Newsletter da APEM
APEMNewsletter - Fevereiro de 2017
Editorial- APEMNewsletter - Fevereiro de 2017
O mês de fevereiro foi cheio de acontecimentos de relevo para a música na educação. Vamos dar conta de alguns em que participámos e deixar a nossa reflexão.
Clique nos links em baixo para ler o editorial desta newsletter:
Logo no início do mês, e durante três dias, realizou-se na Gulbenkian, o 1º Congresso do Ensino Artístico Especializado, uma iniciativa e organização da Associação de Estabelecimentos do Ensino Particular e Cooperativo. Com um programa muito ambicioso e diversificado de temáticas do ensino da música e da dança, o congresso organizou-se em painéis de discussão, conferências, sessões de apresentação, workshops e momentos artísticos.
Pudemos constatar um enorme número de participantes e um ambiente de satisfação pelo encontro de estudantes, professores, músicos e outros profissionais que poucas oportunidades têm de se juntar à volta destas questões.
Sobre esta temática e as suas implicações, acompanhamos o estudo e a reflexão de António Vasconcelos que há muito reflete e escreve sobre o Ensino Artístico Especializado (EAE), pelo que recomendamos, para quem pretender aprofundar esta temática e ter um enquadramento e uma visão global das políticas e do que está em causa, uma leitura atenta do seu artigo Ensino Especializado de Música: Encontros e Desencontros, no próprio blog:
http://antonioangelovasconcelos.blogspot.pt/
Realçamos ainda aqui duas questões que nos merecem toda a nossa atenção relativamente aos projetos educativos das escolas do EAE e às questões curriculares:
(1) As finalidades do ensino básico e secundário do EAE da música e (2) a construção e o desenvolvimento dos currículos da música no EAE.
Estas duas questões, interdependentes e com consequências diretas na definição de políticas educativas aos mais diversos níveis, desde logo na formação de profissionais e no financiamento público, remetem para a necessidade de definição das finalidades das escolas do EAE.
Para que servem as escolas do EAE? Para formar músicos? Para proporcionar uma educação/formação musical que não existe no chamado ensino regular? Porque razão uma percentagem grande de alunos desistem no 5º grau deste ensino?
Não conhecendo a existência de estudos sobre este abandono, ele é um facto detetado e comentado por muitos professores e responsáveis de escolas do EAE e que tem consequências a muitos níveis.
Os projetos educativos das escolas de música do EAE têm que ter bem definido o porquê da sua existência, o para quem e o como para atingir os objetivos a que se propõem, sendo a avaliação, pelo menos a interna, do próprio projeto, uma necessidade e uma obrigação para os ajustamentos e melhorias que se considerem dever fazer. Os currículos das escolas tornam-se o meio através da qual se operacionalizam as finalidades educativas.
Apesar de neste encontro do EAE ter havido alguma reflexão sobre os currículos, articulação curricular, ensino do instrumento, o papel da formação musical, o repertório e um painel dedicado somente à avaliação dos alunos, o caminho ainda está muito por fazer.
E, como disse, estas duas vertentes das problemáticas do EAE (finalidades e currículos) têm que ser colocadas em simultâneo em cima da mesa e têm que ser discutidas por todos os intervenientes e a sociedade em geral. A necessidade da elaboração de um Plano Nacional da Música, uma proposta da APEM desde 2013, passa por aqui e tem sido retomada nas várias instâncias onde nos representamos e agimos.
A 5ª edição da Music & Drama Education Expo realizou-se no London Olympia nos dias 9 e 10 e respeitou os mesmos moldes das edições anteriores: uma grande exposição de editores (grandes e pequenos) do sector da educação artística num total de mais de 150 expositores num único espaço. A variedade é imensa e ficamos, sem dúvida, com a noção do que se está a produzir e que, cada vez mais, liga a educação e a produção artística.
A par desta exposição decorreram conferências que incluíram mais de 60 sessões abrangendo diversas áreas, nomeadamente: tecnologia, políticas e financiamento, negócios, práticas musicais, drama, currículo e avaliação, música do mundo, espírito e corpo, tendências e abordagens, necessidades educativas especiais e inclusão. Realçamos a fantástica conferência de Dr. Alison Daubney (University of Sussex) e Professor Martin Fautley (Birmingham City University) sobre Curriculum, pedagogy and assessment: challenges and possibilities.
Apesar de serem realidades com histórias muito diferentes, pudemos encontrar na comunicação destes dois professores, e com base num estudo da própria Dr. Alison Daubney, vários aspetos comuns e que aqui já abordámos, nomeadamente a preocupação com a desistência dos alunos da música no ensino secundário.
Apesar do currículo nacional em Inglaterra garantir 10 anos de aprendizagem musical sem interrupções para que todas as crianças possam tocar instrumentos, compor e ouvir música na escola todas as semanas, a realidade demonstra que não existe oferta de música em algumas escolas do ensino secundário (começa no 7º ano de escolaridade) e existem desdobramentos noutras, ou seja, providenciam aos alunos do 7º ano, 30 minutos por semana durante 7 semanas do ano letivo, e no 8º ano, 25 minutos por semana durante 6 semanas.
Neste quadro, o trabalho destes dois professores nesta conferência consistiu na apresentação de dois documentos de apoio ao trabalho dos professores de música sobre o currículo da música, pedagogia e avaliação, um para a educação pré-escolar e escolas primárias (até ao 6º ano) e outro para o ensino dos 11 aos 14 anos (3 anos, correspondentes ao nosso 3º ciclo).
A mensagem final destes dois professores é a mesma e aquela com que nos identificamos: “a música é uma área do currículo prática; é académica, criativa, técnica, intelectual e desafiadora. A aprendizagem musical é sobre pensar e agir como músico. Isto quer dizer que as aulas de música devem ser sobre aprender música com música e através da música e não apenas sobre música.
As aulas de música nas escolas deviam centrar-se no desenvolvimento da imaginação e da criatividade das crianças. As crianças chegam à escola já com vida musical que é prática e experiencial, e que contribuiu para a sua memória auditiva. Portanto as aulas de música na escola não devem partir do princípio que as crianças não sabem nada e que não têm experiências musicais anteriores”.
Estes dois documentos e um outro também acabado de publicar sobre “Performance anxiety: a practical guide for music teachers” estão disponíveis no site do Incorporated Society for Musicians:
A apresentação do Perfil dos alunos à saída da Escolaridade Obrigatória também aconteceu este mês estando o documento em discussão pública até dia 13 de março: http://dge.mec.pt/perfil.
A APEM revê-se neste documento que envolveu muita reflexão e discussão, tanto no grupo de trabalho criado para o efeito, como na direção da APEM. Refletimos sobre todas as áreas de competências que se selecionaram e se consideraram essenciais para a formação de todos os cidadãos, independentemente da sua origem socioeconómica, cultural, religiosa e das opções que poderão ser feitas posteriormente.
Pretendeu-se fazer um documento claro, sucinto, com uma perspetiva de escola, mas que essencialmente fosse um guia útil onde se anunciam os princípios fundamentais em que assenta uma educação que o Estado obriga e que se pretende inclusiva. Não se descobriu a pólvora, nem se fez nada de novo, a não ser sistematizar e explicitar o que ainda não estava feito. E esse passo foi importante.
Em 1986 foi publicado O perfil cultural desejável do diplomado do ensino secundário, um documento que para muitos passou despercebido, mas muito completo e também com uma clara perspetiva de escola que, não fosse o desenvolvimento do conhecimento científico e tecnológico do século XXI e o que isso implica na educação, seria um perfil ainda atual. Este mesmo documento referia, no final, os meios, condições e as ações dos professores e das escolas que permitiriam uma melhor concretização do perfil que se definia.
No entanto, 30 anos depois, constatamos que muitas das medidas então preconizadas foram no sentido contrário. Só para dar dois exemplos: a constituição de escolas de dimensão humana e com laboratórios e espaços para as atividades artísticas. O que aconteceu? Constituíram-se mega agrupamentos sem laboratórios e reduziram-se ou desapareceram as atividades artísticas curriculares.
O perfil dos alunos ora apresentado, não refere os meios para a concretização deste perfil, mas sim as Implicações práticas que daí decorrem e que dizem respeito às alterações de práticas pedagógicas e didáticas. Como sabemos, as práticas pedagógicas e didáticas são da responsabilidade dos professores no quadro da sua autonomia profissional que se concretiza numa ação educativa formativa especializada e que visa a concretização da aprendizagem dos alunos. Pensamos que não devemos desistir da nossa profissionalidade que é a nossa identidade e que se deve exercer todos os dias.
As aprendizagens essenciais em música, de que já demos conta na APEMNewsletter de janeiro http://www.apem.org.pt/associacao/noticias/index.php?post_id=63, também têm sido trabalhadas na APEM.
Refletir e chegar a conclusões sobre o que é essencial que se faça em música na escolaridade obrigatória, pensando o currículo como um todo e a música como arte e a natureza do conhecimento musical como essencialmente prático, foi o que esteve na base da seleção das competências que propusemos para este novo documento e que submetemos este mês à Direção-Geral de Educação.
Também este mês, participámos no debate sobre a educação artística e as pontes que podem ser estabelecidas entre o trabalho feito pelos artistas em contextos não formais e informais e o trabalho que é levado a cabo por professores e por educadores no dia a dia da escola a propósito do projeto INsono.
Sim, é possível e urgente que a escola saia da escola para depois poder entrar de novo com outros mundos enriquecidos de “matéria” artística que ajudarão a transformar o pensamento e a ação. A relação dos artistas com a sua própria arte e com a educação e a relação da escola, professores e alunos, com a arte e os artistas são cruzamentos cheios de potencialidades para todos, uns e outros, e que os serviços educativos das instituições culturais devem e podem pensar. O trabalho da Fábrica das Artes no CCB é um bom exemplo dessas possibilidades.
Manuela Encarnação
A APEM
A Associação Portuguesa de Educação Musical, APEM, é uma associação de caráter cultural e profissional, sem fins lucrativos e com estatuto de utilidade pública, que tem por objetivo o desenvolvimento e aperfeiçoamento da educação musical, quer como parte integrante da formação humana e da vida social, quer como uma componente essencial na formação musical especializada.
A APEM é filiada na ISME - Internacional Society for Music Education como INA - ISME National Affiliate
Cantar Mais
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© Associação Portuguesa de Educação Musical
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