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O sonho de John Finney

Desde há uns anos que sigo muito de perto o pensamento do Professor John Finney através do seu blog1 Music Education Now. Uma média de duas publicações mensais com textos pertinentes, incisivos, sintéticos, objetivos, questionadores, inteligentes, reflexivos e com humor, que me deixam, invariavelmente, a pensar.

No primeiro texto de 2019, John Finney promete que, no blog, o currículo será o desígnio do ano. Em 2018, tinha tido a obsessão com as questões do conhecimento e as suas complexidades no caso da música, tendo dado especial atenção à natureza do conhecimento musical e à forma como tem sido conceptualizado como parte do currículo.

De referir que as suas preocupações se têm centrado na perspetiva da música para todos, ou seja, no currículo da música no ensino geral. Em Inglaterra, 2019 será o ano dos três “is” do currículo, como refere Finney: Intenção (objetivo), Implementação, Impacto. Mais uma razão para continuar com uma imensa curiosidade e expectativa a acompanhar as reflexões deste pensador.

No seu terceiro texto deste ano, Finney descreve-nos um sonho que teve sobre o currículo da música e a música no currículo. Por ter a certeza que esse sonho podia ter sido sonhado por muitos de nós, achei que valia a pena analisá-lo aqui.

No seu sonho, John Finney vê um grupo de especialistas contratados pelo ministro da educação inglês a trabalhar na criação de um novo modelo de currículo da música. Formulam, então, a seguinte definição:

“O currículo musical pode definir-se como um conjunto dinâmico de processos e práticas musicais, enquadrados por um discurso e um diálogo culturais, quer históricos quer contemporâneos, que se materializam nos encontros musicais entre alunos e professores.”

Consideravam os especialistas, neste sonho que Finney nos descreve, que a música deveria ter o seu lugar na educação geral, até aos 14 anos de idade, com o grande objetivo de “Desenvolver musicalmente crianças e jovens de modo a terem uma compreensão de si mesmos, enquanto indivíduos e enquanto membros de uma sociedade complexa e em rápida transformação, futuros cidadãos nessa sociedade democrática.”

Neste sonho, prossegue Finney, e em mãos com um propósito do currículo musical de tal importância, os especialistas referiam como o sistema teria que ser amplamente melhorado, nomeadamente no que dizia respeito à formação de professores e à alocação de tempo e de recursos materiais no currículo, definindo como objetivos musicais:

  • “Dotar todos os alunos com os conhecimentos, capacidades, condições e compreensão para bem fazer música.
  • Induzir os alunos no fazer música das culturas existentes, como fonte de envolvimento criativo e crítico.
  • Possibilitar que todas as crianças se tornem indivíduos únicos, pessoalmente enriquecidos e capazes de experienciar um sentido de liberdade pessoal através da música e do fazer música.”

Os especialistas, no sonho de Finney, propunham que até o final do 9º ano, os alunos tivessem apropriado, “nas suas mentes e corpos, músicas, melodias, riffs, ritmos e muitos estilos musicais, sendo o fazer música uma parte integrante da sua aprendizagem, demonstrada no seu know-how técnico, na fluência, no controle expressivo e nas suas relações musicais com os outros. Isto, conseguido através da introdução de material musical contextualmente rico”. Os alunos poderiam “refletir sobre a sua própria criação musical e a criação musical de outras pessoas através de conversas, leitura e escrita sobre música. As aulas funcionando como uma comunidade de compositores e críticos onde as relações entre aluno, professor e o que era aprendido criariam um discurso musical aberto.”

Desta forma, concluíam aqueles especialistas, os alunos ficariam “a entender como funciona a música no mundo, por que e como é feita, que funções pode ter e como se atribui significado à música. Resultando num reconhecimento de que a música tem "interesse humano", social, cultural e político”. Este sonho, fatidicamente, acaba de forma muito estranha: o ministro entra em cena e decide desfazer aquele grupo de trabalho e anunciar a criação de outro.

Um final irónico? Porque será que no sonho de John Finney sobre a música na educação geral na Inglaterra de 2019 não existe vontade política para reconhecer este papel da música no currículo do ensino geral?

Afinal, que parecidos podem ser os sonhos, mesmo que sonhados em realidades e tradições aparentemente tão diferentes...

1 https://jfin107.wordpress.com/

Manuela Encarnação


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