa - o projeto de Yehudi Menuhin que em Portugal começou em 1996, sob a minha coordenação e que continua, graças ao esforço de tantos, em escolas de meios económicos desfavorecidos, levando semanalmente a expressão dramática, músicas e danças, de diferentes culturas e tradições, a muitas crianças do pré-escolar e do 1º ciclo.

N

de NÃO! Não desistir de sonhar, não recuar perante as adversidades, não acreditar em impossibilidades, não desanimar, não aceitar o inaceitável, não ir contra os nossos princípios, não parar de aprender, não perder a curiosidade, não deixar de acreditar.

O

de Orff (Carl Orff 1895-1982), o compositor e pedagogo que criou a Orff Schulwerk adaptada em Portugal por Maria de Lourdes Martins. O lugar de destaque que este compositor atribuiu à improvisação, na pedagogia musical, e que é atualmente muitas vezes relegada para segundo plano por muitos dos que se dizem seguidores do método de Orff. O Instrumental Orff que podemos encontrar na maioria das escolas de música e nas escolas do ensino genérico e que é provavelmente o aspecto mais visível da Orff Schulwerk. Muitas vezes a aprendizagem musical feita através da execução do Instrumental Orff está condicionada à leitura ou à execução de motivos e ostinatos que o professor ensina a cada criança. A improvisação deixou nesses casos de ser a atividade privilegiada de quem usa o instrumental Orff, num claro desvio dos princípios inicialmente formulados. No Instituto Orff, sediado na cidade austríaca em que nasceu Mozart, Salzburgo, leccionam-se currículos anuais e cursos de verão onde se aprende o método de acordo com os princípios do seu criador.

http://www.orff.de/en/institutionen/orff-institute.html

P

de Portugal, um país com um passado de 878 anos que tem de investir na educação e na cultura para ter um futuro melhor.

O reino nascido em 1139 e reconhecido pelo tratado de Zamora a 5 de Outubro de 1143, que teve Afonso Henriques como primeiro rei e o jovem D. Manuel II como último rei, depois do regicídio de 1 de Fevereiro de 1908.

O país em que a República foi implantada também a 5 de Outubro, mas de 1910. O país em que o regime do Estado Novo durou 41 anos, iniciando-se em 1933, com os ideais de Salazar concretizados numa Constituição, e terminando com a Revolução dos Cravos, a 25 de Abril de 1974.

Em 1986, Portugal foi o 12º Estado a integrar a União Europeia, que atualmente é constituída por 28 países.

O português é a sexta língua mais falada do mundo depois do chinês, do espanhol, do inglês, do hindu e do árabe. Quase 270 milhões de pessoas são cidadãs de países que têm o português como língua oficial. São 9 os países que pertencem à CPLP, em 4 continentes: o Brasil, Moçambique, Angola, Portugal, a Guiné-Bissau, Timor-Leste, a Guiné-Equatorial, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe, aqui ordenados por número de habitantes. Também se fala português em Macau, agora parte integrante da China. Que percentagem de portugueses conhecerão todos estes dados?

https://www.cplp.org/

Q

de Quem é quem? O extraordinário e colossal trabalho de investigação de uma numerosa equipa de especialistas que resultou na publicação pelo Círculo de Leitores dos 4 volumes da Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX, sob a Direção da Professora Doutora Salwa Castelo-Branco (2010), permite-nos conhecer músicos, colectores e estudiosos, instrumentos, festividades, géneros performativos e tradicionais, campos de estudo, instituições e, com grande probabilidade, tudo o que procurarmos sobre músicos, musicologia e etnomusicologia em Portugal no Século XX.

São “mais de 1200 entradas, cerca de 1500 páginas (360 por volume), 550 fotografias, índice temático e onomástico” (informação da página do INET-md).

No IV volume encontramos ainda o capítulo “Do século XX ao século XXI: processos, práticas musicais e músicos emergentes”, de leitura obrigatória.

http://www2.fcsh.unl.pt/inet/publicacoes/enciclopedia/pagina.html

R

de Revistas da especialidade. A Revista Educação Musical da APEM que “pretende continuar a ser um marco distintivo no panorama da música e da educação do nosso país, através da publicação de artigos científicos, reflexões sobre boas práticas, reportório original para a infância, notícias importantes para professores, músicos e investigadores, ou recensões de livros, entre outras coisas.” Para além da revista, de publicação anual, a APEM publica online uma Newsletter mensal e artigos de opinião.

http://www.apem.org.pt/publicacoes/newsletter-da-apem.php

A Revista Glosas, do Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa (mpmp), fundada em 2010, que “é a única revista no mundo dedicada exclusivamente à música de compositores lusófonos. Preenchida, entre outras, por diversas notícias, críticas, artigos científicos, crónicas e entrevistas sobre o meio musical lusófono, cada número homenageia um compositor em particular, destacando-o na capa e dedicando um largo número de páginas à sua vida e obra.”

https://pt.wikipedia.org/wiki/Glosas

http://mpmp.pt/edicoes/glosas/

A Revista Portuguesa de Musicologia. Portuguese Journal of Musicology que “é publicada online duas vezes por ano e inclui dossiers temáticos e artigos de investigação, assim como recensões de livros, fonogramas e outros suportes digitais. O português e o inglês são as línguas preferenciais, mas a revista aceita igualmente artigos em espanhol, francês e italiano.”

http://rpm-ns.pt/index.php/rpm/index

S

de Suzuki, de Schafer, e de Swanwick, pedagogos de três continentes, conhecidos e respeitados mundialmente. De Shin’ichi Suzuki (1895-1995) saliento a aprendizagem instrumental com o apoio parental, por imitação, de ouvido, em aulas individuais ou de grupo, e também os concertos com centenas de crianças e jovens violinistas que o japonês autor de Nurtured By Love: A New Approach to Education (1969) organizava, e que o popularizaram em todo o mundo.

A Academia de Música de Lisboa e o trabalho de Filipa Poejo e da sua equipa, com a orquestra Os Violinhos, são um bom exemplo de aplicação do método Suzuki em Portugal.

Inicialmente aplicado à formação de violinistas, o método foi progressivamente sendo adaptado para a aprendizagem de outros instrumentos musicais.

http://internationalsuzuki.org/shinichisuzuki.htm e https://europeansuzuki.org/

http://www.violinhos.net/orquestra.html

Murray Schafer (n. 1933) é mundialmente conhecido pelos seus criativos Soundscapes, pela valorização do silêncio e pelas novas formas de ouvir e de improvisar que defendeu. O compositor e pedagogo canadiano é autor de livros como The Composer in the Classroom (1965), The New Soundscape (1968), When Words Sing (1970) ou The Tuning of the World (1977) e foi o mentor e coordenador do World Soundscape Project da Simon Fraser University (SFU).

Listen (escucha) Murray Schafer (YouTube)

(sobre o World Soundscape Project)

Keith Swanwick (n. 1937), o britânico que defendeu a tese de doutoramento Music and the Education of the Emotions (1974), e que publicou Music, Mind and Education (1988) e Teaching Music Musically (1999), por exemplo, mundialmente conhecido como editor do British Journal of Music Education e como o primeiro Chairman do British National Association for Education in the Arts (1987). De referir ainda a sua Teoria da Espiral do Desenvolvimento Musical e a formulação estruturada do CLASP (Composition-Literacy-Appreciation-Skills-Performance). Tem trabalhado em Portugal em estreita colaboração com o Professor Doutor José Carlos Godinho, professor coordenador da ESE de Setúbal.

http://www.imerc.org/people/18-professor-keith-swanwick

T

de Torres, Rosa Maria (1998) As Canções Tradicionais Portuguesas no Ensino da Música. Contribuição da Metodologia de Zoltán Kodály. Lisboa: Caminho. Um livro que dou a conhecer a todos os meus alunos de Pedagogia Musical e que tem uma coleção de mais de 60 músicas tradicionais portuguesas, analisadas e organizadas metodologicamente, é útil para vários níveis dos ensinos genérico e especializado da música.

http://www.apem.org.pt/associacao/noticias/index.php?post_id=81

U

de Universidades e da sua relação com os Institutos Politécnicos, os dois sistemas de ensino superior em que se aprende música em Portugal. Testemunhar sobre o tratamento preferencial que o Estado português dá às Universidades, por exemplo relativamente ao financiamento dos cursos de música, ou às carreiras docentes e sua remuneração, às condições dadas à investigação e à mobilidade internacional, aos anos sabáticos concedidos ou impossíveis de conseguir. Relembrar a legislação publicada à altura da criação dos cursos de música nos Politécnicos que pressupunha entregar os estudos teóricos de música às Universidades e os práticos aos Institutos Politécnicos. Constatar que atualmente as Universidades também têm ofertas educativas em Performance, e ainda bem. Constatar que, pelo menos em Lisboa, duas Universidades têm Doutoramentos na área da performance em que, maioritariamente, os responsáveis pelas Unidades Curriculares de Performance são professores do Politécnico (Escola Superior de Música de Lisboa). Perceber que a distinção entre universidades e politécnicos é clara, em muitos aspetos, e nada clara, em tantos outros. Sentir que há em Portugal um ensino superior que os nossos governantes consideram de 1ª, e outro que consideram de 2ª, sem que sejam critérios de qualidade a justificar a distinção que nos é imposta. Como docente do Politécnico acredito que melhores dias virão, por uma questão de justiça e até de bom senso.

V

de Vianna da Motta (José Vianna da Motta 1868-1948), menino prodígio, protegido do rei D. Fernando e da Condessa d’Edla, pianista virtuoso, e um dos últimos alunos de Liszt (1811-1886), a partir de 1885, e de Hans von Bulow (1830-1894), em 1887.

Viveu em Berlim e em Genebra, fez digressões europeias e tocou nos EUA, no Brasil e na Argentina, a solo e com músicos como Sarasate, Bernardo Moreira de Sá ou grandes cantores. Como compositor utilizou a música tradicional e textos de autores portugueses em obras que compôs (na Sinfonia à Pátria, por exemplo) e influenciou alguns compositores portugueses das gerações seguintes, na senda do nacionalismo no âmbito da composição.

Foi Diretor do Conservatório Nacional, depois de se instalar definitivamente em Lisboa (1917) e professor de várias gerações de pianistas portugueses, de que destaco Sequeira Costa, Luiz Costa e sua filha Maria Helena Sá e Costa (neta de Bernardo Moreira de Sá), Maria Cristina Lino Pimentel e Fernando Lopes Graça. Vianna da Motta publicou numerosos artigos em revistas portuguesas e alemãs.

(artigo de Teresa Cascudo)

José Vianna da Motta (1868-1948): Valsa caprichiosa (YouTube)

José Vianna da Motta (1868-1948): Liszt - Totentanz (1 of 2)

W

de Ward de Willems, de Wuytack três importantes pedagogos, influentes também na educação em Portugal.

Justine Ward (1879-1975), é a única mulher que integra o grupo de pedagogos de referência na Iniciação Musical. A talentosa pianista americana - filha de William Bayard Cutting, um dos fundadores da Metropolitan Opera Company de Nova Iorque - veio com 25 anos para França estudar Canto Gregoriano, conheceu Dalcroze, fez recolhas de música tradicional e teve uma enorme influência no sistema de educação musical americano, através dos manuais para o ensino da música que publicou. O Instituto Gregoriano de Lisboa fez formação de professores e utilizou este método durante muitos anos, com grande sucesso, até por Júlia Almendra, a fundadora do Centro de Estudos Gregorianos ter feito o Curso Ward, em Paris. Em 1950 realizou-se a I Semana do Canto Gregoriano. As Semanas de Estudos Gregorianos continuam a realizar-se, anualmente, agora sob a direcção da Professora Doutora Idalete Giga que foi docente na Universidade de Évora e que traduziu os manuais de Justine Ward para português.

http://centroward.wixsite.com/centrowardlisboa

Edgar Willems (1890-1978) cunhou o conceito de Iniciação Musical (Initiation Musicale pour les tout petits). Pelo número de anos que trabalhou com docentes portugueses, a convite da Fundação Gulbenkian, e até por ter sido o primeiro pedagogo a fazer sistematicamente formação de professores em Portugal, marcou profundamente várias gerações de professores de música. Raquel Simões ficará para sempre ligada à adaptação para Portugal do método, bem como professoras como Salomé Leal e Ana Maria Ferrão, Luísa Gama Santos, Teresa Lancastre e muitos outros que obtiveram o Diploma de Educação Musical Willems.

https://www.fi-willems.org/pt-PT/

Jos Wuytack (n. 1935), pedagogo belga que no verão de 2017 deu o seu 45º e último curso em Portugal e que é “autor de diversos livros e artigos sobre educação musical, publicados em vários países”, também contribuiu para o desenvolvimento da Educação Musical em Portugal. O seu livro Canções de Mimar, dedicado às crianças, foi editado em seis idiomas. “A sua contribuição mais original para a moderna pedagogia musical, o sistema de Audição Musical Activa, destinado ao ensino da apreciação musical e baseado na metodologia do musicograma, foi editado em neerlandês (1972), francês (1974), português (1995) e espanhol (1996)”. De salientar a ação de divulgação deste método em Portugal feita pela Professora Doutora Graça Boal Palheiros, professora coordenadora da ESE do Porto, coautora de alguns dos livros de Wuytack editados em Portugal e fundadora da Associação Wuytack de Pedagogia Musical.

http://www.awpm.pt/

X

de Xenakis, que com a sua obra Cendrées para coro e orquestra, encomendada pela Fundação Gulbenkian e dirigida em 1974 por Michel Tabachnick no Grande Auditório da fundação, me proporcionou um primeiro contacto com organizações de sons que eu nunca tinha ouvido, muito menos cantado. Era na altura uma adolescente, membro do Coro Infantil Gulbenkian, e senti medo daquele estrangeiro com uma enorme cicatriz na face que veio assistir a alguns ensaios. Também senti o deslumbramento de fazer parte de algo importante, grande, enorme. Para qualquer criança/adolescente a experiência de fazer música num grande ensemble vocal e/ou instrumental é extraordinariamente marcante. Aqueles de nós que passaram pelo Coro Infantil da Gulbenkian, sob a direção da Sra. D. Leonor Moura Esteves, saberão exatamente a que me estou a referir. Atualmente há uma profusão de coros infantis, por todo o país, a fazerem um trabalho de grande qualidade e que têm uma visibilidade crescente. Os que são agora pais de crianças e jovens, que aproveitem a oportunidade de proporcionar aos seus filhos experiências riquíssimas que eles nunca esquecerão e que contribuirão para o seu desenvolvimento musical, individual e social.

Y

de Yehudi Menuhin (1916 – 1999) o chamado “Violon du Siècle” que conheci pessoalmente enquanto maestro, pedagogo e extraordinário humanista, em 1996, e que mudou radicalmente a minha maneira de ver a Educação e me aproximou de comunidades escolares com muito pouco acesso às artes. Entre o mundo do ensino especializado - em que eu tinha começado a estudar aos 5 anos e a leccionar aos 17 anos (1977) – e o contexto da Escola Nº 1 de Algés, onde iniciámos o MUS-E e que era frequentada por crianças de 12 países (mas maioritariamente descendentes de cabo-verdianos que viviam na Pedreira dos Húngaros) quase nada era comparável. Entre esses dois mundos existiam abismos que eu tive de atravessar voando e com pouca preparação para o fazer. Vieram depois escolas como a da Quinta do Alçada (Évora), a de Marrazes (Leira) ou a do Cerco (Porto) e fui aprendendo.

No MUS-E contei com a ajuda de pessoas extraordinárias, pelo seu saber-estar, pelo conhecimento da sua arte e pela sua dedicação a uma causa maior. Os seminários internacionais com Lord Menuhin (Budapeste, Perpignan, Bruxelas e Altea) também me proporcionaram experiências maravilhosas, tal como os encontros de coordenadores dos 12 países então com projetos MUS-E.

Ouço muitas vezes gravações de Yehudi Menuhin tocando grandes obras de música erudita, ou de outras músicas, com Ravi Shankar e com Stéphane Grappelli, vejo gravações de entrevistas, leio o que escreveu. Se puderem, visitem os sites:

Yehudi Menuhin - Violin of the Century

Who's Yehudi? - Yehudi Menuhin BBC documentary

Indian Classical Music : Ravi Shankar, Alla Rakha and Yehudi Menuhin Trio

Menuhin e Oistrack, Duplo Concerto de Bach.

Z

de Zoltán Kódaly (1882-1967), sim, outra vez, com um grande sorriso, por tudo o que proporcionou nos últimos trinta anos de carreira profissional, em escolas de música um pouco por todo o país, no continente e nos Açores, em Cabo Verde e, é claro, na Hungria. Também pelas obras musicais que compôs, por tudo o que escreveu e pelo que fui conhecendo dele, através de um seus dos grandes amigos, Yehudi Menuhin. E uma referência final a Sarolta Kodály, sua segunda esposa, actual presidente da International Kodály Society (IKS) e que tenho prazer de conhecer: por tudo o que tem feito pela educação de húngaros e de pessoas de tantos outros países, de todo o mundo, pelo apoio dado a pesquisas etnomusicológicas e pela divulgação de compositores húngaros, promovendo concertos e apoiando a publicações de partituras.

https://www.iks.hu/

De A a Z para a Música na Educação... Helena Rodrigues

Helena Rodrigues

Helena Rodrigues é professora do Departamento de Ciências Musicais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Investigadora do Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical, fundou o Laboratório de Música e Comunicação na Infância.

Efetuou estudos de Doutoramento com Edwin Gordon, divulgando a sua teoria de aprendizagem musical desde 1994. Colwyn Trevarthen é outra relevante influência no seu trabalho. Com uma formação de base nas áreas da Psicologia e da Música, tem se interessado também pelas áreas do teatro físico e dos efeitos terapêuticos da música. O conjunto destes e outros saberes tem-na levado a formular uma proposta original de formação, visando contribuir para uma melhoria dos cuidados na infância. Foi Researcher Fellow da Royal Flemish Academy of Belgium for Science and the Arts.

É diretora artística da Companhia de Música Teatral. Coordenou o projeto Opus Tutti, coordenando atualmente o projeto GermInArte, ambos financiados pela Fundação Calouste Gulbenkian. Autora de publicações de natureza diversa, é frequentemente convidada para apresentar conferências e workshops em Portugal e no estrangeiro.

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de afecto. Ou de Atalaya. Ou de amor. É quase só o que faz falta na educação. Desde os primeiros anos de vida ao ensino superior. Breve história: “ - Aprendi muito com aquela professora! Ela até me ensinou a usar desodorizante!”. Com o Maestro José Atalaya muitos despertaram para a música com ele. Tenho-o procurado. Ninguém sabe dele. Por onde andam os nossos afetos?

B

de Bebé Babá. Um projeto que me transformou. Um projeto que ajudei a construir depois de ter ouvido o seu nome, soprado por uma voz íntima. Depois das sombras dos primeiros gestos criativos (a criatividade é quase sempre uma superação da penumbra), tudo foi luminoso: equipa fantástica, o acaso a trazer novas ideias, música a brotar naturalmente de corpos rompidos por instintos maternais. Uma vontade de viver espelhada num canto coletivo refletindo a afirmação de uma das Mães: “Sinto que já não somos apenas as Mães ou os Pais dos nossos filhos, mas de todos os bebés aqui presentes”.

A primeira edição deste trabalho aconteceu em 2001. Em 2008 foi realizada uma edição especial no Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo para mães reclusas e seus bebés. Sobre esta edição está disponível o documentário https://vimeo.com/45629362 (Password: BetterWorld)

C

de Companhia de Música Teatral. De muita gente - Ver http://www.musicateatral.com ;
Ver também: https://vimeo.com/cmusicateatral

D

de disciplina. É quase só o que faz falta na educação.
Lembrado por Berry Brazelton, cuja passagem por Portugal devemos ao pediatra João Gomes Pedro.

E

de Encontro. Encontro Internacional Arte para a Infância e Desenvolvimento Social e Humano. Vai na VII edição. Um espaço de reflexão e partilha. Ver: http://www.musicateatral.com/germinarte/

F

de Ferrão. Ana Maria Ferrão. Presença linda no mundo da música para a infância. Diplomada com o Curso Superior de Piano, Ana Maria Ferrão estudou com Willems, tendo sido professora na antiga Escola do Magistério Primário e na Escola Superior de Educação de Lisboa. Muitos educadores e músicos foram ou continuam a ser formados por si. Tocados pelo seu estilo delicado, doce e sabiamente focado no essencial. Coautora de Sementes de Música. Ver: https://www.wook.pt/livro/sementes-de-musica-paulo-ferreira-rodrigues/205152

G

de Gordon. Edwin Elias Gordon (1927-2015), autor do que é comummente designado como “teoria de aprendizagem musical”.
Muito à frente do seu tempo nas ideias sobre a aprendizagem musical de recém-nascidos e crianças em idade pré-escolar. Conheci-o em 1994, tendo tido o privilégio de ter realizado estudos de doutoramento sob a sua co-supervisão. Grande mestre e amigo, as suas ideias têm influenciado uma parte significativa do trabalho do Laboratório de Música e Comunicação na Infância do CESEM e da Companhia de Música Teatral.
Entre 1995 e 2008 apresentou regularmente as suas ideias em encontros e seminários em várias cidades portuguesas (e também na Galiza). Marcou uma geração de estudantes e professores que hoje se distinguem pelo relevo dado à improvisação e à construção de um “pensamento musical” próprio. Marcou e continua a marcar as práticas musicais e artísticas do nosso País.

H

de Helena Sá e Costa. Piano. Presença. Professora. Mestre. Um sorriso ao subir da escada. Recordação boa, suave. O ensino para além do tempo de vida. Escola

I

de imaginação. Há muito, muito tempo, um menino disse: “basta um pinguinho de imaginação para se fazerem coisas espetaculares!” https://run.unl.pt/bitstream/10362/12568/1/Spidaranha_imaginacao.pdf

J

de Jorge. De Jorge Parente e do seu trabalho de corpo e voz. Um trabalho cheio de musicalidade e de abertura à Vida. Ver: http://jorgeparente.com.

K

de Kundera. “A insustentável leveza do ser” de Milan Kundera marcou as leituras da minha juventude. Agora, depois do tempo se ter encarregue de arrumar o argumento nos subterrâneos da memória, lembro-me de uma escrita orquestrada com sonhos e música evocada pelo autor.

L

de Lyl. Na casa de Lyl Tiempo moram vários pianos. Crescem no meio de buganvílias cor-de-rosa, tocados pelos filhos (os pianistas Sergio Tiempo e Karin Lechner), pela neta (a pianista menina prodígio Natasha Binder) e muitas crianças que aí dão os primeiros passos na arte de amar a Música. Na casa vizinha, moram os pianos de Martha Argerich. Imagino que também estes floresçam no meio de buganvílias, outras flores e trepadeiras ligando a terra e o céu. O filme “La calle de los pianistas” dá-nos conta desse privilégio tão especial que é fazer música com a família e os amigos. Trailer em: https://www.youtube.com/watch?v=mUtF-AASTzk

M

de McFerrin. Só voz e corpo. A essência. A frugalidade. Tanta música só na presença! O equivalente, talvez, ao que no teatro ficou designado como “teatro pobre”. Ver, por exemplo, com a nossa Maria João: https://www.youtube.com/watch?v=4boy-eXQBHg

N

de NOAH. Criação da Companhia de Música Teatral (CMT) com estreia em Outubro de 2017, em coprodução com a Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão, o Cine-Teatro Alba e o Teatro Aveirense. O ponto de partida de NOAH é a história que a nossa cultura nos contou, a mesma da Arca de Noé: um mundo em desmoronamento devido à ação do Homem. Do ponto de vista musical, NOAH propõe uma viagem por vários territórios e sonoridades, revelando a Arca enquanto metáfora da convivência e da diversidade. Violoncelo, flautas, saxofone, eletrónica e vozes são alguns dos recursos sonoros e o discurso musical não hesita em mudar de rumo e tocar tanto em territórios prováveis como improváveis. A peça baseia-se no trabalho criativo que foi feito com a CMT-kids, com uma gestação final acolhida pelo Teatro Aveirense. Espelha a “voz” de cada uma das crianças/adolescentes envolvidas no projeto, emanando diretamente dos seus talentos e interesses num processo de “diálogo” com o compositor Paulo Maria Rodrigues.

O

de orelha. Uma palavra mágica. O-re-lha. Ooooo-éeeeee-áaaa. Uma palavra com forma de montanha. Uma palavra com forma de curva normal com um pequeno desvio à direita. Lembro-me bem de um dia a ter dito por acaso, e o meu pequeno músico, de cerca de ano e meio, a ter agarrado, ainda a vibrar no ar. Olhou-me com a doçura de um sorriso, como se do céu tivesse caído uma pérola sonora. Depois soletrou a palavra emergente, repetiu-a como quem entoa um mantra. É possível que nessa manhã, atolado nas cores de consoantes e vogais, não tenha ainda ligado o som ao objeto. Mas que importa? No instante daquele seu espanto revelou-me que a nossa primeira relação com a aprendizagem da língua materna é de ordem musical.

P

de Paluí. Mundo fantástico de Helena Caspurro. “Se queres saber o que é o Paluí... põe o teu dedo aqui:” https://www.youtube.com/watch?v=kyV-sS4iX5I

Q

de Quintana. Especialmente delicioso o seu “Poeminho do Contra”: Todos esses que aí estão/ Atravancando o meu caminho, / Eles passarão…Eu passarinho!”

R

de respeito. O que é o respeito pela cultura de outros povos? Oiçamos o som dos batuques num aerograma de António Lobo Antunes: http://3.bp.blogspot.com/-HZw5KPCPKCI/UIv06ogpOVI/AAAAAAAABa4/4JifcTiPvYE/s1600/aerograma2.jpg

S

de silêncio. Silêncio, a primeira condição para o nascimento da música. Silêncio, o lugar para onde converge a música que nos harmoniza. Que bom ficar à escuta seguindo o rasto da reverberação!

T

de Trevarthen. Colwyn Trevarthen, professor Emérito da Universidade de Edimburgo, é um dos mais destacados pioneiros do estudo da infância e da proto-comunicação.
A partir de estudos que mostram que a comunicação entre mães e bebés envolve padrões de tempo, pulsação, timbre e gesto que parecem seguir, de forma não intencional, muitas das regras que caracterizam a performance musical, Colwyn Trevarthen desenvolveu (em parceria com Stephen Malloch) o conceito de musicalidade comunicativa. De acordo com esta ideia, as primeiras comunicações humanas, estabelecidas entre os bebés e os que lhe estão próximos, regem-se sob uma organização intrínseca e simpática de movimentos e gestos (corporais e vocais), seguindo princípios de natureza musical. Em 2003, teve lugar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa um “encontro histórico” entre Edwin Gordon e Colwyn Trevarthen. Desde então, tem sido uma grande fonte de inspiração para o trabalho realizado no Laboratório de Música e Comunicação na Infância do CESEM e da Companhia de Música Teatral. É mentor honorário do projeto GermInArte. (http://www.musicateatral.com/germinarte)

U

de Ursa Maior. Professores, músicos e educadores de todo o Mundo!: - Reivindiquem o dever de ter tempo para contemplar a Ursa Maior!

V

de vocalização. O estudo de vocalizações de bebés é um fascinante tema de investigação, com implicações quer para o estudo da aquisição da língua materna (ou outra) quer para o estudo da aquisição da voz cantada. Ver, por exemplo:
https://doi.org/10.1177/0255761411408507
https://doi.org/10.1177/0305735617719335
Mas há ainda muito para descobrir no que diz respeito ao desenvolvimento vocal na primeira infância.

W

de Wagner. Depois de cantado, o tema do Tannhauser nunca mais nos larga. Fica dias seguidos a soar dentro de nós (fenómeno este a que a Psicologia da Música dá o nome de “brain worms” ou “ear worms”). Outras das suas obras são igualmente fantásticas. Mas, verdadeiramente, quando alguém evoca o seu nome, a memória que me chega primeiro é a da pequena estatueta preta que me deu a minha primeira professora de piano.

X

de Projecto X. Teve já várias edições, sobrevivendo à “incompreensão curricular”. Um trailer da edição de 2017 – https://vimeo.com/227909753 – dá uma ideia de como a arte pode oferecer espaços para a criação de universos onde as diferenças se esbatem e se procura a essência do que nos faz humanos. Espécie de manifesto por uma arte feita em comunidade e com capacidade de poder chegar a todos os indivíduos, independentemente da sua condição social, género, idade ou cultura.

Y

de d’Orey. Todo o dia procurei um y. Que não, ou não estava, ou não me servia, ou fugia espavorido com a minha pouca habilidade de me intrometer na vida organizada das letras. Foi então que decidi sair do trilho como sempre sucede quando estou em apuros. Custasse o que custasse haveria de encontrar um! Encontrei-o ao fim da rua, morada de Francisco d’Orey. Músico de muitas vidas a quem perdi os rastos. Não sei por onde encaminhou todas as letras do seu nome, mas bastou uma para me lembrar dele, do seu entusiasmo pela música e pela vida.

Z

de ZYG. ZYG de zigótico.
Útero-ovo-esqueleto-dinossauro-concha-barco-berço.
Ver: http://www.musicateatral.com/zyg

De A a Z para a Música na Educação... Madalena Wallenstein

Madalena Wallenstein

Madalena Wallenstein, nascida em Lisboa em 1964, iniciou a sua formação, ainda em criança, no Movimento da Educação pela Arte, na Fundação Gulbenkian nos anos 70, nas áreas da música e do teatro. Estudou no Conservatório Nacional de Lisboa e licenciou-se em Educação.

Trabalhou desde 1987 como educadora artística, alternando a sua atividade entre contextos de criação artística, educação formal e não formal, intervenção pedagógica para crianças e jovens e ainda práticas para professores e artistas. Destaca-se o seu trabalho no Artemanhas, associação cultural que fundou e dirigiu até 2016 e a colaboração com a Fundação do Gil na conceção e coordenação artística da “Hora da Música”, projeto que se realizou em 28 pediatrias hospitalares em todo o país.

Desde 2008 que é a programadora e coordenadora da Fábrica das Artes do CCB. É através desta experiência que desenvolve um trabalho de investigação sobre programação para a infância, criação artística e públicos. Neste contexto, coordenou e foi coautora das publicações da Fábrica das Artes [CCB] “Se não havia, nada, como é que surgiu alguma coisa?”; “Raízes da Curiosidade – tempo de ciência e arte” e “Nós Todos Pensamos em Nós”. A sua atividade de pesquisa tem-se construído a partir da reflexão crítica sobre a experiência de transversalidade entre o campo artístico e o campo educativo e a exploração das potencialidades da educação artística como espaço específico da dimensão estética. Madalena Wallenstein é doutoranda em Educação Artística na Faculdade de Belas Artes do Porto.

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de arte, criada a partir de uma intencionalidade vital ligada à beleza, à surpresa, à sensibilidade, à inteligência, à crítica; criação que se desenvolve num processo divergente cujo resultado final é desconhecido à partida e que tem como objetivo provocar um abalo no óbvio, ou seja, espanto. A programação pode estimular, nos processos criativos, a consideração da perceção e atenção dos diversos públicos durante a receção artísticas. Na programação da Fábrica das Artes, desloca-se a ideia de uma arte didática, explicativa ou de entretenimento das indústrias culturais para a ideia de experiência de contemplação, fruição, experimentação e reflexão como oportunidade educativa da dimensão estética do ser humano que se faz no interior de uma arte qualitativa.

B

de Big Bang. Festival de Música e Aventura para públicos jovens é um festival europeu que integra catorze instituições europeias que se juntam com o objetivo de impulsionar a criação e a circulação de novos projetos de música para crianças e jovens da europa. No CCB, o Festival acontece em outubro e vai já na sua 8ª edição: Concertos, instalações, oficinas, Quarto dos Músicos, dentro e fora de portas. Propomos trazer para a programação uma diversidade de propostas que inclui música de qualidade de vários estilos – música antiga, jazz, erudita, eletrónica, rock, … na maioria das vezes colocada em cena na relação com outras linguagens: vídeo, luz, cenários.

C

de Comunidade Educativa seja ela efémera ou continuada e que se funda na experiência e valores partilhados e cooperados; um grupo comprometido em encontrar o que há de comum e de diferente entre os elementos que compõem essa comunidade e que toma isso em conta para que todos se realizem. Quando alguém se realiza isso é educação.

D

de dimensão estética, transversal a todos os seres humanos é desenvolvida na experiência, a experimentação, no conhecimento, na reflexão das linguagens artísticas e na sua relação com o mundo e com a inventividade. Acredito numa educação musical que navega entre a fruição e escuta, a técnica e a repetição, a improvisação e a criação, mas que sempre procura inspiração, poesia, rutura e novidade para construir a sua gramática e o seu arquivo.

E

de educação que conta com a cultura para se fundar porque é a cultura que transforma ensino em educação.

F

de fruição que acontece quando se suspende a noção de tempo cronológico para se entrar no tempo intensivo da arte. É fácil entrar nesse tempo de fruição quando se toca um instrumento com prazer ou se assiste a um concerto musicalmente extraordinário.

G

de gamelão. É um instrumento coletivo da Indonésia, das ilhas de Java e Bali constituído por um conjunto de metalofones, xilofones, kendang e gongos. O termo refere-se tanto ao conjunto de instrumentos como aos seus executantes. Na programação da Fábrica das Artes iremos apresentar um espetáculo música interativo de Elisabete Davis e Teresa Gentil “Larasati“ ou canções para adormecer Estrelas dirigido a crianças dos 0 aos 5 anos. Junta-se o gamelão, a voz e o piano preparado para reunir diferentes culturas e oferecer uma experiência sonora coletiva aos pequenos espetadores.

H

de harmonia, conceito que atravessa toda a história da música e as suas revoluções. Lembra que dois sons concordam em aparecerem juntos.

I

de infâncias. Este plural tem um sentido subtilmente disruptivo porque se propõe por em causa a infância como uma categoria que se agrupa por etapas e que tem de responder à apropriação e reprodução do conhecimento de um mundo que já estava cá antes da chegada dos novos, os que estão não param de chegar pelo nascimento. Este plural de infâncias também convoca a ideia de que o mestre se coloca no lugar de observador do outro que aprende, para aprender como esse outro aprende, para ir ao seu encontro, da sua individualidade e particularidade, porque se aprende inevitavelmente sempre que se quer aprender.

J

de jogo, como impulso lúdico da curiosidade e de desejo de mais saber é a condição essencial para a música na educação: o jogo da procura e das suas tentativas; o lúdico das experimentações; o imaginário do conhecimento e da sua descoberta; a aprendizagem dos processos melhores pelas buscas mais atentas e insistentes; os próprios riscos de tomar a alucinação pela invenção; ou a obsessão propósito - tudo aponta para o caminho da música na educação.

K

de Kalimba. É um instrumento musical pertencente à família dos lamelofones, sendo da categoria dos idiofones dedilhados. Muitos criadores musicais do universo da música experimental e eletrónica têm utilizado a Kalimba para integrar instrumentos inventados.

L

de liberdade e improvisação que pode ser aprendida desde o princípio. Começar logo na iniciação musical a improvisar e a criar a partir de motivos simples abre um caminho entre os vários caminhos a percorrer para realizar uma música na educação sólida. A improvisação é a floresta da música na educação.

M

de mini concertos - Música para Ti. É uma programação da Fábrica das Artes que se organiza por temas anuais. Já aconteceu música erudita; jazz; música do mundo; pop-rock; instrumentos improváveis; e na próxima edição, música da cidade. Trata-se de um espaço íntimo e próximo entre coloca os pequenos espectadores e seus acompanhantes e músicos. O concerto desenrola-se durante trinta minutos e, a seguir, os espectadores podem fazer perguntas e experimentar os dispositivos em cena, numa oportunidade jamais oferecida nas grandes salas.

N

de Niza, Sergio Niza. O pedagogo português que sempre me inspirou, seja na minha vida de professora de música, seja nos múltiplos contextos não formais em que desenvolvi a minha atividade profissional. Um dos Fundadores do Movimento da Escola Moderna, demonstrou sempre a firme convicção de que só a “organização cooperativa do trabalho criativo” pode romper positivamente com o problema maior dos projetos pedagógicos do Estado-nação – o da associação entre disciplina e liberdade. Os lugares de aprendizagem podem começar por ser lugares de democracia e de cidadania. Os instrumentos, procedimentos e filosofia utilizados pelo MEM podem ser aplicados em contextos de sala de aula de educação musical.

O

de Ouvido. Pensante é um livro de Murray Schafer de 1986 que integra uma série de textos sobre o seu trabalho experiencial em educação musical e soundscape desenvolvido em diversos níveis de ensino da música: “O compositor na sala de aula”; “Limpeza dos ouvidos”; “A nova paisagem sonora”; “Quando as palavras cantam”; “O Rinoceronte na sala de aula” e “Além da sala de música”. Schafer partiu da escuta de paisagens sonoras e a gama imensa de sons e conceitos que estas oferecem para refletir profundamente sobre conceitos musicais, para desenvolver atividades criativas e experienciais e propor uma nova pedagogia musical. Ver aqui: https://monoskop.org/images/2/21/Schafer_R_Murray_O_ouvido_pensante.pdf

P

de propagação sonora e exploração sensorial constituem-se como um campo muito interessante a explorar na música, na educação. Voltar ao “princípio” das coisas, aos fenómenos acústicos, re-significa a da paleta de efeitos musicais.

Q

de Quadros de uma Exposição. É uma peça escrita por Mussorgsky. Esta peça surgiu depois de um grande amigo do compositor, o pintor Hartman ter morrido. Mussorgsky escolheu dez quadros do seu amigo e compôs uma música para cada um deles. Este é um bom exemplo de como a inspiração para a criação surge de inquietações fortes e da experiência da vida e do mundo. Há um forte jogo entre a imagem dos quadros e os conceitos musicalmente explorados. Uma boa sugestão para o trabalho de criação na música na educação.

R

de reflexão. É um dos aspetos fundamentais da música na educação seja do ponto de vista de quem aprende seja de quem ensina. Refiro-me a espaço de diálogo sobre os processos ou sobre a experiência.

S

de símbolos artísticos. É o elemento essencial para a leitura de significados de qualquer espetáculo de música, dança ou teatro. O campo de leituras possíveis numa experiência artística leva a tantas significações quantos os espectadores da sala.

T

de teatro, como arte que se potência no encontro com a música, nos ambientes que se ampliam e nas emoções que provoca.

U

de U2. É uma banda de rock irlandesa fundada em 1976. A sua música foi influenciada pela música popular e que explorou o pós-punk. Os U2 através das suas letras de cariz político e poético são considerados musica de intervenção. Influenciaram muitas bandas do novo rock.

V

de Vygotsky. Foi um pensador russo que contribui com descobertas fundamentais sobre o desenvolvimento das crianças e a importância das interações sociais no desenvolvimento. Um dos conceitos mais importantes que influenciaram a pedagogia é “Zona de desenvolvimento proximal” e que explora a relação educativa. Debruçou-se também sobre a importância do jogo e um contributo fundamental foi o seu trabalho sobre pensamento, linguagem e leitura simbólica que abriu caminho para a compreensão das relações entre arte e educação.

W

de Walter Omar Kohan, um filósofo da educação que se tem dedicado à filosofia na infância. Parte da inversão do conceito de educação da infância para infância da educação, problematizando a relação pedagógica. Esta provocação propõe a infância dos inícios, das potências e dos devires e que derruba a parede de vidro que separa crianças, jovens e adultos para, assim, encontrar uma qualidade comum vibrante e espantada mas exigente também: “…infância é devir, sem pacto, sem falta, sem fim, sem captura; ela é desequilíbrio; busca; novos territórios; nomadismo; encontro; multiplicidade em processo; diferença; experiência. Diferença não-numérica; diferença em si mesma; diferença livre de pressupostos. Vida experimentada; expressão de vida; vida em movimento; vida em experiência.” (Kohan, 2003) Podemos também fazer a pergunta invertida: o que é ser adulto? À primeira vista pode parecer distante da educação musical. Penso que o questionamento a estes níveis pode fazer reequacionar a relação pedagógica e manter infantil o modo entusiasmado de fazer e pôr coisas no mundo da educação musical. Ler mais aqui: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/educacao/0184.html

X

de xilofone, o instrumento mais democrático na educação musical. O xilofone pode fazer tocar num conjunto instrumental o instrumentista mais virtuoso ao mais iniciador. A tarefa constitui-se fonte de foco e atenção mais apurada e de prazer musical individual e coletivo, convocando um esforço pessoal adequado à competência de cada um.

Y

de Yellow Submarine dos Beatles, uma obra já clássica da história do pop e um bom exemplo de como cruzamento de linguagens, neste caso a música e a animação, são um campo rico para a criação. Podemos perguntar o que terá nascido primeiro, a história ou a música, o filme ou a banda sonora? O desvendamento dos processos criativos é um espaço extraordinário para a música na educação.

Z

de zirophone, instrumento inventado por um construtor de instrumentos improváveis do universo da música eletrónica a partir de gira-discos antigos e que numa instalação fascinante, pôs o público em interação numa lógica de DJ.

De A a Z para a Música na Educação... Ana Luísa Veloso

Ana Luísa Veloso

Ana Luísa Veloso: Membro da Direção da APEM

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A

de andamento, ou movimento. Movement, em inglês. A velocidade, o passo, a forma como a música nos embala. Designa normalmente uma secção de uma determinada obra como uma sonata, uma suite uma sinfonia. Tem este nome porque a música é movimento. Porque a primeira sensação que temos ao escutá-la é exatamente esse sentir compassado de ir ao som de, esse sentir que nos atravessa os músculos e que por vezes nos faz, involuntariamente, bater o dedo, o pé, abanar a cabeça.

B

de Biesta. Gert Biesta. Filósofo, Educador, Professor na Brunel University em Londres. Um discurso novo sobre a educação, e escola, os professores, tão próprio para os dias de hoje. Confronta-nos com os nossos conceitos enraizados de democracia e inclusão. Propõe que repensemos a questão da opressão e da liberdade do aluno à luz de filósofos como Rancière. Imprescindível para todos os educadores, inclusive os de música. Ruth Wight faz um trabalho notável nesta aproximação de Biesta à música e ao que poderá ser aquilo que Biesta denomina de Pedagogia de Interrupção. Vejam o artigo em http://act.maydaygroup.org/articles/Wright13_1.pdf

C

de colaboração e criatividade. Dois conceitos que nem sempre andam juntos. Temos a tendência para associar a criatividade ao grande génio solitário, mas a verdade é que cada vez mais se aponta para o facto de que, mesmo estes génios, muitas vezes trabalhavam em parceria, expunham e dialogavam sobre o seu trabalho com mais alguém, alguém próximo, fonte inesgotável de ideias. Em Inglês usa-se o termo Collaborative Criativity, um conceito recente, mas indispensável para compreender fenómenos como o jazz, as bandas rock, ou a improvisação e composição dos nossos alunos, quando é feita em grupos. Em breve publicarei um artigo no British Journal of Music Education que fala sobre isto... Estejam atentos!

D

de Damásio. Comecei a ler Damásio com 16 anos. O livro que li primeiro foi “O sentimento de Si”. Percebi muito pouco e vi de imediato que tinha de ir à fonte, ao seu primeiro livro, “O erro de Descartes”. Deixei-me fascinar e de imediato comecei a estabelecer pontes diversas entre esta teoria das emoções e sentimentos, a música e a educação. Continuei a estudar, li todos os livros e muitos artigos. O resultado desta senda está em parte na minha tese de Doutoramento: https://ria.ua.pt/handle/10773/9066

E

de entrada. Aquele momento que antecede a luz, que antecede o início da música. Silêncio. Normalmente alguém dá um sinal com a cabeça, faz uma pequena respiração que indica “Vamos começar”. É um dos momentos de maior ansiedade para os músicos, e também para o público. Mas nem sempre é preciso um gesto. Sérgio e Odair Assad, dois guitarristas virtuosos, irmãos, contavam que ensaiavam estas entradas de olhos fechados, ou então em partes diferentes da casa. Dizem eles que é algo que se sente, que se sabe.

F

de flamenco. Música que remonta a origens ciganas e mouriscas. A guitarra, a percussão, a dança, tudo se junta num arrepio feroz de expressão de uma cultura. Ritmicamente muito denso, convida à dança e ao movimento. As melodias desenham-se não raramente à volta da escala menor harmónica, o que lhe traz aquele tom de dramatismo e fatalidade. Um dos maiores expoentes, músico que muito admiro: Paco de Lucia.

G

de guitarra. O instrumento que toco, tantas vezes chamado de viola. O termo viola é importado do Brasil onde chamam à guitarra “violão”. Mas a guitarra não é uma viola. A viola (de arco) é um instrumento de orquestra, um pouco maior que o violino, com uma tessitura que se encontra entre este e o violoncelo. A guitarra é o instrumento que todos conhecemos especialmente devido à sua divulgação no mundo popular, com seis cordas, e uma ampla caixa de ressonância. Mas não é só da música popular que se faz a guitarra. Há um reportório extensíssimo dentro da música erudita, que foi sempre muito apreciado por todos os músicos, entre eles, o compositor Schumann.

H

de harpa. Dizem ser um instrumento com um som muito semelhante ao da guitarra. As cordas são dedilhadas, tal como a guitarra, mas às cordas, nas harpas modernas, junta-se uma panfernália de pedais que ao serem pressionados, encurtam cada corda num meio tom ou num tom completo, permitindo assim que a harpa possa passar por todas as tonalidades. Instrumento fascinante, não deixa ninguém indiferente aos seus largos glissandos, que tantas vezes evocam um estado melancólico e sonhador nos ouvintes.

I

de improvisação. Assim se designam os diálogos musicais, a conversa que flui entre os músicos, quando estes tocam em conjunto sem que todas as frases musicais estejam previamente pensadas. É a essência da música, que remontará às formas mais ancestrais do fazer musical: a pergunta resposta, “o give and take”, a música criada e pensada no momento. Hoje em dia volta a ganhar lugar entre alguns compositores contemporâneos eruditos, que designam nas partituras espaços específicos para os músicos improvisarem. Mas nunca perdeu o seu lugar em músicas como o jazz, o blues, e certas correntes da música pop-rock.

J

de Jaqueline du Pré. Jaqueline fala através do violoncelo. Os dois cruzam-se e tornam-se um só. Ficou famosa pela sua interpretação do Concerto de Elgar, que escutei pela primeira vez, e tocado por esta senhora, ainda adolescente. Nunca mais me esqueci da forte impressão que me causou, parecia que a estava a escutar ao vivo, ouvia-se a respiração, o arco a tocar nas cordas. O romantismo mais profundo ali, nas mãos de uma violoncelista tão nova, que morreu prematuramente de cancro. É uma interpretação obrigatória para qualquer pessoa que ame a música.

K

de Koln Comcert: Lembro-me de dizer aos meus alunos “Este concerto é todo improvisado”. Lembro-me do espanto deles, a acompanharem no youtube todos os movimentos da música genial de Keith Jarrett, todos as nuances, todas as respirações. O concerto continua a deixar marcas a cada nova geração que passa e acredito que nunca irá morrer.

L

de Landays: Poemas de mulheres Afegãs, construídos e partilhados quase na clandestinidade. São gritos dirigidos aos homens e à cultura masculina dominante. São poemas ditos, cantados, normalmente ao ritmo do bater de uma mão. São compostos apenas por dois versos, o primeiro normalmente com nove sílabas e o segundo com 13. Falam da guerra, da separação, do amor, do luto. Encontrei-os no livro “A voz secreta das mulheres afegãs: O suicídio e o canto” de Sayd Bahodine Majrouh, editado pela Cavalo de ferro.

M

de metrónomo: O inimigo de todos os músicos. Porque cada um tem o seu tempo, a sua forma particular de sentir a pulsação. Criado a bem do rigor, é no entanto imprescindível para o trabalho de peças com indicações muito precisas quanto ao tempo e também para música de conjunto, qualquer que ela seja.

N

de notação. Durante anos foi vista como uma das coisas mais importantes a aprender na aula de música, mas depressa se percebeu que não poderia vir antes do resto. Do tocar, do cantar, do mexer nos sons. Tal como a escrita e a leitura não surgem antes da fala. E depressa se percebeu também que quem a aprende tem de perceber o seu propósito. Por isso hoje se fala da notação inventada, que surge muitas vezes a partir das próprias composições criadas pelas crianças. Surge por necessidade. Ou para que ninguém se esqueça do que foi composto, ou para a poder mostrar a alguém. E aí, sim, faz todo o sentido. E desta notação inventada, se pode então partir para a tradicional fazendo pontes, estabelecendo relações.

O

de "Orelhudo". Projeto do Serviço Educativo da Casa da Música que se destina a divulgar e a promover a audição e a apreciação musical em Escolas do 1º Ciclo. Tratam-se de 90 segundos de música diários, de todos os estilos e épocas, que vêm acompanhados, não só de informações relevantes quanto à peça escutada, como a algumas de atividades relacionadas com a mesma. Para todos os que querem começar a introduzir música na sua aula, parece-me ideal. E apela-se à criatividade de todos os professores na criação/desenvolvimento de novas atividades! Procurem aqui: http://orelhudo.casadamusica.com/

P

de Paynter. John Paynter. Compositor e Educador Inglês, lutou nas décadas de 60 e 70 por uma Educação Musical em que a criatividade ocupasse um espaço mais amplo nas vivências musicais das crianças. No seu mais famoso livro Sound and Silence (1970) refere-se ao “fazer música”, como uma resposta à vida e ao mundo que nos rodeia. Porque se trata de uma arte, esta resposta é criativa, expressão de sentimentos através de materiais moldáveis pela imaginação das crianças. Paynter desenvolve uma filosofia baseada na enação criativa com materiais musicais, na exploração de técnicas utilizadas por compositores contemporâneos e numa visão do professor como guia e facilitador.

Q

de quadrivium. Nem sempre a música esteve relegada para segundo plano. Muito pelo contrário. Na Grécia antiga e na Idade Média, ela fazia parte do quadrivium, que, juntamente com a aritmética, a geometria e a astronomia, consistia no conjunto de disciplinas obrigatórias no início dos estudos Universitários. Nesta altura, a música era estudada a partir dos seus intervalos, de forma a compreender de teoricamente e a nível prático as relações entre as notas, e de que forma estas evoluem em padrões musicais.

R

de Reijsegerr. Ernst Reijseger, um dos maiores violoncelistas do nosso tempo. Um virtuoso, que teve sempre bastantes problemas com os seus professores, já que olhava para o seu instrumento de forma aberta e criativa. Quis sempre explorar outros sons, outras formas de olhar e tocar o violoncelo. Nos workshops que dá a crianças e jovens leva-os numa viagem em que os conceitos mais básicos ligados à técnica e interpretação de violoncelo são totalmente desconstruídos, e em que a cada um é oferecida a possibilidade de encontrar a sua própria voz na ligação com este instrumento (http://ernstreijseger.com/).

S

de Soundscape, ou paisagem sonora, foi um termo introduzido pelo compositor Murray Schaffer. A Soundscape é o som, ou conjunto de sons que emergem de uma imersão sonora num determinado ambiente, natural ou criado por seres humanos. Em termos educativos é um conceito que convida as crianças e jovens a escutar, arquivar, catalogar todo o mundo sonoro que as rodeia, utilizando depois este mesmo universo sonoro em novos processos criativos, de composição ou improvisação. Em Portugal a Sonoscopia criou uma plataforma dedicada ao armazenamento e catalogação destes sons. Vale a pena visitar: http://www.phonambient.com/
Filipe Lopes, por sua vez criou o Polishphone, um software, mapa sonoro, plataforma criativa, utilizável em qualquer sala de aula que tenha um computador:http://www.filipelopes.net/Software/polisphone.html

T

de tocata e fuga em ré menor. Usada em filmes, videojogos ou como tema base para muito do reportório do rock e do metal, é uma das obras mais emblemáticas de Bach, expoente do período Barroco. Originalmente escrita para órgão, foi alvo de inúmeros arranjos para diversos conjuntos instrumentais. A primeira parte, a tocata, deriva to italiano toccare, tocar; representa uma forma musical para instrumentos de tecla feita para demonstrar o virtuosismo do intérprete. A segunda parte, a fuga, diz respeito a uma técnica de composição muito utilizada no Barroco e na qual Bach era mestre, em que o tema evolui a partir de uma série de repetições que se vão montando como linhas sobrepostas.

U

de underground. Toda a música não comercial, alternativa, que foge às grande marcas e mercados. Liga-se às ideias de criatividade, liberdade de expressão, honestidade e sinceridade.

V

de Vygotsky. Pedagogo Russo, introduzido no mundo Ocidental a partir das traduções feitas dos seus escritos por Jerome Bruner. Percursor da Psicologia Sociocultural cujos conceitos e ideias, apesar de terem sido escritos, maioritariamente, na década de 30, perduram até hoje na investigação e nas práticas educativas. No mundo anglo-saxónio, que domina grande parte da investigação escrita acerca da Educação Musical, é, juntamente com Bruner, autor basilar da recente Cultural Psychology of Music.

W

de Waters, Roger Waters, músico, baixista, e letrista fundador dos Pink Floyd, banda de rock psicadélico até hoje incontornável. The Dark side of the Moon, Wish You Were Here, Animals e The Wall, são alguns dos álbuns que ficam para a posteridade.

X

de Xerazade. Raínha Persa, narradora das mil e uma noites, foi inspiradora de uma série de obras musicais com o mesmo nome, como o poema sinfónico de Rimski-Korsakov, a abertura para orquestra de Ravel ou o ciclo de canções para voz e orquestra, também de Maurice Ravel.

Y

de Youth, Sonic Youth. Banda alternativa, formada em Nova Iorque em 1981. Incorporou uma série de técnicas experimentais e do noise no seu rock duro, muito influenciado pelo punk e pelo hardcore. Influenciou grande parte da minha adolescência e grande parte da minha forma de pensar a música.

Z

de Zorn. Saxofonista, compositor, e improvisador, virou o mundo da música do avesso com o seu estilo free improv. Criou um novo estilo de composição colaborativa baseada na improvisação, uma série de “Peças/jogo” que tocou com músicos como Dereck Baily ou Mike Patton. Criou também aquilo a que apelidou de “música judaica radical”, essencialmente através do grupo Masada. Fundador dos Naked City, onde tocou com alguns dos maiores músicos da cena improv: Bill Frisell, Fred Frith, Joey Baron e Wayne Horvitz.

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A Associação Portuguesa de Educação Musical, APEM, é uma associação de caráter cultural e profissional, sem fins lucrativos e com estatuto de utilidade pública, que tem por objetivo o desenvolvimento e aperfeiçoamento da educação musical, quer como parte integrante da formação humana e da vida social, quer como uma componente essencial na formação musical especializada.

A APEM é filiada na ISME - Internacional Society for Music Education como INA - ISME National Affiliate

Cantar Mais

Cantar Mais – Mundos com voz é um projeto da Associação Portuguesa de Educação Musical (APEM) que assenta na disponibilização de um repertório diversificado de canções (tradicionais portuguesas, de música antiga, de países de língua oficial portuguesa, de autor, do mundo, fado, cante e teatro musical/ciclo de canções) com arranjos e orquestrações originais apoiadas por recursos pedagógicos multimédia e tutoriais de formação.

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