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Editorial da APEMNewsletter - Dezembro - 2018

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Uma história que todos poderíamos contar...

A Maria entrou no jardim de infância da zona da sua residência com três anos. O jardim de infância tinha acabado de abrir portas. Todas as salas eram contentores com todas as condições. A escola fazia um grande L de contentores e no meio havia um espaço de recreio ao ar livre mas também com grandes espaços protegidos da chuva e do sol, a que chamavam telheiros. A escola tinha três salas do pré-escolar: uma para as crianças dos 3-4 anos, outra para crianças com 4-5 anos e a sala dos crescidos com crianças de 5-6 anos. As educadoras de infância, todas mulheres, tinham idades entre os 40 e os 50 anos. Conheciam-se há muito e preparavam atividades e passeios com as crianças fora da escola, em conjunto.

No Natal, Páscoa, e Santos Populares organizavam uma festa para as famílias das crianças que se apresentavam num palco improvisado que a junta de freguesia cedia à escola. Do programa das festas constava, invariavelmente, um repertório de canções de acordo com a época festiva, um teatrinho, como sempre era referido, e um lanche para todos, organizado com a participação e generosidade das famílias.

Dos 3 aos 6 anos, a Maria aprendeu 9 canções e cantou em todas as festas no palco da escola.

Quando entrou para o 1º ano do ensino básico, a Maria já tinha vários livros e cadernos e um estojo. Durantes os quatro anos do 1º ciclo a Maria teve duas professoras diferentes. No 1º e 2º ano a professora gostava muito de cantar e tinha uma voz linda, como a Maria dizia - e todos lhe pediam para cantar. A professora ensinava uma canção por semana aos seus alunos e colocava música a tocar na sala quando as crianças faziam atividades de expressão plástica. No 3º e no 4º ano, a Maria mudou de professora porque a anterior foi para outra escola. A nova professora era muito séria e dizia que não tinham tempo para músicas porque era preciso que todos aprendessem muito bem o português, a matemática e o estudo do meio. Havia muita matéria para trabalhar.

Quando a Maria transitou para o 2º ciclo, teve um professor de música no 5º ano, uma vez por semana, e durante o 6º ano teve dois professores. O primeiro era mais velho, esteve doente e faltou a muitas aulas. No 2º período, foi substituído por uma professora mais nova que fazia umas aulas que a Maria gostava muito. Ouviam muitas músicas de géneros diferentes e cantavam em todas as aulas, mas o que a Maria gostava mais eram os trabalhos de grupo de composição musical com instrumentos e vozes que depois tinham que apresentar aos colegas para eles darem a sua opinião. No final do 6º ano, fizeram um grande concerto na escola. Apresentaram as suas melhores composições num palco improvisado no refeitório da escola, que foi todo preparado pelas professoras de música e de educação visual, que passaram um fim de semana a preparar tudo para a festa. Durante a última semana de aulas conseguiram fazer três ensaios e no dia da festa estavam as famílias de muitos alunos.

Os pais perguntaram se no 7º ano os seus filhos podiam continuar a ter música, mas a professora explicou que não podia ficar na escola porque estava a substituir o professor doente e tinha obrigatoriamente que concorrer para outras escolas. Por sua vez, o diretor da escola explicou aos pais que não tinha professor de música no 3º ciclo para a oferta complementar na área artística, mas todos os alunos iriam ter educação tecnológica.

Quando terminou o 7º ano, os pais da Maria ofereceram-lhe uns auscultadores para o seu smartphone e a Maria descarregou da internet uma aplicação que lhe permitia ouvir toda a música que queria, gratuitamente.

Quando terminou o 9º ano, juntou dinheiro e comprou bilhetes para o concerto da sua banda preferida, que veio a Portugal. Quando a Maria entrou no ensino secundário, a escola da sua residência também não oferecia qualquer disciplina da área da música e entretanto a Maria ia ouvindo música no seu telemóvel, enquanto se preparava para os exames de acesso ao ensino superior.

Esta história, que todos conhecemos, representa a educação musical que é proporcionada à grande maioria dos alunos do ensino geral público, durante os 12 anos da escolaridade obrigatória.

A publicação do Estado da Educação 20171 pelo Conselho Nacional de Educação refere, com todo o rigor, as melhorias da educação em Portugal nas suas várias dimensões. Este ano, o relatório, pela primeira vez, apresenta o quadro de referência para as políticas europeias e nacionais. A Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável abrangendo 17 objetivos. Desses, Portugal dá prioridade a 6 e nós destacamos o objetivo da “Educação de Qualidade - formação e qualificação, ao longo da vida, procurando “inverter atrasos e exclusões históricos”. Inverter atrasos e exclusões implica uma educação artística para todos onde a música, proporcionada pelo sistema educativo público, não pode ter a irregularidade, a pobreza e a marginalidade curricular que a Maria vivenciou no seu percurso escolar que até foi de sucesso estatístico.

Ciclicamente ouve-se defender a música no currículo com a justificação dos inúmeros estudos mostrarem que as crianças que recebem uma educação musical apropriada nos primeiros anos terão funções cognitivas, competências linguísticas e aritméticas e capacidades motoras finas, mais desenvolvidas, assim como uma atitude social mais aberta e flexível em comparação com aquelas que não recebem educação musical. No entanto, a música como área do conhecimento humano, arte e prática social, por si só, não precisa de outras justificações para existir no currículo. Precisa sim, de uma agenda política que finalmente não a ponha em causa e assuma um plano nacional da música com uma visão clara do que se pretende e com as garantias de meios de operacionalização para um educação musical de qualidade, para todos, na escolaridade obrigatória do ensino geral público.

1 http://www.cnedu.pt/pt/noticias/cne/1364-estado-da-educacao-2017

Manuela Encarnação


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