Artigos de Opinião

De A a Z para a Música na Educação

Desde janeiro de 2017 a APEMNewsletter tem uma nova rubrica: De A a Z para a Música na Educação.

Convidamos professores, investigadores, músicos, artistas de outras áreas, políticos e mais cidadãos interessados, a apresentarem o seu abecedário de Música na Educação.

A partir de palavras organizadas por ordem alfabética, os autores convidados apresentam uma seleção de palavras e uma pequena justificação dessa seleção criando a sua visão sobre a música na educação.

É um desafio, um risco, um exercício criativo e também um bom princípio para refletirmos sobre este tema, que já nasceu no Encontro Nacional da APEM em novembro passado com a temática: “Que futuros para a Música na Educação?”

Clique aqui para ler todos os artigos de A a Z publicados.

De A a Z para a Música na Educação por... Rosário Correia

Rosário Correia

Rosário Correia

Desenvolve a sua actividade profissional como professora de música e como diretora coral.

Licenciou-se em Direção Coral pela Escola Superior de Música do Instituto Politécnico de Lisboa. Concluiu o Curso Geral de Música no Conservatório de Música de Lisboa em flauta transversal, canto e composição.

Foi durante seis anos flautista da Orquestra Sinfónica Juvenil. Frequentou os cursos de Música Barroca da Casa de Mateus em flauta transversal barroca e os cursos de Música Ibérica em Canto (Portugal e Urgell). Frequentou vários cursos intensivos de Direção Coral sob a orientação de vários professores como Anton de Beer, Edgar Saramago, Erwin Lizt, Pepe Prats, Laslo Heltay, Martin van Tilburgh, John Roos, Ger Hovius e José Robert.

Concluiu o curso de Direção Coral da Academia dos Amadores de Música de Lisboa e organizou durante seis anos os cursos internacionais de Direção Coral de Sines, com o Centro Cultural Emmerico Nunes.

Frequentou os workshops do Mosteiro dos Jerónimos ligados à Polifonia Portuguesa e os cursos de Metodologia Kodály promovidos pelo Museu da Música Portuguesa e Pedagogia de Canto com o Prof. Vianey da Cruz. Foi professora de coro, formação musical e flauta na Escola Profissional de Arcos do Estoril e directora do Coro La Follia, do Coro da Universidade Internacional e do Instituto Superior Técnico. É professora de Educação Musical e diretora do Coro Lusíada desde a sua fundação.


Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de Acordai e de A cappella.

Acordai obra musical de F.L.Graça com poema de José Gomes Ferreira. A força do texto, a simplicidade e beleza melódica da escrita musical conseguem criar uma atmosfera límpida, cheia de intensidade musical, tão característica na obra deste compositor.

https://youtu.be/wsyzpyz2R3Y

A cappella termo utilizado para designar a polifonia sem acompanhamento do sec. XV e XVI. Quando as vozes se bastam a si próprias e conseguem criar vibrações, harmonias, cumplicidades são das melhores experiências que o ser humano pode usufruir. Construir estas experiências com as crianças é muito gratificante para elas e para nós.

B

de Benjamin Britten (1913-1976).

Compositor Inglês que, em 1946, compõe para o documentário educacional britânico a obra musical “The young person’s guide to the orchestra”. Um conjunto de variações e fuga baseado no 2º andamento da “Suite Adbelazer” de Henry Purcell. Uma obra essencial para a divulgação dos instrumentos de orquestra e ligação ao tema, à forma e aos instrumentos barrocos.

https://youtu.be/-WrlwY-Kjp4

https://youtu.be/subbtBVMVm0

C

de Concerto.

O termo remonta à renascença às peças policorais escritas por compositores como Giovanni Gabrieli. O Concerto, audição pública, acontecimento que reúne os músicos e o público num mesmo momento e espaço, numa vivência musical conjunta. É importante na formação a audição e a proximidade aos músicos, assim como também as audições do trabalho musical dos alunos. A apresentação pública implica compor, criar, cantar, colaborar, tocar, ensaiar, participar, …

D

de Direção Coral.

Técnica necessária para o trabalho coral. O gesto e a intenção. O som coral. Conhecer as potencialidades de um grupo e desenvolvê-las. Com o intuito de melhorar o Movimento Coral em Portugal foi lançado no Verão de 1989, pelo Centro Cultural Emmerico Nunes em Sines, o 1º Curso Internacional de Direcção Coral. Durante seis anos consecutivos foram professores Anton de Beer, Edgar Saramago, Martin van Tilburg, John Roos e Vianey da Cruz, que divulgaram e ensinaram Direção Coral, dentro da técnica da escola holandesa.

E

de Eric Ericson (1918-2013).

Maestro sueco que se destacou pela sua qualidade técnica. Para muitos jovens, cantar num coro significa o seu primeiro contacto com a música e deve ser por isso uma experiência gratificante e de qualidade. Defendeu que cantores e professores de formação musical devem ser também diretores corais. Em Portugal estamos no bom caminho. Realizou com mais dois maestros o livro “Choral conducting”, editado pela Walton Music Corporation New York, método que abarca todas as vertentes da direção coral.

F

de Francisco d’Orey (1931-2020).

Maestro, produtor, animador e divulgador musical. Para a RTP (1970 -75) realizou o programa “Inventário Musical”, foi co-produtor e assistente musical do programa “Povo que Canta” de Michel Giacometti e Concertos em Diálogo com Manuel Jorge Veloso. São programas a rever. Dirigiu inúmeros coros, entre eles o Coro da Universidade de Lisboa, com o qual ganhou o 1.º prémio em música de câmara (no Festival Eistedfodd de Middlesborough, 1968), o coro da Juventude Musical Portuguesa, o Coro Eborae Música e o Grupo Vocal Arsis. A sua sonoridade coral era muito própria, musicalmente inspirado e foi inovador nas abordagens cénicas em concerto. O espaço físico e a acústica serviam sempre para explorar as temáticas e sonoridades musicais.

https://vimeo.com/31957173

G

de Gostar, de F. L. Graça e de Guitarra.

Só se pode gostar daquilo que se conhece. Uma das vertentes importantes do professor é dar a conhecer, alargar os horizontes, debater e explorar temáticas com os alunos.

F. L. Graça (1906-1994) foi um compositor profícuo que acompanhou todo o século XX. Quanto mais se ouve, mais se descobre e mais se gosta. A sua obra musical tem despertado o interesse, estudo e a gravação pelos jovens músicos. As crianças tiveram lugar na sua criação musical. As obras “A menina do mar”, “Aquela nuvem e outras” e o “Presente de Natal” são exemplo disso.

https://youtu.be/DLwa0jcdJco

Guitarra Clássica, instrumento de cordas que muitos alunos têm e que pretendem aprender nas escolas. É um óptimo meio de trabalho musical em grupos pequenos, evolutivo na técnica do instrumento e no conhecimento de pequenas obras musicais ao longo da história da música. Desde o início habituam-se à prática de conjunto.

H

de Helena Lamas (1932-2019).

Professora de música e piano. Entre várias atividades e programas ligados à rádio e à televisão, foi organizadora dos concertos do Grupo de Música Antiga de Lisboa. Tita Lamas como era conhecida, foi a grande impulsionadora da Animação Musical a partir de 1974 através da Juventude Musical Portuguesa e em 1981 como presidente do Grupo Animação Musical. Debatiam-se ideias, preparavam-se programas e formas criativas de levar a música às escolas. Muitos de nós fizemos aqui a nossa primeira aprendizagem pedagógica e criativa no ensino da música.

I

de Intérprete / Instrumento musical.

Jordi Savall (1941) gambista, professor, maestro e especialista em Música Antiga. Deu voz à Viola da Gamba e à música antiga ibérica. Formou os agrupamentos Hespèrion XX em 1974, la Capella Reial da Catalunya em 1987, e Le Concert des Nations em 1989, com os quais apresentou reportórios da Idade Média ao séc. XVIII. Excelente músico catalão, com um longo percurso de concertos e gravações.

Folias de España – Jordi Savall https://youtu.be/5Frq7rjEGzs

J

de Joly Braga Santos (1924-1988).

Compositor e professor de composição do Conservatório Nacional de Música. A 4ª Sinfonia foi composta em 1950 e foi dedicada à Juventude Musical Portuguesa, instituição da qual foi um dos fundadores. A obra termina com o “Hino à Juventude” com texto do poeta Vasconcellos Sobral (1930-2016). Tem um significado especial ouvir este hino tocado pela Orquestra Geração que tem proporcionado a muitos jovens uma excelente formação musical e humana.

https://youtu.be/DDqcqqf3--I

K

de Kodály, Zoltán (1882-1967).

Compositor, etnomusicólogo e professor húngaro cuja metodologia para o ensino da música está mundialmente difundida. A par da excelente obra orquestral e de câmara deu especial importância à música coral.

“Esti dal” Cantemus Children’s Choir da Hungria. https://youtu.be/1MKZ1O21M80

“Turot eszik a cigany” pelo Gondwana choral School https://youtu.be/lcgLk_QojYc

L

de Lundum da Figueira.

“Noutros tempos a Figueira da Foz dançava o Lundum”, canção dançada com ritmo sincopado. Recolha de Pedro Fernandes Tomás (1853-1927). Esta obra sugere-me inúmeras atividades com os alunos. F.L.Graça na 1ª suite “Viagens na minha terra” apresenta-nos uma versão orquestral (1969), gravada pela Orquestra Sinfónica de Budapeste em 1980, e uma versão para Piano solo (1953/54), gravada pela pianista Joana Gama em 2019.

M

de Museu da Música Portuguesa e de Maria Helena Pires de Matos (1938-2011).

Esta instituição museológica foi fundada em 1987 e reúne hoje os espólios de Michel Giacometti, Fernando Lopes-Graça, Álvaro Cassuto e o arquivo histórico do Sindicato dos Músicos. Além da investigação promovida no Centro de Documentação, o museu tem um programa de atividades com exposições, visitas guiadas, ação educativa e concertos. Os concertos comentados para as escolas são realizados com a OCCO, e a Maleta Pedagógica, um acordeão gigante, é uma caixa de instrumentos tradicionais, com réplicas da coleção Giacometti e que antecedem a visita à exposição permanente. Em 2008 e durante cinco anos consecutivos, o museu promoveu os cursos creditados de Formação de Professores sobre a metodologia Kodály. Foram professores László Nemes do Instituto Kodaly da Hungria e Cristina Brito da Cruz, da ESML.

Maria Helena Pires de Matos (1938-2011), dedicou-se ao estudo e ensino do canto gregoriano, tendo trabalhado com vários especialistas, e foi investigadora em paliografia musical e história da liturgia. Foi professora do Instituto Gregoriano, da Escola Superior de Música de Lisboa, da Universidade Católica do Porto e directora do Coro Gregoriano de Lisboa desde a sua fundação (1989). Sob a sua direção o coro foi distinguido com o prémio “Choc” do Le Monde de la Musique e com o Diapason d’Or. Destaco as grandes qualidades de professora exigente, entusiasta e incentivadora. Introitus: Da Pacem,… gravação de 1997

https://youtu.be/N9B_RcMnDzQ

N

de Notação Musical.

Sistema de escrita que representa graficamente uma obra musical. A notação tem uma história longa e complexa. Continua a ser um mundo a explorar.

O

de Orquestra Sinfónica Juvenil.

Foi fundada em 1973. É uma orquestra de jovens com atividade permanente e tem desempenhado um papel fulcral na formação de jovens músicos, numa perspetiva de experiência, aperfeiçoamento e profissionalização. Ainda continua a ter grande importância no meio musical, no tempo em que surgem outras orquestras e grupos de câmara de jovens. Para aqueles que não seguem a profissionalização fica-lhes a experiência musical enriquecedora que é tocar em orquestra.

P

de Património.

É um conjunto de bens importantes para a transmissão da memória e da identidade cultural. O livro “História da Música”, da autoria de Rui Vieira Nery e Paulo Ferreira de Castro, apresenta uma visão de conjunto da evolução da música em Portugal desde o período medieval até aos nossos dias. É uma edição da Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Os Órgãos históricos de Machado e Cerveira e Peres Fontanes, da Basílica do Palácio de Mafra, são um exemplo vivo de um património histórico e músical único no mundo. Formam um conjunto instrumental de seis órgãos, capazes de tocar em simultâneo. Situação inédita no mundo e que nos dá a conhecer um conjunto de obras de época, e tem estimulado a criação de novos arranjos e novas obras musicais. António Leal Moreira (1758-1819) “Sinfonia” para a Real Basílica de Mafra (seis órgãos)

https://youtu.be/T9R8jQ_SmSI

Q

de Quadros de uma Exposição.

Obra do compositor russo Modest Mussorgsky (1839-1881), para a exposição dos quadros do seu amigo Viktor Hartmann. A obra foi originalmente composta para piano (1874) e posteriormente foi realizada uma versão orquestral (1922) por Maurice Ravel. Para além da audição comentada das duas versões, pode servir de mote para estimular a criatividade dos alunos na escolha de uma obra musical e uma obra de pintura, ou até na criação de novos quadros.

https://youtu.be/kkC3chi_ysw

R

de Sergei Rachmaninov (1873-1943).

Compositor russo, dedica as “Vésperas” à memória do musicólogo Stephen Smolenski. Nesta obra o compositor incorpora muitos cânticos tradicionais que acabam por influenciar as suas próprias melodias, criando uma unicidade ao longo da obra. A peça “Bogoroditse Devo”, transporta-me para Roma, à Chieza di Sant’ Ignazio, no ano de 1997, ao V Concurso Corale Internazionale di Musica Sacra “Giovanni Pierluigi da Palestrina”, onde participei com o Coro Universidade Lusíada, tendo ganho o 1º prémio.

https://youtu.be/XNVuJjpH8R0

S

de Stefano Landi (1586-1639).

Harpista, guitarrista, organista, cantor, compositor Italiano do princípio do Barroco. “Balletto delle Virtu” é uma peça instrumental com ritmo motivador que tem tido grande sucesso na sala de aula. Música + Ritmo + clavas + movimento L’Arpeggiata é um grupo de música antiga que ganhou um grande destaque no meio musical.

https://youtu.be/WPaDgKDWWBo

T

de Tafelmusik de Telemann .

G. P. Telemann (1681-1767), compositor do barroco alemão. A obra musical Tafelmusik é uma coleção de obras instrumentais publicada em 1733. É amplamente conhecida e tornou –se simbólica na tradição da música para acompanhar banquetes e entreter convidados ilustres. “Tafelmusik” consiste em três produções com vários concertos e formações. Apresenta um virtuosismo instrumental brilhante.

https://youtu.be/xNFkKhfdgZM

U

de Universal.

São vários os exemplos de que a música pode servir como meio para o conhecimento, entendimento e união entre os povos. O maestro Daniel Barenboim (1942) e o teórico literário Edward Said (1935-2003) idealizaram e fundaram em 1999, a orquestra jovem West-Eastern Divan, com músicos dos países do Médio Oriente com sede em Sevilha. José Antonio Abreu (1939-2018) fundou em 1975 “El Sistema,” um projecto de Educação e Integração Social através da música com coros e orquestras juvenis e infantis da Venezuela. Têm sido criados projetos semelhantes em outros países, a exemplo a Orquestra Geração em Portugal.

V

de Voces 8.

Grupo com um total domínio vocal, equilíbrio na sonoridade de conjunto, afinação cuidada e escolha de reportório eclético.

https://youtu.be/-qZ4u_2ZAlc

W

de Workshops.

Momentos importantes de formação para ampliar a experiência musical, adquirir novos conhecimentos técnicos, contactando com outros músicos e especialistas. Destaco aqui os Cursos Internacionais de Música Barroca da Casa de Mateus, que tiveram início em 1978 e as Semanas de Música Antiga Ibérica com Jordi Savall e Montserrat Figueras em 1979. Foram importantes para a divulgação e motivaram o estudo da música antiga em muitos lovens músicos.Os Cursos Internacionais de Direcção Coral, do Centro Cultural Emmerico Nunes tiveram início em 1989 e os Cursos Kodaly para professores no Museu da Música Portuguesa em 2008, deram a conhecer metodologias de trabalho importantes para o ensino e para prática musical.

X

de Xilofone / balafon / marimbas.

O Xilofone faz parte do núcleo de instrumentos do inventário de uma sala de Educação Musical. O primeiro compositor a escrever para este instrumento foi Camille Saint-Saens na peça “Dança Macabra” (1874). https://youtu.be/qNMzBnuBC6Y

Até ao sec. XIX, o xilofone era chamado de balafon. https://youtu.be/L58-Y3BWrpE

Catching shadows de Ivan Trevino https://youtu.be/e8zzOtKJgSc

Y

de Youtube.

Muito importante pelas possibilidades de acesso universal à música, com o visionamento de vídeos musicais de todas as épocas e estilos. Já muitos músicos de qualidade reconhecida utilizam este meio de divulgação. É, pela sua característica, mais um elemento a contribuir para o enriquecimento das aulas de música.

Z

de Zarambeque.

Zarambeque é uma dança e forma musical do séc XVII e princípios do séc. XVIII, com raizes na América Colonial espanhola. Martin Chambi Jiménez (1891-1973) fotógrafo Peruano. Foi um dos primeiros grandes fotógrafos indígenas da América Latina. Reconhecido pelo grande valor documental Histórico e étnico das suas fotografias. A “Imagem e a Música” https://youtu.be/jnkhkhKgHqg

De A a Z para a Música na Educação por... Carlos Santos Luiz

Carlos Santos Luiz

Carlos Santos Luiz

cluis@esec.pt

Iniciou os estudos musicais no Conservatório de Música da Covilhã com 11 anos. É licenciado em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa (1989) e mestre em Ciências Musicais (1992) pela Universidade de Coimbra. Doutorou-se em Ciências da Educação/Psicologia da Música na Universidade de Aveiro (2013).

Em 1989, começou a lecionar as disciplinas de Acústica Física, Psicofisiologia da Audição, Análise e Técnicas de Composição, e Harmonia Prática, entre outras, na Licenciatura em Professores do Ensino Básico - variante de Educação Musical na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico da Guarda. Desde 1994, é docente na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Coimbra, onde tem lecionado várias disciplinas de “Acústica” nas licenciaturas em Estudos Musicais Aplicados e Comunicação e Design Multimédia.

Investigador do i2ADS – Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, tem publicado artigos na área da Acústica e da Psicologia da Música em jornais nacionais e internacionais, e atas de congressos.


Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de Acústica musical.

A Acústica musical é uma área que se dedica ao estudo científico da produção, propagação e receção/perceção do som no âmbito da música. Para o estudo da disciplina/área, destaco o livro Acústica musical, obra fundamental de carácter pedagógico, destinada a alunos e professores de música, músicos, e outros interessados, do Professor Luís Henrique.

B

de Ballet Gulbenkian (1961-2005).

Uma das mais importantes companhias de dança portuguesas. Dos ballets a que assisti, destaco Presley ao Piano (1988), com coreografia de Olga Roriz (prémio de melhor coreografia 1988), e Sagração da Primavera (2003), versão coreografada pela canadiana Marie Chouinard.

C

de Constança Capdeville(1937-1992).

É uma das figuras principais da música portuguesa contemporânea. Como aluno do curso de licenciatura em Ciências Musicais da Universidade Nova de lisboa, entre 1985 e 1989, sinto-me privilegiado por ter tido ótimos professores. Constança Capdeville, uma das professoras mais marcantes na minha formação em musicologia, provocou em mim uma verdadeira revolução mental. Em contexto de sala de aula, entre muitas audições, recordo-me do espanto e do choque inicial que o Cântico dos adolescentes, de K. Stockhausen, me causou, até ao verdadeiro deleite que A pergunta sem resposta, de Charles Ives, me proporcionou. Aprendi a “escutar” e a “fruir” música contemporânea. Passei a ser um espetador assíduo dos Encontros Gulbenkian de Música Contemporânea, enquanto existiram.

D

de Desenvolvimento social e pessoal.

O ato de estudar música está associado à melhoria da qualidade da nossa vida, proporcionando oportunidades e experiências musicais significativas e gratificantes. Daqui decorrem benefícios ao nível da performance, perceção e cognição musicais. Para além destes aspetos fundamentais, há investigação que evidencia também benefícios pessoais e sociais, cognitivos e académicos.

E

de Elefante (do Carnaval dos animais).

Nesta grande fantasia zoológica de 1886, uma das obras mais conhecidas de Saint-Saëns (1835-1921), o compositor pretendeu gracejar com certos compositores. É uma obra em 14 andamentos, cada um representando um determinado animal. O quinto andamento, “O elefante”, para contrabaixo e piano, é baseado em material temático da “Dança dos silfos”, da Danação de Fauto, de Berlioz, e do Scherzo do Sonho de uma noite de verão, de Mendelssohn. A piada musical consta de o contrabaixo tocar a melodia por baixo do piano, dando a impressão de um elefante pesado.

F

de Freitas Branco .

João de Freitas Branco (1922-1989) foi musicólogo, matemático e professor. Como meu professor de História da Música III em 1987-1988, no curso de licenciatura em Ciências Musicais, destaco aqui as suas qualidades pessoais, para além de ter sido um excelente professor. Quando chegava junto à porta da sala de aula, e antes de entrar, o Professor João de Freitas Branco fazia questão de cumprimentar os alunos, um a um, com um aperto de mão. Um gesto de gentileza, simplicidade… Um grande Senhor!

G

de Gongo.

Instrumento importante na música oriental e tem popularidade notável na música ocidental. Existe alguma confusão com a nomenclatura deste instrumento. O instrumento normalmente designado de gongo, consta de um prato metálico com uma bossa saliente e um bordo revirado e profundo, tal como encontramos nos gongos javaneses e birmaneses. Produz um som de altura definida (pitch). O instrumento usado habitualmente na orquestra ocidental é correntemente chamado de tam-tam, e consta de um prato plano ou levemente convexo com uma borda estreita. Produz um som de altura indefinida. O tam-tam, quando é atingido perto do centro com uma baqueta origina um som impressionante, excitando muitos modos próximos em frequência, cujos batimentos entre eles conferem ao som um timbre resplandecente.

H

de Helmholtz.

Hermann Ludwig Ferdinand von Helmholtz (1821-1894) foi um físico alemão e dedicou-se a várias ciências (fisiologia, matemática, termodinâmica, ótica e acústica). On combination tones, terá sido o seu primeiro trabalho importante na área da acústica (1856). Escreveu o livro importantíssimo denominado On the sensations of tone as a physiological basis for the theory of music (1862), contribuindo para o estabelecimento da teoria física da música, no qual aborda assuntos sobre audição, perceção dos sons e instrumentos musicais.

I

de Instrumento musical.

Um instrumento musical pode ser observado como um objeto de arte. Podemos encontrar verdadeiras obras de arte em vários museus de instrumentos. A título de exemplo, refira-se o Musikinstrumenten Museum (Berlim), o Museu Nacional da Música (Lisboa), o Deutsches Museum (Munique) e o Kunsthistorisches Museum (Viena). Como fonte sonora, podemos definir instrumento musical como uma máquina que produz sons, isto é, variações de pressão acústica. Os instrumentos devem ter em consideração aspetos ergonómicos do utilizador.

J

de João de Sousa Carvalho.

João de Sousa Carvalho (1745-1799/1800) foi compositor e músico português. No seio dos compositores coevos, João de Sousa Carvalho terá sido um dos preferidos da corte portuguesa. Com o trabalho João de Sousa Carvalho: Catálogo comentado das obras (1999), foi possível apurar que a sua obra inclui música dramática (cinco óperas e onze serenatas), música sacra (três hinos, sete missas, um motete, uma oratória e quatro salmos) e música profana (cinco árias, uma modinha e uma sonata). No âmbito da investigação que culminou com a publicação deste catálogo, partilho um episódio inusitado aquando de uma das minhas visitas ao Arquivo da Fábrica da Sé Patriarcal (Fundo Musical da Irmandade de Santa Cecília). Ao caminhar pelos claustros para chegar ao Arquivo, fui surpreendido pelas costas por um cão enfurecido (do sacristão), que me rompeu as calças e me arranhou uma perna! Não ganhei para o susto!... Apesar disto, e também neste Arquivo, tive o privilégio de algumas vezes me encontrar e trocar ideias com o Professor Macario Santiago Kastner (1908-1992).

K

de Kandinsky.

Wassily Kandinsky (1866-1944) foi um pintor expressionista russo. Na época do expressionismo, Kandinsky e Schoenberg influenciaram-se mutuamente. Ambos têm o dom artístico pela música e pela pintura. A ideia da música está presente no trabalho de Kandinsky, a qual pode ser induzida pelos seus títulos genéricos: composições, improvisações e impressões. Numa fase da sua vida, Kandinsky enveredou pelo expressionismo abstrato, sendo considerado por alguns como o primeiro pintor expressionista abstrato. Destaco a Composição VIII, uma pintura a óleo em estilo abstrato.

L

de Luís Henrique.

Luís L. Henrique nasceu em 1951, no Porto. Possui o curso superior de piano pelo Conservatório de Música do Porto e é doutorado em Acústica musical pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Como meu amigo e colega, tenho uma grande admiração pelo Luís, por ser uma referência na área da Acústica musical em Portugal. O primeiro contacto que tive com o seu trabalho, foi através da Sebenta de Acústica, no ano letivo 1984/1985, no Conservatório Regional de Música da Covilhã. Nesta época, esta sebenta seria o único material de apoio ao estudo da acústica em língua portuguesa. Em 2002, a Fundação Calouste Gulbenkian publicou o Livro Acústica musical, de Luís Henrique. Palavras para quê? … Basta-me fazer uma citação de Manuel Pedro Ferreira, “este impressionante volume sobre Acústica Musical pode ser considerado desde já um marco na história da disciplina em Portugal, pela abrangência, profundidade e actualização do seu conteúdo, bem como pelo cuidado posto na sua produção” [Ferreira, M. P. (2004-2005). Luís Henrique, acústica musical. In L. Cymbron & R. Pinheiro (Eds.), Revista Portuguesa de Musicologia (Vols. 14/15, pp. 222-225)].

M

de Machado de Castro.

Joaquim Machado de Castro (1731-1822), nascido em Coimbra, foi um dos escultores mais importantes do nosso país. Um dos seus melhores trabalhos é a estátua equestre de D. José I, de 1775, que se encontra na Praça do Comércio. Desde 1782, foi escultor oficial do reino. Como escultor em barro, refira-se as belíssimas figuras de presépios. Destacam-se os presépios da Basílica da Estrela (com cerca de 500 figuras), da Sé de Lisboa e do Museu Nacional de Arte Antiga. Em sua homenagem, um dos museus mais importantes de Portugal tem o seu nome, o Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra. Recomendo a visita a este museu, uma das pérolas da cidade!

N

de neve.

Sendo natural da Covilhã, não podia deixar de fazer referência à minha terra natal e à neve. Quando era criança, nevava quase todos os invernos na cidade. Aproveitava, assim como outras crianças, para brincar na rua com a neve e esquiar, visto as escolas encerrarem. Neve, também sugere o fado “Covilhã Cidade Neve”, o qual foi imortalizado por Amália Rodrigues, com letra de Joaquim Pedro Gonçalves e música de Nóbrega e Sousa.

O

de Orsay (do Museu de Orsay).

O Museu de Orsay, em Paris, possui uma arquitetura sumptuosa e charmosa, cujas estrelas são as obras do movimento artístico chamado impressionismo. Encontramos muitas das obras impressionistas mais conhecidas, de autores como Cézanne, Degas, Gauguin, Manet, Monet, Pissarro, Renoir, Sisley, Toulouse-Lautrec, Van Gogh… O 5° andar do edifício está ocupado com as obras destes autores. Como exemplo, refira-se os quadros Jeunes filles au piano (1892), de Renoir, e Le fifre (O tocador de pífaro, 1866), de Manet. Uma verdadeira delícia para quem aprecia pintura!

P

de Picasso.

Pablo Picasso (1881-1973) foi, entre outros aspetos, pintor e cenógrafo, tendo colaborado com os Ballets Russos em várias produções. Participou com cenários e figurinos para vários Ballets: Parade, em 1917, com música de Erik Satie; Le tricorne, em 1919, com música de Manuel de Falla; Pulcinella, em 1920, com música de Ígor Stravinski; e Cuadro flamenco, em 1921, que recorreu a uma companhia de flamenco espanhol. Para o ballet Le train bleu (1924), com música de Darius Milhaud, Picasso desenhou a cortina, tendo por base a sua pintura Two women running on the beach (1922). A associação de Picasso à companhia de Sergei Diaghilev deu-se em 1917, no ano de Parade. Em 1919, no ano de Le tricorne, conheceu Miró e pintou naturezas mortas cubistas. No ano do Cuadro flamenco, em 1921, pintou o quadro Os três músicos. Em 1924, no ano de Le train bleu e de várias naturezas-mortas grandes e cubistas, Picasso pintou o quadro Paul en arlequin, em estilo neoclássico.

Q

de Quadros de uma exposição.

A obra Quadros de uma exposição (1874) de Mussorgsky é uma verdadeira obra-prima da História da Música. Destaco a versão orquestrada por Ravel em 1922 devido à riqueza tímbrica, a qual decorre das combinações instrumentais com a colaboração preciosa do naipe de percussão (timbales, glockenspiel, sinos tubulares, triângulo, tam-tam, cegarrega, estalo, pratos, caixa, bombo, xilofone e “celesta”).

R

de A pergunta sem resposta.

A pergunta sem resposta (The unanswered question; c. 1907/1908), de Charles Ives (1874-1954) coloca a questão da existência e remete-nos para um mundo metafísico. Refiro-me a esta obra pela experiência sensorial auditiva que proporciona, recorrendo à exploração tímbrica, de pitch (politonalidade), de duração (tempo), de loudness (dinâmica) e à separação espacial (estereofonia) para desagregar as cordas das madeiras e da trompete. Como pano de fundo, as cordas tonais tocam em ppp e num andamento muito lento em textura coral; a trompete faz a pergunta (a questão da existência) de forma atonal, num total de sete perguntas; e o quarteto de madeiras dá seis respostas gradualmente mais intensas e muito cromáticas (a última pergunta sem resposta; unanswered).

S

de Sala de concertos.

As salas de concerto são espaços projetados para música, sendo partilhados por músicos e público. No âmbito da acústica arquitetural, a sala de concertos é considerada uma “extensão” natural do instrumento musical, a qual desempenha um papel importante na modelação do som que ouvimos. O design da sala requer um trabalho conjunto entre o arquiteto e o engenheiro responsável pela acústica, e possui determinadas exigências, começando pela própria música. Para além do tamanho e da funcionalidade da sala, o tipo de programa (ex., música sinfónica, música de câmara e ópera) e o estilo de música (ex., barroca, clássica e romântica) possuem requisitos acústicos distintos. Ao longo do século 20, e nos últimos anos, a planta retangular (shoe-box) tornou-se popular. Recuando um pouco mais no tempo, destaco a belíssima sala de concertos Musikverein de Viena (1870), com uma acústica muito elogiada.

T

de Timbre.

O timbre é uma das características subjetivas (psicológicas) do som, sendo que as outras são o pitch, o loudness e a duração. Entre várias definições de timbre, destaco a que se refere à propriedade preceptiva que traduz os atributos próprios de um som e da fonte sonora que o produz. Esta definição adequa-se à caracterização da identidade dos instrumentos musicais.

U

da forma U (da vara do trombone).

Referindo-nos à acústica dos instrumentos de sopro, e concretamente à execução de uma escala, os sopros madeiras recorrem a orifícios nas paredes do tubo para alterarem o comprimento da coluna de ar. De modo diferente, os sopros metais possuem tubos adicionais acionados por pistões. No caso concreto do trombone, um tubo em forma de U é movível para trás e para a frente, permitindo preencher os intervalos entre os modos de ressonância da coluna de ar e, deste modo, tocar uma escala.

V

de Viena.

Viena, cidade do coração. Aquando da primeira visita a Viena, em 1991, no âmbito de uma visita de estudo do mestrado em Ciências Musicais da Faculdade Letras da Universidade de Coimbra, fiquei apaixonado pela cidade. Mais tardei voltei… Os jardins lindíssimos cheios de flores (com destaque para os amores perfeitos), os museus fantásticos (o Museu de História da Arte, nomeadamente a coleção de instrumentos musicais históricos - Kunsthistorisches Museum; o Museu de História Natural; o Museu Albertina, com quadros de Kandinsky, Monet, Renoir, Miró, Picasso, Klee…), os palácios sumptuosos (o Alto Belvedere, com destaque para as obras de Gustav Klimt; o Palácio de Schönbrunn), a charmosa Escola Espanhola de Equitação com o “bailado” dos cavalos Lipizzanos, a Ópera Estatal de Viena, a sala de concertos Musikverein….

W

de watt acústico (de potência acústica e não potência elétrica).

Para produzir sons muito intensos, os instrumentos musicais acústicos não necessitam de muitos watts de potência acústica. Quando o músico toca, apenas uma pequena quantidade da energia usada para tocar o instrumento é convertida em som, mesmo quando o instrumento é tocado numa intensidade sonora elevada. A título de exemplo, e de forma aproximada, a potência sonora máxima (som mais intenso) emitida pelo contrabaixo é 0,16 watts, da flauta transversal é 0.06 watts, do trompete é 0,3 watts, do trombone é 6 watts e do tambor é 25 watts.

X

de xilofone.

Os instrumentos de percussão afinados, como o xilofone, possuem vibradores sólidos de madeira apropriados, produzindo uma sequência de sons de altura definida musicalmente prática. Isto, apesar de os modos vibratórios das barras serem completamente inarmónicos e muito amortecidos. Como resultado da combinação de vários aspetos, o som é muito curto e seco. Saint-Saëns explorou esta característica tímbrica do xilofone no poema sinfónico Dança macabra (1874) e na secção “Fósseis” do Carnaval dos animais (1886). Aqui, Saint-Saëns escreveu para o xilofone standard do século 19, sem ressoadores e com barras de espessura uniforme.

Y

de York (de New York).

New York, para mim, representa a descoberta! Com apenas dezasseis anos, juntamente com um familiar da mesma idade, passei férias durante o mês de agosto de 1982 entre os estados de Connecticut e de New York. Foi um verdadeiro salto do mundo que conhecia da televisão, para o mundo real ao vivo. Para quem vivia num país onde não existia uma única autoestrada, foi um verdadeiro choque social, tecnológico, cultural… daí, a descoberta! Os parques de diversão (temáticos e cinema ao ar livre), os carros da polícia (iguais aos dos filmes policiais), os camiões gigantes e as autoestradas com várias faixas, a Estátua da Liberdade enormíssima e belíssima (a vista de New York a partir da cabeça da estátua), os arranha céus (o estar nas alturas, como no 110º andar das torres gémeas do World Trade Center), o Museu Americano de História Natural (com a coleção de esqueletos de dinossauro ), o Central Park… Neste ano (1982), a banda Survivor gravou a música Eye of the tiger. Adquiri o vinil e trouxe-o para Portugal. Para 16 anos, fantástico!

Z

de Zen.

Independentemente das origens e práticas, aplico o termo Zen na minha vida, na tentativa de levar uma vida serena, de evitar problemas e de criar soluções.

De A a Z para a Música na Educação por... Eduardo Lopes

Eduardo Lopes

Eduardo Lopes

Efetuou estudos de bateria jazz e percussão clássica no Conservatório Superior de Roterdão (Holanda). É Licenciado pela Berklee College of Music (EUA) em Performance e Composição com a mais alta distinção (Summa Cum Laude). É Doutorado em Teoria da Música pela Universidade de Southampton (Reino Unido), sob orientação de Nicholas Cook. Em 2015 prestou provas de Agregação em Música e Musicologia na Universidade de Évora, tendo sido aprovado por unanimidade. Ao longo da sua carreira recebeu vários prémios e bolsas de estudo nacionais e internacionais.

Atua regularmente com os mais relevantes músicos portugueses e artistas internacionais de renome, tais como: Mike Mainieri (Steps Ahead); Dave Samuels (Spyro Gyra); Myra Melford; Susan Muscarella; Kevin Robb, Phil Wilson; e Bruce Saunders. Gravou vários CDs, alguns dos quais como artísta principal.  Apresentou-se em concertos em Portugal, Espanha, França, Holanda, Inglaterra, Escócia, Brasil, Japão e EUA. É Artista Yamaha (Europa), e endorser das marcas de instrumentos Zildjian e Remo.

É autor de vários artigos e textos sobre a problemática da interpretação musical, teoria da música e ritmo, jazz e ensino de música. Lecionou na Universidade de Southampton no Reino Unido e na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo em Portugal. De 2012 a 2016 foi diretor do Departamento de Música da Universidade de Évora. No ano letivo de 2016-2017 foi Professor Titular Visitante na Escola de Música e Artes Cénicas da Universidade Federal de Goiás, Brasil. Ao momento é Professor Associado com Agregação no Departamento de Música da Universidade de Évora; Diretor do Doutoramento em Música e Musicologia da UÉ; Coordenador do Pólo do CESEM na UÉ; e editor da revista brasileira de musicologia HODIE.


Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

Aprendizagem é o principal objetivo da educação. Numa perspetiva contemporânea, o insucesso na aprendizagem, compele o repensar das vigentes teorias e metodologias de ensino. Deste modo e no séc. XXI, os paradigmas da educação deverão mover-se definitivamente do ensino para a aprendizagem.

B

A Bateria é talvez o mais inclusivo dos instrumentos musicais. Instrumento nascido no melting pot de Nova Orleães na transição do séc. XIX para o séc. XX, agregou vários instrumentos de percussão, numa simbiose perfeita de diferentes sons. Integrando-se facilmente em vários estilos musicais, é prova clara das vantagens da hibridização contemporânea e da adaptabilidade para a arte progressista.

C

Música em Conjunto é inerente e fundamental à prática musical. Nas muitas funções que a música tem na sociedade, o conjunto musical é a forma onde melhor se refletem as qualidades e princípios musicais, muitas destas especificamente relacionadas com o que é ser Humano – a expressão do indivíduo no grupo.

D

Desmistificar é uma das funções do educador e do investigador. Considerando que arte e música existem desde sempre na nossa civilização, processos de cristalização através de mitos perdidos ao longo dos tempos, tendem a dificultar a génese progressista da música, fator elementar na definição do que é arte.

E

Errar não só é humano, mas como também é uma realidade no processo musical, e como tal deverá ser assumido de uma forma natural. Desde que começamos a fazer música que temos como objetivo errar menos, até um dia em que desejamos ‘errar’ para avançar para novas descobertas.

F

Fundamentar, no seu mais lato senso, é parte integrante no assumir uma ideia ou personalidade musical. Só deste modo poderá haver contínuo interesse na interpretação.

G

O Gosto por aquilo que fazemos é indispensável para o sucesso de qualquer atividade. Tendo em conta que só muito raramente alguém inicia ou tem uma carreira na música sem o ter inicialmente desejado, é importante não deixar que os reveses e dificuldades inerentes à sua aprendizagem não superem o gosto inicial. Deste modo, o prazer pelo que fazemos deve ser sempre fomentado lembrando o que inicialmente criou em nós vontade de fazer música.

H

Humildade é essencial no ensino, aprendizagem e prática musical. No caminho para a competência numa determinada área, a consciência de que existem muitas outras áreas e perspetivas na arte, é o catalisador para um contínuo atingir de outros níveis.

I

Sem Imaginação não há música. Sendo elemento integrante da música, todos que a fazem deverão constantemente cultivar a imaginação e fomentar processos criativos.

J

Na música, Justaposição e integração de componentes do som são também expressões da sua inclusividade. Nos dias de hoje prossigamos esta herança de integrar e justapor diferentes estilos musicais, formas de pensar e fazer, identidades, no contínuo caminho da música como parte constituinte da Humanidade.

K

Kit é um agregado de diferentes entidades que servem um determinado propósito. Pela sua diferença, cada entidade tem uma importância específica e imprescindível, sendo fragmento intrínseco para a definição do próprio conjunto.

L

Liberdade de gostar ou não gostar, seguir um caminho ou outro qualquer.

M

Multi é um prefixo sempre a privilegiar em arte e música. Expressão da componente ‘grupo’ no binómio relacional Indivíduo-Grupo que tão bem representa o que é ser Humano.

N

Abracemos a Novidade sem receios e preconceitos. Mesmo que algo não seja o que imaginamos para o futuro e que até se apresente de curta existência, a novidade faz parte de um processo de crescimento e experimentação, vital para o progresso.

O

Origem e história é conhecimento que na medida certa se tornam de relevância para a prática no presente, bem como perspetivam o futuro.

P

Paciência é um estado de espírito que na nossa época de mudanças constantes e grande necessidade de respostas imediatas, tende a não ser facilitado. No entanto, a arte musical com toda a sua história, sua presente prática e inspirador futuro, requer de todos os músicos uma constante espera e inerente calma na busca pela proficiência, como também para o fomento e desenvolvimento dos essenciais processos de inspiração e criação.

Q

Qualidade é sempre relativa e na sociedade global dos dias de hoje de difícil quantificação. Devemos pensar a qualidade como algo não estático e individual, em que progressivamente corrigimos o que fazemos para uma melhor proficiência.

R

Ritmo é a organização de todo o universo.

S

Sensações físicas, equilíbrios, desequilíbrios, movimento, expectativas psicológicas, afinações, desafinações, texturas sonoras, entre outros, são afetos que a música nos pode proporcionar, inspirando o nosso dia a dia.

T

Tempo, apesar de relativo, é a medida base para a criação de um contexto ou instante vivido.

U

Uma Unidade, individuo ou ocorrência é princípio para a existência. Cada indivíduo, com suas diferenças e personalidade, enriquece o grupo ao qual ele pertence. Como tal, a individualidade deve também ser estimulada.

V

Vida e existência é movimento. Tudo o que nos rodeia e que nos define está em movimento perpétuo. Na arte e na música, todas as expressões de movimento são fundamentais: desde o movimento percecionado, o realizado pelos intérpretes ou ouvintes, até às viagens e encontros de aprendizagens e trocas artísticas. Sem movimento não há música.

W

Workshop é um termo utilizado para uma situação de ensino-aprendizagem pontual, usualmente em contexto não-formal. Como complemento a uma aprendizagem musical formal e estruturada, o contacto com outros educadores e metodologias é uma mais-valia, podendo até ser a solução para quebrar impasses na aprendizagem e catalisador para novas descobertas.

X

Século XXI é o nosso presente e é o instante onde ensinamos, aprendemos e fazemos música. Conhecer o passado é importante, bem como perspetivar o futuro. Cabe assim, a cada um de nós fazer o melhor possível em cada dia do presente, sendo também um pouco saudoso do passado e sonhador para o futuro.

Y

Yin-Yang é o conceito filosófico Chinês que reflete a importância da individualidade como fração para a complementaridade. Se bem que esta milenar filosofia se centra no dualismo, na contemporaneidade deveremos também extrapolar outras medidas, além do binário, para outas complementaridades.

Z

Zeitgeist: ensinar, aprender e fazer música no tempo-espaço que existimos.

De A a Z para a Música na Educação por... Paulo Esteireiro

Paulo Esteireiro

Paulo Esteireiro

É Diretor de Serviços de Investigação, Comunicação, Edições e Formação no Conservatório – Escola Profissional das Artes da Madeira e investigador integrado do Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (UNL/FCSH). É licenciado, mestre e doutorado em Ciências Musicais pela Universidade NOVA de Lisboa, tendo obtido nos estudos de mestrado e doutoramento a classificação máxima por unanimidade do júri. Entre as suas publicações destacam-se As Artes Performativas no Funchal, Estudos sobre Educação e Cultura, Uma História Social do Piano, Músicos Interpretam Camões, 50 Histórias de Músicos na Madeira, Regionalização do Currículo de Educação Musical e três livros de composições para Braguinha. É coordenador da Coleção Madeira Música, série editorial que publicou onze CD-ROM com obras musicais históricas madeirenses e da coleção Contributos e Ideias para a Educação Artística. Foi autor e coordenador da série documental Músicos Madeirenses para a RTP-Madeira (12 documentários). No domínio da comunicação social foi colaborador do Jornal de Letras, Artes e Ideias, da revista Ópera Actual, do Diário de Notícias da Madeira e do Jornal da Madeira. Realiza regularmente comunicações e conferências em congressos especializados de artes e educação (Portugal, Espanha, Itália, Escócia, Áustria, Estónia, Polónia, Suécia e Brasil).


Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de APEM e de Amizade.

Quanto mais avançamos na vida mais percebemos como tudo o que é extraordinário é feito no âmbito de organizações fortes e com a ajuda de fortes relações interpessoais, como se diz hoje em dia. A APEM tem servido ao longo de décadas de ponto de encontro entre profissionais da educação musical, ajudando a estabelecer amizades essenciais para a promoção da música nas escolas.

B

de Braguinha.

Braguinha é um instrumento madeirense que é extremamente parecido ao cavaquinho de Lisboa e Coimbra, diferindo na afinação e na escala do cavaquinho minhoto – este último tornou-se o cavaquinho padrão da atualidade, devido ao sucesso obtido pelo Júlio Pereira. O braguinha é um instrumento musical absolutamente extraordinário. Com apenas quatro cordas permite um conjunto de sonoridades fantásticas, existindo inclusivamente centenas de composições originais do século XIX para este instrumento, que começaram a ser descobertas recentemente pelo professor Manuel Morais. O braguinha foi levado para o Havai pelos madeirenses e, em conjunto com outro instrumento utilizado na Madeira, o rajão, acabou por dar origem ao mundialmente famoso ukulele. Para mim, que comecei há 15 anos a tocar este instrumento, permitiu-me compreender a relevância da preservação do património musical português, como ponto de partida para poder intervir culturalmente, tendo realizado três livros de partituras para braguinha com CD, que me valeram convites para tocar em diferentes espaços, inclusivamente nos EUA.

C

de Carlos Gonçalves.

É curioso que a letra C remeteu-me logo para Carlos Gonçalves, uma personalidade que revolucionou por completo a educação musical e artística na Região Autónoma da Madeira, tendo ganho um espaço para as artes na educação absolutamente admirável. Exemplo máximo disso mesmo é a criação dos grupos de recrutamento 150 e 140, que permitiram aos professores de música e artes plásticas vincularem no 1.º ciclo na Madeira. Quando se fala da importância da liderança nas organizações, ele é um excelente exemplo na educação artística e creio que, todas as pessoas envolvidas na área, teriam muito a ganhar se o convidassem mais para participar em conferências, aulas, reuniões junto de decisores políticos e formações práticas. Tem uma experiência de quatro décadas de liderança na administração pública e no ensino e é um exemplo de enorme sucesso na resolução de problemas centrais da educação artística: programa de formação contínua, acompanhamento pedagógico, organização de eventos, produção de conteúdos, promoção das artes na comunicação social, programa de atividades extracurriculares, um novo modelo de cursos livres, etc.

D

de Danças.

É curioso que ao longo de cerca de 12 anos a estudar musicologia (licenciatura, mestrado e doutoramento) pouco ouvi falar de danças. No entanto, quando comecei os meus primeiros projetos de investigação, percebi a enorme variedade de danças que temos em Portugal, além de que tivemos envolvidos ou influenciámos a criação de um conjunto alargado de novas danças, em países como o Brasil ou Cabo Verde. O ritmo e a dança têm muita relevância no hemisfério sul e os portugueses estiveram envolvidos nessa criação de um mundo musical que juntou as danças europeias com os ritmos de outros povos. Acho que deveriam ser mais objeto de estudo na musicologia do que são atualmente.

E

de Energia.

Com duas décadas de trabalho, considero que é realmente preciso muita energia para conduzir projetos até ao fim e procurar ser inovador na sociedade atual. Os atritos pessoais são inevitáveis nos projetos e há sempre um conjunto de pessoas sensíveis, que tentam bloquear o trabalho dos outros, normalmente por motivações secundárias e de pouco relevo. Energia, perseverança e resiliência são valores essenciais, ainda mais em áreas como a educação musical que nem sempre são consideradas prioritárias. A gestão de conflitos deveria ser uma disciplina obrigatória em todas as áreas onde seja necessária trabalhar em grupo.

F

de Família.

Apesar de isto ser uma rubrica no âmbito de uma newsletter de educação musical, fico sempre espantado com a paciência da minha família para as minhas excentricidades e para as minhas constantes ausências. Quem se dedica de corpo e alma à área do ensino e da música, precisa realmente de ter uma família compreensiva.

G

de Graciosa e de Gabriel Martins.

Após 26 anos a morar, a estudar e a trabalhar na área da Grande Lisboa, decidi mudar-me em 2001 para a Ilha Graciosa, Açores. Na altura disse à minha namorada (atual mulher): “amor, vamos morar para uma ilha quase deserta”. E ela estranhamente foi. Passar de uma região onde viviam mais de 2 milhões de habitantes para uma ilha, com pouco menos de 5 mil habitantes, não foi fácil e permitiu-me ver que realmente Portugal está longe de ser um país solidário com o seu interior. Também me permitiu ver que mesmo em localidades de menor dimensão podem existir grandes líderes. Foi na Graciosa que tive o privilégio de conhecer o Gabriel Martins, um maestro de coros e fundador da Academia Musical da Ilha Graciosa, que me impressionou pela energia, capacidade de liderança e argumentação. Aprendi imenso com ele e, ainda hoje, passado quase 20 anos, ainda mantenho uma boa amizade.

H

de Helicóptero.

Fala-se por vezes na área da gestão da relevância da “visão de helicóptero” numa pessoa. A capacidade de ver o todo e de ao mesmo tempo conseguir um determinado distanciamento nos momentos mais difíceis, para não reagir impulsivamente, a quente, e acabar a destruir relações ou projetos por falta da visão do todo e da capacidade de separar o importante do acessório. A visão de Helicóptero é oposta à visão de “Hegoísmo”, daqueles que veem pouco mais do que o seu umbigo e estão com o nariz demasiado colado à barriga.

I

de Inventar e Imaginar.

A letra “I” merece aqui destaque. A capacidade de invenção e de imaginação são duas das competências mais importantes na música. No entanto, ao longo dos anos tenho observado que as escolas muitas vezes pressionam os professores de expressão musical no 1.º ciclo para serem a “alma da escola” e estarem constantemente a preparar canções para celebrar efemérides e melhorar as festas de escola. Sendo impossível negar a importância da música neste contexto, infelizmente vejo que os professores ficam com pouco tempo para atividades de invenção e criação musical com os alunos, ficando assim secundarizada uma das principais bandeiras da educação musical e à qual as pessoas de fora da área nos costumam relacionar: a criatividade. Aprender rapidamente canções e a dançar músicas são atividades essenciais, mas é importante que não deixemos cair a questão da criatividade em educação musical. Há professores que trabalham bem a criatividade, evidentemente, mas no meio da pressão das festas escolares, tenho observado que há quem praticamente não trabalhe a criatividade em música e não estimule a capacidade de imaginar e inventar musicalmente.

J

de Jazz.

Tendo feito o meu percurso sempre na área da música clássica, a música jazz sempre me deixou fascinado, principalmente pelo incentivo constante à criação de cada músico, quer no plano harmónico, quer no plano melódico. Ao longo dos oito anos de percurso em guitarra clássica, adorava ficar horas a aprender as harmonias de jazz, o seu funcionamento, bem como a criar solos modais de acordo com as progressões de acordes utilizadas. Acabei por nunca ficar fluente, mas foi um tipo de aprendizagem informal que me permitiu desenvolver a minha expressividade e criatividade pessoal. Fico contente por ver que os conservatórios estão cada vez mais abertos para o jazz, mas ainda continuo a achar que poderia haver mais interligação entre a metodologia de ensino do jazz e da música clássica, com ganhos para ambas as áreas, sendo que a parte do estímulo à criação harmónica e melódica no jazz é sem dúvida um exemplo a seguir na música clássica.

K

de Karl Popper.

Creio que é muito importante na vida, principalmente das pessoas ligadas à investigação, ter bons conhecimentos de filosofia da ciência. No meu caso, foi-me sempre muito útil as leituras dos ensaios e livros do autor austríaco Karl Popper, que me permitiram olhar para os projetos de investigação e para a vida quotidiana de uma forma sistemática e de constante procura de soluções para os problemas que vamos encontrando. Além disso, Popper dá uma grande ênfase à importância de nos apaixonarmos pelos problemas que estudamos, dando assim um destaque positivo e emotivo ao processo desafiante de resolução dos problemas. Também sempre admirei o modo como releva na ciência o papel da criatividade, da fantasia e da imaginação, comparando o método científico por vezes ao método de criação artística. Creio que é um autor que poderia ser mais valorizado na formação inicial, pela clareza com que aborda as etapas do método científico e pelo modo como propõe o estudo de situações-modelo (Lógica Situacional).

L

de Livros.

Creio que todos os professores deveriam ter uma boa biblioteca pessoal e fico sempre espantado quando os colegas me dizem que não têm por hábito ler e que cada vez mais “há menos tempo para perder com teorias”. Não creio serem precisos mais comentários sobre este tema, além do facto de que a ausência de sentido crítico começa por aqui.

M

de Modalidades Artísticas.

As “modalidades artísticas” são um projeto que existe na Madeira e que poderia ser replicado no resto do país. Na prática, a Direção de Serviços de Educação Artística (DSEA) seguiu o modelo das “modalidades desportivas” que levavam às escolas da Madeira modalidades como natação, futebol, desportos de raquetes, entre outros, em contexto de atividades extracurriculares. As modalidades artísticas na Madeira são 6: canto coral, instrumental (cordofones tradicionais da Madeira e instrumental Orff), teatro, dança e artes plásticas. Funcionam como os clubes escolares, apesar do modelo organizativo ter uma estrutura de liderança e de organização de eventos centralizada – cada modalidade tem um coordenador responsável por dar formação e organizar eventos regionais. Assim, estes “clubes” funcionam em rede, sob a coordenação da DSEA, que pode atribuir ainda crédito horário às escolas para estas atividades extracurriculares. Este projeto está muito enraizado na Madeira e permite aos alunos estudar música até ao 12.º ano, se o desejarem. No final de 2016, publiquei com os colegas Carlos Gonçalves e Natalina Cristóvão um artigo na Revista da Associação Brasileira de Educação Musical sobre este projeto, que explica as diferentes fases porque passou ao longo de 30 anos.

N

de Notícias.

Durante 17 anos escrevi ininterruptamente em quatro órgãos de imprensa (Jornal de Letras, Revista Ópera Actual, Diário de Notícias da Madeira e JM-Madeira). Deste modo, pude acompanhar de perto a perda de espaço da música clássica, bem como da cultura em geral, na comunicação social. É certo que se criou alternativas e continua a conseguir-se promover a cultura através de outros canais, mas não deixa de ser preocupante o facto da cultura, e de forma particular a música, ter perdido espaço nos jornais generalistas.

O

de Ouvir.

O ano passado tive a oportunidade de participar numa investigação que replicou a pesquisa “A Escola que Eu gostaria de ter” (“The School I’d Like”) realizada pelo jornal The Guardian em 2001 – adaptando-a à área da educação musical, na Região Autónoma da Madeira (Portugal). Ouvimos mais de 1000 alunos, através de composições literárias, desenhos ou poemas e fiquei especialmente impressionado com a quantidade de sugestões válidas destes para a escola. Sem dúvida que estamos a perder muito no ensino, por ouvirmos pouco as crianças e jovens.

P

de Poesia.

Na altura do mestrado, um pouco como o resto dos colegas, estava com alguma dificuldade em escolher o tema de investigação. Tive a sorte de ter a oportunidade de poder estudar a criação do Lied português – numa pesquisa que deu origem ao livro Músicos Interpretam Camões – e ainda hoje acho que seria importante que Portugal tivesse mais canções artísticas ou obras corais sobre poetas portugueses consagrados. Portugal tem grandes poetas e atualmente excelentes compositores que poderiam dedicar-se ainda mais a este género musical. Recentemente, no Porto, no encerramento da conferência internacional do CIPEM, assisti a uma atuação de um coro de crianças e jovens com composições fantásticas sobre poemas de Manuel António Pina. Um excelente exemplo a seguir.

Q

de Quotidiano.

Após ter estudado alguns dos maiores compositores portugueses da primeira metade do século XX, no mestrado, acabei por me dedicar no doutoramento à investigação sobre a vida quotidiana em redor do piano. Passei do estudo dos “grandes compositores” e das “grandes obras”, para uma perspetiva mais sociológica, em que a relevância do compositor e da sua obra não era o meu principal foco. Há quem diga que “dos fracos não reza a história”, mas existe uma história muito rica – e por vezes até mais representativa –, que vai muito além da história dos “grandes mestres” e dos “grandes compositores”.

R

de Rui Camacho.

Já falei aqui de algumas pessoas que me inspiraram ao longo do meu percurso e o Rui Camacho, fundador e presidente da Associação Musical e Cultural Xarabanda, no Funchal, é sem dúvida uma delas. O Rui é um exemplo de luta contra a adversidade em defesa do património musical e cultural ligado às tradições. Um dos aspetos que achei mais curioso, nas conversas que tenho mantido com ele, é o modo como conta que no princípio do seu trabalho, em defesa da música tradicional, há quase 40 anos, a instituição do Conservatório era uma das maiores opositoras ao seu trabalho. Felizmente, hoje em dia a Associação Xarabanda foi reconhecida pelo seu mérito cultural, inclusivamente pela Presidência da República, e este tipo de oposição dos Conservatórios deve ser motivo de reflexão de todos os que estamos envolvidos na educação musical.

S

de Sonho.

Há quem desdenhe de quem sonha e ainda hoje em dia se ouve de forma pejorativa que “tal pessoa é um sonhador”. Pessoas demasiado pragmáticas e técnicas complicam mais do que ajudam. Falta-lhes poesia. Sem sonhar não é fácil “comandar a vida”.

T

de Tunas e Tradições.

Nos anos 90, ingressei na Tuna existente na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Muitos colegas do curso de Ciências Musicais gozavam das tunas e achavam que deveriam ser proibidas porque representavam um Portugal salazarento. Uma espécie de símbolos de uma direita fascista. Sempre achei essa opinião exagerada e como nunca gostei de proibições, entrei à mesma na Tuna. De música, na altura, era só eu e o meu colega talentoso e grande amigo na época Luís Clemente (atualmente um maestro com um bom trabalho a nível internacional). Curiosamente, foi na Tuna que: conheci aprofundadamente e cantei Zeca Afonso; conheci instrumentos utilizados na tradição popular portuguesa como a viola braguesa, o bandolim e o cavaquinho; fiz amizades para toda a vida; conheci a minha atual mulher. A Tuna deu-me bem mais do que o que eu dei em troca, até musicalmente.

U

de Ukulele.

Considero um orgulho o facto de um dos instrumentos mais tocados no mundo ter raízes portuguesas e ter sido levado por portugueses da Madeira. Os norte-americanos acabaram por levar este instrumento de origem portuguesa a um nível muito elevado, quer de construção, quer de repertório. É impressionante a quantidade de livros de canções para ukulele que existem. Fico sempre a pensar porque não temos centenas de livros de canções para cavaquinho e braguinha. Eles começam a aparecer, mas o ukulele, está cada vez mais a ocupar o próprio espaço do cavaquinho e do braguinha, até em Portugal.

V

de Videoclip.

Há uns anos coordenei duas séries de videoclips para a RTP-Madeira. No total foram 27 videoclips que passaram na televisão pública regional ao longo de mais de um ano. Tiveram grande sucesso e na Madeira foram muito comentados. Deram destaque a um conjunto de músicos relevantes e foram um dos principais difusores dos designados cordofones tradicionais madeirenses em horário nobre da televisão. De igual modo, num projeto europeu em que tive a oportunidade de ir algumas vezes à Galiza, pude observar como era frequente passarem concertos e vídeos de músicos galegos na televisão pública. Esta é uma das funções das televisões públicas que deveriam apoiar muito mais os músicos portugueses. Uma imagem vale mais do que mil palavras. Atualmente um vídeo vale mais do que mil imagens. Se a matemática não me falha, um videoclip musical talvez valha um milhão de palavras.

W

de Workshop.

Todos os anos, no âmbito do Congresso de Educação Artística que organizamos em setembro no Funchal (vamos na 11.ª edição), conseguimos disponibilizar aos congressistas cerca de 30 workshops diferentes. A aprendizagem ao longo da vida é sem dúvida o grande promotor da mudança e da inovação. Por isso, gostaria muito que os sócios da APEM, nos próximos dias 2 a 4 de setembro de 2020, viessem participar no XI Congresso de Educação Artística, na Ilha que foi eleita o melhor destino insular do mundo (nos últimos 5 anos, de 2015 a 2019): a Madeira, claro.

X

de Xenofobia.

Vivemos tempos em que o populismo tem vindo a ganhar força. Recordo neste domínio a 9.ª Sinfonia de Beethoven e o papel que a música pode ter na construção de pontes entre povos.

Y

de Yes.

A coragem de dizer “sim” aos desafios difíceis é um dos melhores exemplos e legados que podemos deixar a quem nos rodeia. Quantas vezes vemos situações em que se diz não ser possível, apenas por receio e falta de coragem. Daí que goste tanto da expressão: “Eles não sabiam que era impossível e por isso chegaram lá e fizeram”.

Z

de Ziguezague.

Apesar da capacidade de ter um foco ser crucial para o êxito dos projetos, às vezes sinto necessidade e dá-me muito prazer andar em ziguezague, de explorar novas áreas e ter interesses variados. É bom ir rápido na autoestrada de Lisboa ao Porto, mas também é bom às vezes sair e conhecer outras estradas secundárias. Desejo a todos os sócios e leitores da Newsletter da APEM um ano de 2020 fantástico e cheio de experiências ricas, variadas, na música, mas também noutras áreas!

De A a Z para a Música na Educação por... Nuno Cintrão

Nuno Cintrão

Nuno Cintrão

Músico, Guitarrista, Compositor, Performer.

Divide a sua atividade profissional entre a performance e a educação.

A sua atividade artística e pedagógica tem sido pautada pela procura de pontos de contacto entre diferentes formas de expressão artística e criativa e a realização de projetos em diferentes contextos.

Interessa-se pela experimentação e construção de objectos sonoros e a concepção de espectáculos colaborativos e multidisciplinares.

É licenciado em guitarra clássica, pela Escola Superior de Música de Lisboa e em Educação Musical pela Escola Superior de Educação de Lisboa. Em 2017 concluiu o Mestrado em Ensino de Música no ISEIT-Almada.

Ao longo do seu percurso tem tido a oportunidade de colaborar com artistas de diferentes áreas de expressão artística. Desde 2010 que compõe música para teatro, vídeo e dança tendo colaborado com diversas companhias e artistas. Destas colaborações destacam-se a Byfurcação Teatro, Companhia da Esquina, Musgo, Créme de La Créme e Aldara Bizarro.

Tem concebido e realizado workshops , formações e espectáculos junto de várias entidades, das quais se destacam : Fábrica das artes- CCB, Fundação Calouste Gulbenkian, Associação Portuguesa de Música nos Hospitais, Fórum Dança, Fundação do Gil, Operação Nariz Vermelho, CFMI- Universidade March Bloch Strasbourg, APEM- Associação Portuguesa de Educação Musical.

Fez parte do projeto "Música nos Hospitais" com o qual trabalhou como músico e formador até 2013, realizando intervenções musicais e em Hospitais e diferentes instituições de cariz social.

Divide o seu interesse entre a guitarra e outros objetos sonoros, procurando a sua linguagem musical no universo da música improvisada e experimental, passando pelas músicas do mundo, erudita, jazz e rock.

Enquanto guitarrista tem colaborado com diferentes projetos, de entre os quais se destacam: Trama, Ana Barroso e mais recentemente com Teresa Salgueiro (ex-Madredeus).

Para além de Portugal, teve a oportunidade de apresentar os seus projetos em Cabo Verde, Macau, Bélgica, Hungria, Alemanha, Brasil , Itália e Espanha.


Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de APMHIS (Associação Portuguesa de Música nos Hospitais).

Tive a grande sorte de ver nascer este projeto em Portugal e trabalhar muitos anos com a "Música nos Hospitais".
Mudou completamente a minha relação com a música, com o som e a minha visão sobre o papel da música para o ser humano. Tenho certeza que o que aprendi neste projeto teve um impacto tão profundo em mim que passados 15 anos todas as ferramentas que descobri na altura ainda têm muita influência no meu trabalho atual. Mais info sobre o projeto em www.musicanoshospitais.wixsite.com/apmhis.

B

de BATUCAR.

Quem batuca seus males espanta. Tudo é ritmo e todo o objeto merece ser batucado.

C

de COMPOR.

É uma atividade essencial para consolidar, aprender e descobrir mais acerca das estruturas da música. É algo que gosto muito de fazer.

D

de DESAFIO.

O desafio faz-nos crescer e sair da nossa zona de conforto. Evoluímos quando nos desafiamos.

E

de ENTUSIASMO.

Tudo é melhor com entusiasmo!

F

de FUZEAU.

A Fuzeau (www.fuzeau.com) é uma marca francesa especializada em educação musical. É uma perdição pela variedade do catálogo que vai desde livros a instrumentos.

G

de GÉMEOS.

Esta palavra ganhou novo significado para mim há 5 anos. Desde aí o mundo e a vida passou a ser duplamente melhor! Pais de gémeos uni-vos!:)

H

de HUMANIDADE.

Somos humanos, sejamos humanos. É óbvio mas não linear. Humanidade acima de tudo.

I

de IDEIAS.

Uma estratégia que utilizo diariamente e procuro transmitir é que na fase inicial qualquer processo criativo não devemos criticar ou descartar ideias. Muitas vezes uma ideia menos boa dá origem a outras melhores e o ato de gerar ideias melhora com o treino. Gosto de partilhar mesmo as ideias mais disparatadas para ver se dão em alguma coisa. Para quem tem muitas ideias é sempre bom registá-las (gravar ou escrever) para as revisitar mais tarde, a sensação de deixar fugir uma boa ideia não é agradável!

J

de JOHN CAGE.

A propósito de John Cage proponho que a sua obra "4,33" faça parte do currículo em todas as escolas e seja "tocada" frequentemente!

K

de K7.

Muitas horas passadas a ouvir K7´s e a rebobiná-las para ouvir a música preferida. Lembro-me de uma que ouvi vezes sem conta, a do álbum "Tubular Bells" do Mike Oldfield.

L

de de MINIMALISMO.

Gosto do minimalismo do Steve Reich, do Philip Glass, da música africana e de muitas outras músicas. Há algo na repetição e na sensação que provoca que me cativa. Do ponto de vista da educação musical estas Músicas podem (devem) ser exploradas vezes sem conta.

M

de MAX VANDERVORST.

É um músico, compositor e inventor de instrumentos Belga, que vale a pena conhecer!

N

de NULLE. MUSIQUE DE NULLE PART.

É um projeto do músico Nicolas Bras, também, construtor e inventor de instrumentos . Vale a pena espreitar o canal de Youtube onde ensina a construir alguns dos instrumentos.

O

de OUVIR.

"Ouça para um mundo melhor"! Ouvir os sons, ouvir os outros , ouvir-nos. Pratiquemos a escuta!

P

de PRATICAR.

Falando em praticar.... A prática (treino) é o grande segredo de alguém que faz uma coisa mesmo bem! Não há alternativa a isto, às vezes é chato, dá trabalho, mas seguramente vale a pena. Nem sempre esta relação entre a prática e o resultado é clara para todos (sobretudo para os alunos). A ideia de talento está tão enraizada que quase que acreditamos que ele existe sem trabalho.

Q

de QUESTIONAR.

Eu gosto de fazer perguntas. A forma como questionamos (perguntamos) determina se as respostas que obtemos são ou não uma mais valia para nós. A competência de saber formular perguntas também se aprende e treina. Tenho a certeza que é fundamental para todos nós.

R

de REPETIR.

Falando em praticar parte 2. Precisamos de repetir para aprender. Repetir para aprender. Repetir para aprender. Repetir para aprender. Mas, repetir bem. Repetir bem. Repetir bem. Olhar criticamente para repetir e identificar as dificuldades. Identificar as dificuldades. E encontrar solé, soli, sola, solo, soluções que funcionem. :) E então , aprendemos.

S

de SCHAFER.

Murray Schafer compositor e pedagogo nascido no Canadá é para mim uma grande influência sobretudo no trabalho de escuta e de exploração sonora. Tem uma bibliografia que vale a pena explorar.

T

de TOWNER.

Ralph Towner, guitarrista, pianista e compositor. É um dos meus músicos favoritos. Recomendo para começar o álbum de 1973 "Diary".

U

de UPS...

Toda a gente se engana e podemos aprender muito e gerar muitas ideias com os erros. Esta é uma ideia que considero fundamental transmitir em contexto de educação.

V

de VER...

A "ver também de aprende". O exemplo é fundamental no ensino e na aprendizagem e "uma imagem vale mais que mil palavras".

X

de WALTER THOMPSON.

Criador do Soundpainting, uma linguagem de composição em tempo real utilizando gestos. Costumo utilizar adaptações do soundpainting em diferentes contextos e é sempre muito eficaz no foco da atenção do grupo e no trabalho da criatividade em contexto de grupo Para mais info: www.soundpainting.com.

X

de EXPETATIVA.

A expetativa liga bem com entusiasmo e a surpresa. Quando bem misturados são uma combinação imbatível para a motivação.

Y

de MAKEY MAKEY .

O makey makey é uma espécie de microcontrolador que permite por exemplo criar um piano utilizando bananas. Já utilizei diversas vezes em contexto de espetáculo e de sala de aula.Vale a pena conhecer ! Existem muitos vídeos no youtube ou podem ver o site oficial www.makeymakey.com.

Z

de ZINN.

John Kabat Zinn é um médico americano que foi um dos responsáveis por trazer a prática da meditação Mindfulness para o Ocidente e pela investigação científica sobre os seus efeitos. Hoje em dia já há projetos de mindfulness em contexto de educação que têm tido resultados muito positivos. Possui uma bibliografia que vale a pena explorar aqui fica a sugestão de "Wherever You Go, There You Are: Mindfulness Meditation in Everyday Life".

De A a Z para a Música na Educação... por Tiago Pereira

Tiago Pereira

Tiago Pereira

Realizador, documentarista, radialista e visualista, tem promovido e divulgado a música portuguesa, como mentor e diretor do projeto: "A música portuguesa a gostar dela própria", em várias direções, tornando-se um ativista, defensor da memória coletiva e tradição oral, realizando filmes, séries documentais, programas de rádio, programação musical e de eventos sobre o tema da cultura popular. Estendendo-se ao artesanato e à gastronomia.

http://amusicaportuguesaagostardelapropria.org/


Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de Alto.

Não há cante Alentejano sem ele, depois do ponto, vem o Alto e depois o coro. A polifonia do sul de Portugal não é nada sem o Alto.

B

de Bailes de roda.

Fazia parte dos antigos serões, existem poucas pessoas que tenham trabalhado no campo na segunda metade do século XX que não se lembrem deles, frequentemente costumo juntar pessoas numa roda para cantarem e dançarem e está o baile armado.

C

de Ciganos.

A música cigana, com muitas raízes do flamenco e não só, é todo um mundo a descobrir. Onde é permeável, que influências tem e por aí fora.

D

de Danças tradicionais.

Dos vários levantamentos dos cancioneiros e do trabalho de recolhas, raramente se tratou a questão das danças, por isso de certa forma, ficou a faltar o mapa coreológico português.

E

de Ecologia de saberes.

Aprender o virtuosismo, o instrumento e a partitura e depois a intenção afectiva. A academia e sabedoria popular complementam-se.

F

de Filarmónicas.

Tal como os Ranchos Folclóricos, são muitas vezes, em muitas localidades de norte a sul do país, o contacto e a única forma de aprender música que muitas crianças têm. Para além disso são também o meio mais eficiente de se sair da aldeia e de passear, primeiro à volta, e depois pelo país e pelo mundo. São uma grande demonstração da música como conciliador social.

G

de Genebres.

Esse instrumento estranho, espécie de xilofone, com uma série de paus redondos maciços, de tamanhos crescentes de cima para baixo, enfiados numa tira de couro formando um colar, que acompanha as danças dos homens na Lousa, Castelo Branco.

H

de Harpa de vento.

Basta pôr uma harpa no meio do campo e ouvir toda a sua música natural, sem que ninguém a toque, uma paisagem sonora de sonho, uma harpa ao vento.

I

de Ilustres desconhecidos.

Na forma com vejo a música não existem hierarquias, nem música amadora e profissional, só música, no seu sentido primordial, para aquele que a pratica. Nesta forma de ver, existem muitas pessoas que passam uma vida sem que ninguém as conheça e que são verdadeiros génios e bibliotecas musicais.

J

de Jordões.

Os pequenos presépios que a população de Pias ainda faz em algumas casas e instituições, no dia de São João, onde depois os grupos corais, vão cantar ao Batista, indo de Jordão em Jordão. No fim destas pequenas peregrinação cantadas, há ainda lugar para o cante espontâneo.

K

de Keyboard ou teclado.

Ainda hoje costumo fazer instalações audiovisuais sobre Portugal onde coloco um vídeo pequeno em cada tecla de várias regiões do país e com sonoridades diversas e convido o público, ou muitas vezes as crianças, a percorrer o teclado criando um objecto audiovisual improvisado, que é uma viagem ao pais.

L

de Luthier.

Que seria dos músicos sem eles. A relação dos músicos com os construtores é um diálogo fundamental para que o músico tenha o instrumento adequado às suas necessidades e o construtor possa aprender e desenvolver um instrumento, cada vez mais pessoal e único.

M

de Manuel Jeremias.

Um tocador de viola Amarantina, cantador de chulas de Amarante, que morreu em 2015. Ter chegado a ele e ter tido a hipótese de o gravar, foi das coisas mais marcantes da minha vida, a sua humanidade e humildade eram únicas. Da primeira vez que fui a casa dele, contou-me que o vinho do porto dava muita cultura, que os cantadores ao desafio estavam sempre a beber vinho do Porto, porque dava muita cultura e memória.

N

de Nagragadas.

As famosas Moças Nagragadas, um grupo de mulheres no Algarve que dizem trava línguas muito depressa e mais, têm a particularidade de uma ser de Paderne e outra de Boliqueime, e mostram a diferença do mesmo trava línguas, de terra para a terra, mostrando como as diferenças na tradição oral, podem ser tão profundas em tão pouca distância, cinco quilómetros.

O

de Oledo.

Essa aldeia de Idanha, onde existe um grupo de adufes, uma das mulheres do grupo contou-me como aprendeu a tocar. A mãe não tinha dinheiro para lhe comprar um adufe, ela então aprendeu primeiro num prato de esmalte e depois na barriga. É esta persistência que eu admiro em muitas pessoas que conheço, querem uma coisa e não desistem, mesmo contra tudo e contra todos. Aprender um instrumento também é muito assim, contaram-me um dia, que para aprender castanholas, tocavam sempre nelas, mesmo quando guiavam.

P

de Percussão.

Em Portugal os ritmos são muitos e os instrumentos também e mudam de novo conforme os contextos culturais e isso é muito interessante. Vejamos o caso do Adufe, que se chama Adufe na Beira Baixa e em Trás os Montes, o mesmo instrumento, ainda que muitas vezes de formas diferentes, chama-se pandeiro.

Q

de Quando.

Ou para quando vamos ter, em cada conservatório musical, um instrumento da mesma região como opção de aprendizagem. Campaniça em Beja, Beiroa em Castelo Branco, Amarantina em Amarante, Braguesa em Braga, Viola da Terra em Ponta Delgada. Para quando?

R

de Ruptura.

A certa altura tem de haver uma. A música é claramente por todos e todos podem fazer e fazem música, mas hoje em dia, ninguém canta na rua, ninguém canta sem hora marcada. Há 50/ 60 anos era o mais comum, encontrar alguém a cantar. Hoje canta-se nos concursos televisivos, com maquilhagem, afinado e em cima de um palco. A determinada altura vai ter de haver uma ruptura, porque o cantar, também tem de ser, porque sim, sem julgamento, hoje quem canta na rua, ou está bêbado ou é maluco.

S

de Sarronca.

Essa provável parente da Cuica, que se toca friccionando um pau, que está preso numa pele. Antigamente era tocado por homens na Taberna, cuspindo nas mãos. As mulheres da Zebreira, Idanha, decidiram também tocá-lo, utilizando para isso, uma esponja que molham antecipadamente.

T

de Tuna rural.

Grupos instrumentais populares de incidência rural, apareceram como um extraordinário fenómeno no final do séc. XIX e expandiram-se, por todo o país, na primeira década do séc. XX, como resposta ‘direta’ às Tunas Académicas. Na região do Marão e Alvão desenvolveram-se de forma muito particular. Em cada aldeia ou lugar havia uma, às vezes mais que uma, que com as outras rivalizava, numa concorrência feita de prestígio como de inveja, com ajustes de contas quase sempre musicais.

U

de União.

A que falta muitas vezes, a união de saberes, de contactos, de partilhas, de estares. Essa união na música é fundamental, para que se conheça mais o país musical e a diversidade gigante que existe.

V

de Valsa Mandada.

Essa famosa prática da Serra de Grândola, onde os bailadores também mandam, esta valsa muito dançada dos anos 50 aos anos 80, está a perder-se, ainda se podendo encontrar alguns bailadores na região de Melides. Caracteriza-se das outras valsas por ter um quarto de tempo a mais.

X

de Xotiça.

São tantas as danças palacianas que por cá chegaram com as invasões francesas e que por cá ficaram populares.

Z

de Zamburra.

Ronca, farronca, bibo, os outros nomes que a farronca pode tomar.

De A a Z para a Música na Educação... por Janete Ruiz

Janete Ruiz

Janete Costa Ruiz

Diplomada em Canto pela Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo. Dedica-se à prática coral infantil, com particular interesse na abordagem à composição contemporânea para coros infantis e na introdução do movimento e das metáforas como estratégia globalizante do trabalho coral e veículo de desenvolvimento artístico e expansão de horizontes musicais. Frequentou formação com Basilio Astulez e Elisenda Carrasco e no âmbito da Europa Cantat (Voz e movimento- Bergen, 2014; improvisação e composição coral; corpo, movimento e voz- Tallin, 2018), e da International Federation for Choral Music (Barcelona, 2017). É fundadora e diretora artística dos Jovens Cantores de Guimarães desde 2011, com os quais tem desenvolvido um intenso programa coral a nível nacional e internacional.

Janete Costa Ruiz desenvolve paralelamente uma carreira solista com particular incidência no repertório camerístico e em diversos ensembles vocais e coros (Ensemble Clepsydra, Grupo de Câmara do Porto, Coral de Letras, Coro Casa da Música), com os quais se apresentou em concertos em Portugal (Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim), Espanha (Festival de Música de Ubeda e Baeza), Inglaterra (Haendel Festival) e Holanda (Fringe- Oude Musik).

Licenciada em História da Arte pela Universidade do Porto, é também mestre em Ciências Musicais pela Universidade de Coimbra e doutorada em Estudos da Criança (variante Educação Musical) pela Universidade do Minho (2019). Tem publicados diversos artigos sobre pedagogia coral e sobre o coro como entidade performativa.

É Professora Convidada na Universidade do Minho. Leciona no Conservatório de Guimarães.

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de ACORDE.

Seja ele maior ou menor, mais ou menos dissonante, um acorde desperta num músico a capacidade de construir uma sonoridade específica a partir de sons isolados. No âmbito da música coral, a sensação de preencher uma harmonia ou um cluster com a “nossa” nota é uma metáfora poderosa do nosso “lugar” no edifício musical. Daí a importância do canto coletivo na educação musical: não só porque educa o ouvido e a voz mas porque indiretamente transmite um sentido, uma ordem, um lugar ao individuo no seio do grupo.

B

de BACH, Johann Sebastian.

Sem poder fugir a um lugar-comum, a música de J.S. Bach consubstancia para mim a ideia de perfeição absoluta, a fusão entre símbolos, ideia musical, harmonia e emoção. Interpretar Bach, cantando (ou dirigindo) é das maiores e mais profundas experiências que vivi enquanto intérprete. Também é uma excelente companhia de viagem ao atravessar o Alentejo numa tarde de verão.

C

de CANTAR.

O povo, sábio, diz que “quem canta seus males espanta” e, de facto, devo ao canto – e ao CORO - a minha descoberta musical (e pessoal) interior e a definição de uma vocação musical. Enquanto atividade, o canto deve estar presente desde muito cedo na vida de todas as crianças, para que cantar possa ser uma expressão individual dos seus sentimentos, pensamentos e desejos. Por isso destaco também o Projeto CANTANIA, um projeto coral participativo com 30 anos de existência e que desde 2017 põe as crianças das escolas de ensino básico do concelho de Guimarães a cantar. Para quando um Portugal que cante?

D

de DIREÇÃO CORAL.

Uma paixão descoberta e um encontro feliz que demorei a integrar, mas que me complementa enquanto intérprete e me possibilita uma experiência de partilha musical única. A experiência da Direção evoluiu naturalmente da minha vivência como solista e como cantora de diversos projetos corais e como tal, procuro uma simbiose entre as aprendizagens que fiz ao longo de mais de 20 anos, e a leitura e interpretação da partitura global. Sempre em busca de um equilíbrio sonoro próprio, adequado e autêntico, que resulte de uma participação individual ativa de cada cantor e do sentido do texto, procuro que cada cantor se identifique com aquilo que canta, dando o seu contributo pessoal. Só assim se faz uma verdadeira ligação afetiva e efetiva à música.

E

de ENSEMBLE CLEPSYDRA.

Um sexteto vocal cuja atividade me leva a descobrir a riqueza musical, literária e simbólica da polifonia renascentista sob a sábia direção do maestro José Luís Borges Coelho. E de EMPATIA, capacidade humana imprescindível para se ser músico... e pedagogo!

F

de Dietrich FISCHER-DISKAU.

O Príncipe do Lied. Com ele a respiração torna-se obra de arte. Ouça-se o magnético Du bist die Ruh de Schubert: depuração pura da palavra. Uma obra que uso frequentemente para exemplificar o sentido de legato e a frase musical ligada à expressão do texto (tão dificil!)

G

de GOSTO.

Acredito que se pode educar o gosto. Ênfase colocada na diversidade de fontes, estilos, geografias, para que não se continue apenas a fazer música de compositores brancos e falecidos.

H

de HOLÍSTICO.

Porque a realidade do Homem não é uma simples soma de partes mas um resultado bem maior e supra-material. Na educação e na música a dimensão holística do indivíduo deve ser cuidada e integrada, para que a aprendizagem seja verdadeiramente significativa e a vivência artística real.

I

de IMAGÉTICA.

Temática que tenho estudado nos últimos anos e cuja função pedagógica me fez descobrir um mundo de possibilidades comunicativas quase infinitas. As IMAGENS e as Metáforas são poderosos processos mentais que traduzem conceitos e sentidos que emanam da vivência corporal e cultural e, quando usadas num contexto pedagógico, são ferramentas muito úteis e criativas.

J

de JOVENS CANTORES DE GUIMARÃES.

Um projeto artístico que desde 2011 se desenvolve em Guimarães e de lá por palcos nacionais e internacionais, onde dia a dia se constroem artistas de palmo-e-meio. São a minha voz artística e o resultado de um esforço de criação de uma educação artística baseada na prática coral, acessível a todas as crianças.

K

de KINESIS.

O conceito grego de movimento, presente em toda a realidade humana e natural, recorda-me sempre a lógica do devir, da mudança: da transferência do conhecimento à passagem tempo.

L

de LIVRO.

Desde que me lembro estive sempre rodeada de livros. Posso mesmo dizer que sou uma leitora compulsiva, chegando a fazer verdadeiras maratonas de leitura (a mais radical: ler os 4 volumes de “As Brumas de Avalon” em 5 dias! Eram as férias de verão e chovia… ) A paixão pela literatura está sempre presente e acompanha muitas das minhas escolhas musicais. Frequentemente sou levada a uma determinada obra pela descoberta do texto e procuro ter sempre como guia interpretativo o sentido literário anterior à obra musical. Para mim é fundamental que um texto musicado tenha qualidade intrínseca (seja poesia ou prosa). Se não for assim, dificilmente consigo trabalhar musicalmente um obra. Curiosamente (ou não…) as crianças são muito mais sensíveis à beleza e qualidade dos textos do que se pensa…

M

de MOVIMENTO.

Tudo na natureza está em movimento. Assim sendo, porque fazer música de forma estática? A introdução do estudo do movimento e da consciência corporal do mesmo faz parte da minha filosofia pedagógica e musical. Enquanto ferramenta pedagógica, o movimento é um precioso auxiliar de aprendizagem sensorio-motora, essencial numa vocalidade saudável, ativa e centrada no corpo como instrumento. Em paralelo, está subjacente ao conceito de coro performativo, uma entidade simultaneamente musical e teatral que age com propósito artístico. Importa salientar que aquilo que parece ser uma corrente “da moda”, na realidade não o é. As raízes são bem longínquas (podemos recuar até ao Coro grego clássico) e resultam na construção de uma linguagem comum entre a Dança e o Canto, unidas num resultado sonoro e visual coerente.

N

de NÃO.

Numa sociedade perfeccionista e individualista como aquela em que vivemos, muitas vezes sinto a necessidade de me impor diversos “nãos”: não duvidar a ponto de não fazer, não desistir, não dizer sempre sim, não deixar de questionar, não fazer juízos de valor. É muito difícil, mas traz alguma paz interior. E, por vezes, alguns sim aparecem…

O

de OPORTUNIDADE.

Acredito que a oportunidade faz a possibilidade. Haja tempo para encontrar momentos de reflexão junto dos alunos sobre algo de interessante que surge num trecho musical, numa canção, numa sonata. Faça-se a ponte com a realidade de cada um, apele-se à imaginação, à criatividade.

P

de PALCO.

Recordo muitas vezes as palavras de um maestro que muito admiro: “o palco é esse lugar mágico onde podemos ser e fazer tudo!” E nesse lugar mágico (mesmo sagrado, segundo alguns) há todo um mundo de possibilidade, que devemos abordar com grande respeito, trabalho e honestidade. E abertos ao imponderável... afinal aquilo que nos faz voltar uma e outra vez ao palco!

Q

de QUESTIONAR.

A tarefa mais difícil. Porque nos põe em causa, nos faz duvidar das práticas testadas e (a)provadas, porque obriga a sair da zona de conforto e a abordar terreno novo. Quero continuar a ser terrivelmente questionadora.

R

de RUÍDO.

Cada vez me perturba mais a imposição do som a que somos sujeitos na nossa vida urbana. E que, obrigatoriamente, gera muito ruído interior- mental, emocional- e stress. Procuro cuidar-me fugindo para o silêncio das montanhas.

S

de SAÚDE VOCAL.

Uma questão ainda pouco abordada e para a qual ainda poucos profissionais estão sensibilizados: a saúde vocal das nossas crianças e jovens. Não é normal uma criança ter voz rouca, um timbre nasalado ou apresentar patologia vocal em idade precoce e esta ser negligenciada por puro desconhecimento. Urge uma formação especializada neste âmbito que possibilite aos professores de ensino básico identificar situações que merecem atenção especializada de pediatras e terapeutas. E de SILÊNCIO. O bem mais precioso para um músico.

T

de TALLIN.

Visitei a capital da Estónia no âmbito do festival Europa Cantat em 2018 e foi impossível não ficar fascinada pelo papel da música coral no seio de um país. Para quem assistiu à queda do Muro de Berlim e a toda a profunda transformação política que se viveu na Europa na última década do século XX, foi emocionante perceber como um povo lutou e conquistou a sua independência graças à manutenção de uma força cívica mantida em torno das suas tradições corais - desde o século XIX- culminando na chamada “ Revolução Cantada” de 1991 em que os países bálticos conquistaram a independência política e cultural. A “Song and Dance Celebration” que se realiza a cada 5 anos é, ainda hoje, a maior concentração humana num evento artístico à escala mundial. Vale a pena fazer a viagem para perceber como um povo canta tão naturalmente como respira!

U

de ÚNICO.

Cada criança é UM mundo ÚNICO. É fundamental trabalhar para e com essa unicidade, conhecendo os interesses e capacidades e potenciando-as.

V

de VOZ.

Pessoal e intransmissível, a voz diz tudo sobre o que somos e como somos. Enquanto instrumento musical, é o primeiro e o último, o mais natural de todos, aquele que se veste diariamente e traduz todas as nossas vivências. E é tanto mais eficaz musicalmente quanto se une e funde com outras vozes – o efeito potenciador do grupo que explica a capacidade de crianças e jovens serem capazes de interpretar partituras de nível de dificuldade altíssimo. Unida a outras vozes pode ser um poderoso instrumento de transformação social, pelo que dar voz às crianças e jovens é fundamental para compreender os seus mundos e vivências. Recordo a investigadora Marie-France Castarède: “Para o filho do Homem, o acesso ao Mundo é acesso à voz: é o grito primário ou palavra de vida (…) Fazer ouvir a sua voz, palrar, falar, cantar, rir ou chorar é viver como sujeito no mundo dos homens”.

W

de WALT DISNEY.

Posso dizer que me apaixonei pelos livros a partir das coletâneas da Disney que folheava ainda antes de saber ler. E foi com a “Fantasia” que começou a minha educação musical, quando descobri a “Sagração da Primavera” e “O Aprendiz de Feiticeiro”.

X

de X de aposta.

Não como uma roleta russa mas como uma aposta ganha. A aposta da Cultura e da Educação que ainda falta cumprir-se. E o X do voto, arma fundamental na sociedade que se quer democrática, viva, ativa e comprometida.

Y

de YOUTUBE.

Um precioso aliado nos nossos dias..

Z

de ZEN.

Relaxamento, mente aberta, concentrada, sem tensão. Estar presente, no “agora”, sem ruminações. Uma aprendizagem.

De A a Z para a Música na Educação... por Nuno Leitão

Nuno Leitão

Nuno Miguel Marques Leitão

Nascido a 24 de agosto de 1965, frequentou uma escola primária inglesa em Lisboa, onde por via de um conjunto de leituras com caráter obrigatório de livros de autores anglo-saxónicos despertou em si um enorme gosto pela literatura e onde o contacto com o repertório musical da escola o fez ficar fascinado pela música tradicional de origem irlandesa e escocesa.

Já adulto, estudou Literatura e Antropologia, respetivamente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e no I.S.C.T.E. (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa).

Anos mais tarde, fez o Mestrado em Ciências da Educação – variante de orientação da aprendizagem, na Universidade Católica Portuguesa.

Atualmente trabalha na Cooperativa de Ensino 'A Torre', assumindo a função de diretor pedagógico.

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de “Assim falava Zaratustra” de Richard Strauss - tema marcante de um filme igualmente marcante: 2001 Odisseia no Espaço.

B

de Bossa Nova - um tipo de música que entra pelo ouvido e fica gravada na pele.

C

de Cat Stevens - um cantautor da minha infância de que muito gosto até hoje!

D

de Debussy - foi um tema de Debussy que produziu em mim a primeira comoção associada à audição de música.

E

de Elis Regina - uma das maiores cantoras de sempre!

F

de “Forever Young” - talvez a minha canção preferida (entre as muitas de eleição) de Bob Dylan.

G

de Gustav Mahler - um compositor intenso, quase extenuante em determinados momentos da sua música, que associo a uma obra prima de Visconti - “Morte em Veneza” - inspirada na novela homónima de um escritor igualmente inspirador: Thomas Mann.

H

de Hildegard von Bingen - poetisa e compositora da Idade Média, produziu uma obra mística de rara beleza!

I

de Ingmar Bergman - o cineasta que filmou, para mim, a mais bela versão de “A Flauta Mágica” de Mozart.

J

de James Taylor - lembro-me sempre dele quando sinto despertar em mim amizade por alguém…

K

de Kate Bush - uma cantora original, excêntrica e muito criativa com uma interessante incursão pelo mundo da Literatura logo no seu primeiro tema de lançamento “Wuthering Heights”, inspirado no igualmente original livro de Emily Brontë.

L

de Loreena Mckennitt - cantora canadiana dotada de uma voz invulgar e arrepiante que conta no seu repertório com alguns dos mais belos poemas de Yeats.

M

de Melanie Safka - mais uma memória da minha infância de que não consigo libertar-me…

N

de Ney Matogrosso - a voz mais bela da música do Brasil.

O

de Oswaldo Montenegro - por uma música em particular: “Sujeito Estranho”.

P

de Prokofiev - ouvi pela primeira vez a sua música em dois filmes de Sergei Einsenstein: “Alexandre Nevsky” e “Ivan, o Terrível”. Inesquecível!

Q

de “Quatro Estações” de Vivaldi.

R

de Rimsky Korsakov - “O vôo do moscardo”.

S

de “Summertime - na versão conjunta de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong.

T

de “Todo cambia” - tema de Julio Numhauser que merece ser ouvido na voz do autor, acompanhado por Francisco Ibarra.

U

de U2 - a melhor banda rock de sempre, na minha opinião.

V

de “Valsinha” - um tema incontornável de Chico Buarque.

W

de “White Rabbit”. - mais uma incursão da música pelo mundo da Literatura: os Jefferson Airplane transformam a narrativa de “Alice no País das Maravilhas” numa viagem alucinada e psicadélica a que a voz espantosa de Grace Slick dá corpo e substância!

X

de incógnita - para o que é verdadeiramente a música.

Y

de “Yo vengo ofrecer mi corazón” - música de Fito Paez, magistralmente interpretada por Mercedes Sosa.

Z

de Ziggy Stardust - fascinante alter-ego de David Bowie do início dos anos 70 do século XX. Muito marcante!

De A a Z para a Música na Educação por... Martim Sousa Tavares

Martim Sousa Tavares tem 27 anos, é maestro, comunicador e outras coisas que venha a querer fazer com ou sem a música. Estudou ciências musicais e direção de orquestra entre Lisboa, Milão e Chicago, onde foi bolseiro Fulbright e Eckstein Foundation.

Martim Sousa Tavares

Martim Sousa Tavares

Martim Sousa Tavares tem 27 anos, é maestro, comunicador e outras coisas que venha a querer fazer com ou sem a música. Estudou ciências musicais e direção de orquestra entre Lisboa, Milão e Chicago, onde foi bolseiro Fulbright e Eckstein Foundation.

Trabalhou com orquestras de sete países e dedica-se sobretudo ao trabalho com jovens, sendo fundador e diretor da Orquestra Sem Fronteiras, com a qual se irá apresentar em dezenas de locais na Raia Ibérica ao longo de 2019.

Ativo desde 2014, tem-se assumido como uma voz inovadora e cada vez mais central no campo da comunicação em música. Paralelamente compõe, escreve e desenvolve trabalho de curadoria no âmbito do centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen e é coordenador de projetos pedagógicos com o Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa.

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

Acredito que a música, tal como as restantes artes, serve uma função formativa antes mesmo de ser uma experiência de encontro com a beleza. Beleza essa que está lá, muitas vezes, apenas como “isco para atrair o ouvinte”. Gosto muito desta ideia, de Celibidache, que entendia a música como canal privilegiado para transmitir mensagens. Desde há muitos anos, no entanto, a música clássica parece bastante votada a ser um meio em que muito se exploram alguns dos seus benefícios - Estéticos, Físicos ou psicológicos - e se esquecem as suas funções iniciais e primárias: Gerar raciocínios, associações de ideias, ser agente de transformações pessoais. Só dessa forma pode a música operar sobre a Humanidade e melhorá-la, e era assim que a entendia já a filosofia dos antigos.

Interessante o conceito, mas difícil de explicar: então a música é uma língua, ou o Jogo abstracto dos sons, como lhe chamava Stravinsky? Não procuro levantar a questão da música programática vs. música absoluta, mas sim o conceito discreto e algo esquecido de ter a música uma inteligibilidade que vai para além da simples beleza dos sons.

Kandinsky, por exemplo, teve uma das mais importantes epifanias da sua vida criativa ao ouvir um concerto com obras de Schoenberg. Aconteceu assim: guiado pelos sons da nova Linguagem atonal, a Música ensinou ao Notável pintor coisas sobre a forma, que este procurava e errava. Outro caso foi o de Paul Klee, a quem Bach ensinou a fazer inversões, retroversões e fugas sobre uma tela. Queriam estes pintores soluções para o que fazer com as cores, e encontraram-nas nos sons.

Parece-me que a justificação para estas Revelações através da música está no simples facto de que ambos os pintores Sabiam de facto escutar e procurar mais do que apenas bonitos trechos na música que ouviam. Porque não Tentamos então uma educação para a música, visto que pode trazer tão boas associações e avanços no raciocínio? Neste sentido, creio que é Urgente distinguir aquilo que é educação musical e a educação para a música. Venho até propor mais exemplos: uma educação para a leitura, uma educação para a filosofia, uma educação para a beleza e o que fazer com ela. Em suma, uma educação para as artes, para que as artes voltem a ser educativas, qual paradoxo utópico.

Wackenroder e a sua geração de românticos apaixonados acreditavam que na beleza se escondia a verdade. Fazia parte de serem naïves, mas pelo menos procuravam um significado na arte.

Se procurasse apenas beleza e uma massagem auditiva, cada concerto que frequento seria para mim uma Xaropada insuportável, e teria passado ao lado de uma experiência plena. Tal como se experimentasse Yoga julgando que é apenas uma boa forma de relaxar o corpo e a mente durante uma hora.

Em suma, defendo e sonho com uma nova pedagogia, destinada a Zelar pela preservação da música enquanto patamar onde as ideias se encontram e se estimulam, e não apenas uma forma de arte velha e permanentemente condenada à previsível repetição dos clássicos, por ser onde o nosso ouvido, incapaz de verdadeiramente escutar, encontra maior quantidade de beleza.

De A a Z para a Música na Educação... por Maria Helena Vieira

Professora Auxiliar da Área de Educação Musical no Instituto de Educação da Universidade do Minho e membro integrado do Centro de Investigação em Estudos da Criança (CIEC).

Maria Helena Vieira

Maria Helena Vieira

Professora Auxiliar da Área de Educação Musical no Instituto de Educação da Universidade do Minho e membro integrado do Centro de Investigação em Estudos da Criança (CIEC). Nessa universidade é Diretora do Mestrado em Ensino de Música e Membro da Comissão Diretiva do Programa de Doutoramento em Estudos da Criança como responsável da Área de Educação Artística. Faz parte da comissão científica de diversas revistas internacionais. Tem desenvolvido a sua carreira de ensino, investigação e orientação de alunos nacionais e internacionais de mestrado e doutoramento nas áreas da Edu¬cação Musical, Currículo e Políticas Educativas do Ensino da Música, e sobre o papel do Ensino Instrumental nos ramos especializado e genérico. Nestas áreas tem publicado diversos livros e numerosos artigos em atas de congressos e em revistas nacionais e internacionais.

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

Os ALUNOS sempre foram muito importantes para mim. A música como um AMOR partilhado e mutuamente contagiado. Por isso me comecei a preocupar cada vez mais com o ACESSO de todas as crianças à APRENDIZAGEM musical e com a ARTICULAÇÃO dos vários subsistemas de ensino público de música. Quem acede ao ensino chamado de “especializado” e porquê, e quem aprende música no ensino chamado de “genérico” e porquê? O que justifica que as escolas públicas de ensino especializado estejam localizadas sobretudo no litoral e mais a norte do país, quando todos pagam os mesmos impostos? Há mais “talento” musical no litoral e no Norte? A primeira tese de mestrado que orientei foi sobre o ensino ARTICULADO e a primeira tese de doutoramento também (ambas do António Pacheco). Todas as novidades geram alguma ADVERSIDADE, devido a hábitos enraizados, sobretudo porque centrados mais exclusivamente na prática de sala de aula, do que na visão global do país, mas as realidades evoluem, podem melhorar, e a evolução histórica portuguesa no ensino da música, mesmo comparada com outros países europeus, é motivo de ALENTO.

B

Nasci em BRAGA e comecei a aprender música por acaso. Um pianinho de BRINQUEDO da marca BONTEMPI de prenda de Natal aos 4 anos acabou com o sossego em casa. Todos os dias. Comecei a fazer sozinha tudo aquilo que os pedagogos musicais recomendam que se desenvolva com os alunos: ouvir, tocar de ouvido, experimentar, criar, desenvolver destrezas técnicas, rítmicas, melódicas, harmónicas, formais. Bem, não foi bem sozinha. A família começou a cantar comigo e a minha avó fazia-o desde sempre. Descobri que um instrumento musical também é um professor. No Jardim de Infância D. Pedro V, onde andei dos 4 aos 6 anos, havia uma professora que dava aulas de música, ao piano. Nesses dois anos, de novo por acaso, tive um ensino musical mais “especializado”, logo na educação pré-escolar, do que a maioria das crianças tem hoje. A insistência para aprender música “a sério” levou os meus pais a inscreverem-me no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de BRAGA aos 6 anos e aí também tive a sorte de poder aprender BALLET (que frequentei durante 10 anos, obtendo diversos diplomas da Royal Academy of Dance de Londres, e que chegou a ser uma opção rival ao prosseguimento de estudos de música). No conservatório descobri musicalmente tudo aquilo que só uma escola me poderia dar. E, entre todas as maravilhas, descobri BACH.

C

Depressa compreendi que aquela escola era diferente de todas as outras. Sobretudo, porque naquilo que me parecia ser o principal (o instrumento) eu tinha uma professora, de piano (Fátima Travanca) só para mim. Era o chamado “ensino individual”. E notava que nas outras disciplinas, como Formação Musical e Coro (nas quais o ensino era “COLECTIVO”), o Instrumento tinha um impacto extraordinário. Não por se aprender em ensino individualizado, mas pela minha relação permanente com ele. Afinação, intervalos, harmonia, forma, memória... Tudo estava também no instrumento e crescia solidamente na minha mente com a ajuda dele. Na altura não pensava muito nisso, mas mais tarde vim a pensar que eu poderia nunca ter ido para uma escola de música “a sério”, se não me tivessem dado um brinquedo no Natal!... E por isso comecei a pensar que a única forma de todos os cidadãos terem acesso a uma educação musical prática (se é que pode haver outra) e precoce (como é necessário) é o ensino COLECTIVO de instrumentos na iniciação musical, paralelamente ao trabalho vocal. Um ensino baseado na aprendizagem COOPERATIVA (de base experimental, de trabalho por pares, e com foco na motivação desenvolvida em grupo) e integrado num CURRÍCULO globalmente pensado e desenhado para toda a esfera pública. No mestrado de Piano Performance e Ensino de Piano que vim a frequentar nos EUA essa perspectiva já era bastante pacífica há muitas décadas e estudei pedagogia COLECTIVA do instrumento. Na Universidade do Minho orientei diversos estágios profissionais de mestrado e diversas teses de doutoramento sobre o ensino instrumental em grupo (Lemos, 2013; Brito, 2013; Martins, 2013; Neiva, 2013; Pacheco, 2013; Cabral, 2014; Pintão, 2014; Santos, 2015; Aguiar, 2015; Duque, 2016). Se esse ensino instrumental COLECTIVO ou COOPERATIVO nas iniciações é “especializado” ou “genérico”, isso fica para outras letras do alfabeto, decretos ou portarias. A Música, como a história comprova, não costuma deixar-se aprisionar muito tempo nas nossas categorizações. E muitos factores contribuem, ao longo dos séculos, para que se possa chamar “especializado” a um tipo de ensino.

D

O Sir Ken Robinson diz num dos seus vídeos de youtube muito populares que parece que os professores universitários só têm corpo para poder levar a cabeça às conferências. Esta DIVISÃO entre corpo e intelecto (ou, na visão maniqueísta do Persa Manes (215-276 d. C.) corpo e alma) está hoje eliminada do discurso teórico científico, e até do discurso teológico, mas a realidade escolar e pedagógica continua a perpetuá-la. Os alunos de música tocam pavanes, minuetos e allemandes mas NÃO OS DANÇAM. Um aluno pode tocar as Valses Nobles et Sentimentales de Ravel sem nunca ter dançado uma valsa na vida. Não conhecem também, fisicamente, as DANÇAS da sua região e do seu país. Mas aceitarão estudar uma Chula de Vianna da Motta, sem saber o que é ou como se DANÇA. Hoje são 2 as escolas públicas e 17 as escolas particulares e cooperativas de DANÇA em Portugal, segundo o site da ANQEP. Algumas foram já desenvolvidas através do Regime Articulado. Também esse subsistema de ensino deveria crescer. Mas muito mais importante seria implementar a DANÇA na Educação Pré-Escolar e no 1º Ciclo da escola pública. A DEMOCRATIZAÇÃO do acesso às artes é uma urgência nas bases da escola pública e permitiria potenciar ainda mais os subsistemas especializados (já existentes, a melhorar ou a criar). Mas isto exige DIÁLOGO e articulação entre os agentes, os subsistemas e os recursos existentes no terreno.

E

Um diálogo entre os agentes e os recursos humanos dos subsistemas “ESPECIALIZADO” e “genérico”. Mas o que é o “ENSINO ESPECIALIZADO” e o que é o “ensino genérico”? A formação de professores para o ensino especializado exige hoje a habilitação profissional do Mestrado em Ensino de Música e a formação de professores para o ensino genérico exige o Mestrado em Ensino de Educação Musical para o Ensino Básico. No entanto, os critérios de acesso a esses dois mestrados são exatamente iguais no que respeita ao peso das componentes curriculares exigidas, que se traduzem nos diferentes tipos de Licenciatura em Música. Será, então, a formação pedagógica dos mestrados de ensino que distingue os professores que vão para os dois ramos, “ESPECIALIZADO” e “genérico”? Será antes, de forma mais evidente, o desenho curricular nas escolas especializadas e genéricas, e o número de disciplinas musicais oferecidas? Será a disponibilização de mais recursos, humanos ou materiais, numas escolas do que noutras? A “ESPECIALIZAÇÃO” está na oferta que o Ministério consegue providenciar? Será a tipologia de alunos seleccionados em função de “talentos”, “capacidades”, “aptidões” ou “treinos prévios” musicais que determina o grau de “ESPECIALIZAÇÃO” de uma escola? O ensino “especializado” que se fazia nos mosteiros e nas catedrais não é certamente o mesmo que se veio a fazer nos conservatórios e, a partir dos anos 80, nas escolas profissionais em Portugal. Nem se dirigia aos mesmos públicos. No que respeita à evolução histórica dos sistemas de ensino, as perguntas parecem sempre mais interessantes do que as respostas, pois permitem novas respostas e a adaptação aos novos tempos e às novas concepções sociais. Vieira, M. H. (2014). Passado e presente do ensino especializado da música em Portugal. E se explicássemos bem o que significa “especializado”? In Pacheco, A. (Org). I Encontro do Ensino Artístico Especializado da Música do Vale do Sousa. Do Passado ao presente: Impressões e Expressões, pp. 60-74. Lousada: Conservatório do Vale do Sousa. (ISBN: 978-989-98993-0-8)

F

Talvez devêssemos voltar a pensar nas FUNÇÕES SOCIAIS DA MÚSICA. Alan Merriam no seu livro pioneiro The Anthropology of Music (1964) listava dez funções principais: expressão emocional, prazer estético, entretenimento, comunicação, representação simbólica, resposta física, adaptação às normas sociais, validação de ritos sociais ou religiosos, continuidade e estabilidade da cultura e contribuição para a integração na sociedade. E Swanwick, reflectindo sobre as FUNÇÕES SOCIAIS DA MÚSICA enunciadas por Merriam, reparou que as seis primeiras são funções associadas à transformação social e que as quatro últimas são funções de reprodução cultural. Não será que temos escolas especializadas em reprodução e outras escolas que tentam transformar sem partir de uma base sólida de formação? Escolas em permanente revolução ao sabor do vento e do sentimento e outras escolas que são escolas-museu, abafando o labor da experiência e da criatividade? Talvez seja necessário recordar porque surgiu o pulsar musical no ser humano e verificar se esse coração ainda bate dentro das escolas. Para que serve a música na vida das crianças que são nossas alunas? Sabemos? E para nós?

G

Qual o papel do GOSTO musical na aprendizagem? Como partir do GOSTO das crianças, das suas experiências musicais familiares mais ou menos ricas, da diversidade das suas “formações informais”, dos seus desejos, entusiasmos e alegrias, para uma formação estética superior, que traga outras alegrias? Como pôr em prática os pilares da pedagogia musical (ouvir, tocar, criar), isto é, explorar o material sonoro por si mesmo, excluindo à partida os repertórios musicais, cognitivos e emocionais que a criança traz para a escola? Como fazer a ponte entre a linguagem que a criança fala em casa e aquela que ela vai aprender na escola? GORDON dizia que o domínio da linguagem musical é construído pelo próprio, da mesma forma que aprende a dominar a língua materna, e que nunca inventamos nada e apenas fazemos notas de rodapé.

H

É preciso saber o que é o HOJE, e que nas escolas se consiga o equilíbrio frutífero resultante da capacidade de habitar na tensão entre o passado e o futuro, entre o preservar da tradição e o construir autónomo de linguagens e ferramentas capazes de criar o novo, entre a réplica e a revolução, entre a reprodução e a criatividade. HELENA SÁ E COSTA, expoente de pedagogia e de bondade com quem tive o privilégio de estudar particularmente durante 7 ou 8 anos consecutivos, apresentava por vezes desafios supremos desse equilíbrio: “Toca, por favor, essa fuga em dó menor, agora em do# menor. Inventa um acompanhamento para essa melodia”. Interpretar, reproduzir, criar ou falar a música?

I

As práticas criativas não são um privilégio da pedagogia moderna, nem se deveriam arrumar exclusivamente nas disciplinas de Composição Musical. A INVESTIGAÇÃO mostra que as próprias práticas instrumentais já foram mais abertas a técnicas improvisatórias (fantasia, ricercar, prelúdios, cadências), aproximando a interpretação instrumental de tempos antigos das modernas práticas jazzísticas ou das sempiternas tradições populares. A resistência ao fazer diferente (na pedagogia ou no desenho curricular) ignora muitas vezes a evidência que a INVESTIGAÇÃO MUSICOLÓGICA, PEDAGÓGICA E DOS ESTUDOS PERFORMATIVOS nos trazem de diferentes momentos históricos. Recordar o passado poderá tornar-nos mais abertos e menos receosos das novidades do futuro. Os primeiros cursos superiores de música fora do conservatório, depois do DL 310/83, surgiram a partir de 1985. Pouco mais de 30 anos em que os frutos da INVESTIGAÇÃO sobre a nossa música e o nosso ensino de música já são evidentes. Mas precisamos de muito mais para manter sempre um olhar crítico sobre o que fazemos.

J

Dominar a linguagem musical, ter acesso à sua aprendizagem e até mesmo ao seu manuseamento criativo será, então, e sobretudo, uma questão de JUSTIÇA, uma questão de acesso e de oferta equilibrada no território nacional. JOHN RAWLS no seu livro Uma Teoria da Justiça (1993) explica bem os diferentes tipos de justiça humana e como uma justiça baseada em supostas diferenças genéticas constituiu um perigo. O mesmo explica Licínio Lima no livro Organização escolar e democracia radical. Paulo Freire e a governação democrática da escola pública (2000) quando afirma que é necessário “não ignorar que a organização e administração das organizações educativas se constitui, desde logo, como pedagogia implícita (e como currículo oculto)” (p.71). Talvez isto explique a razão pela qual se começaram a formar mais alunos de composição no Conservatório de Braga, a partir do momento em que o compositor e professor Paulo Bastos iniciou em 2000/2001 o primeiro curso de composição de nível secundário em Portugal, com base no que estava no papel desde a Portaria 1196/1993 de 13 de Novembro. Foi a escola, a organização curricular e a melhoria da JUSTIÇA no acesso à aprendizagem que fez nascer compositores em Braga, não um “talento genético minhoto” seleccionado aos 6 anos de idade. Ana Searo, Sara Claro, Osvaldo Fernandes, Ana Lima, Helena Gandra, Ana Catarina Barros, Jorge Ramos, João Tiago Araújo, Pedro Lima, Francisco Fontes são alguns dos jovens que terminaram o 12º ano de Composição e seguiram estudos superiores na área em escolas do país ou do estrangeiro (e a lista está desactualizada desde 2014).

K

Pequena pausa para ouvir a primeira parte do KÖLLN KONZERT de KEITH JARRETT, um pianista que me inspira há muitos anos, pela sua versatilidade entre a capacidade improvisatória e o ter tocado todos os Prelúdios e Fugas de Bach. Já não o ouvia há muito, mas a letras e os abecedários têm este poder evocativo.

L

Isto das pausas faz pensar nas coisas “LÚDICAS”, e “LÚDICO” é um adjectivo frequentemente encontrado nas Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar (OCEPE), nos programas curriculares do 1º Ciclo do Ensino Básico e nas orientações para as Actividades de Enriquecimento Curricular (AEC) ou para as Actividades de Complemento Curricular (ACC). As AEC nasceram até com outro adjectivo: deveriam ser “LÚDICAS e facultativas”. Sim, porque a LUDICIDADE nunca deve ser obrigatória, nem oferecida a todos. Destina-se apenas a uma parte dos alunos do chamado “ensino genérico”, que é mais divertido do que o “especializado”, e tem que vir indicada como estratégia pedagógica no programa oficial ou por decreto. Quem se diverte aqui? Os professores que ensaiam “pedagogias lúdicas”, os alunos a quem elas se dirigem, ou os redactores da legislação? Como dizia Almada Negreiros, “a alegria é a coisa mais séria da vida”.

M

Para que não andem uns a “divertir-se” e outros a “trabalhar no duro”, uns a aprender a saborear e ouvir a música (Reimer, 1970, 1989) e outros a aprender a tocar e a fazê-la (Elliot, 1995), talvez fosse positivo aproximar as diversas práticas de todos os cidadãos (cf. “A fragmentação pedagógica: do culto dos repertórios à participação” e “Uns tocam e os outros ouvem: Por um novo ensino da música em Portugal” in Vieira e Cachada (2014). Pensar a Música II – Educação musical para todos: por uma política de participação no ensino da música, pp. 61-85) e contemplar a necessidade de uma MASSIFICAÇÃO do acesso à aprendizagem musical. Há palavras proscritas e MASSIFICAÇÃO parece ser uma delas; sobretudo, porque a massificação pedagógica, artística ou cultural é, obviamente, indesejável. Trata-se, antes, da necessidade de MASSIFICAÇÃO DO ACESSO à aprendizagem prática, instrumental e vocal, uma massificação idêntica à que ocorreu nos anos 40 do século XX em termos da alfabetização na língua materna e de democratização da escolaridade obrigatória, e à que ocorreu nos anos 70-80 com a introdução da disciplina de Educação Física para todos os níveis de ensino e para todos os cidadãos, sem questionamento até anos bem recentes. Não pode haver qualidade global de formação artística num país sem esta MASSIFICAÇÃO DO ACESSO à formação artística e estética, desde a Educação Pré-Escolar. Uma “qualidade de nicho”, uma espécie de formação paralela, sem razões válidas ou científicas que justifiquem a selecção dos alunos que a frequentam, será sempre, sem dúvida, algo elitista. No entanto, parece óbvio que só a partir do alargamento da rede de “ensino especializado”, dos seus recursos, e da sua articulação com a rede e recursos do “ensino genérico” se poderá ir reconfigurando um acesso mais democrático à literacia musical no nosso país.

N

Vale a pena pensar no que é hoje o NOSSO PAÍS, e nas questões de NACIONALIDADE, quer musicais, quer pedagógicas, numa época de pertença à comunidade europeia e de múltiplos processos de globalização e de trânsito multicultural, a ritmos nunca antes observados. Vale a pena reler “A música portuguesa e os seus problemas”, volumes I e II, de Fernando Lopes-Graça, e reflectir “Sobre o conceito de música portuguesa” e sobre o “Estado actual da cultura musical em Portugal”, bem como recordar as “Considerações sobre a música portuguesa”, a reflexão sobre “A música portuguesa nas suas relações com a cultura nacional” e os balanços sobre “O problema da edição musical portuguesa” e sobre “A investigação musicológica em Portugal”, entre outros estudos. O que caracteriza hoje a música portuguesa como “portuguesa”, para além de ser feita em Portugal? E que avaliação podemos fazer do sistema de ensino da música?

O

Por exemplo, que instrumentos se ensinam hoje nas escolas, “especializadas” e “genéricas” e porquê? A Portaria nº 693/98 de 3 de Setembro regulamenta os Instrumentos a oferecer nas escolas “especializadas”, desde as iniciações, transformando-os nos próprios grupos profissionais de recrutamento, os grupos “M”. Predominam os instrumentos de ORQUESTRA, embora sejam também oferecidos outros, como o acordeão (M01), o alaúde (M02), o bandolim (M03) ou a Guitarra Portuguesa (M12). No entanto, em alguns instrumentos, devem contar-se pelos dedos os professores profissionalizados no país. Perduram algumas incoerências curriculares. Existem cursos no Ensino Superior onde se ensinam instrumentos (sobretudo tradicionais) que não são oferecidos no Ensino Básico e Secundário. Na Madeira, que tem legislação própria da Direcção Regional, já se ensinam no Conservatório instrumentos tradicionais como o Braguinha, ou o Machete. Nas escolas “genéricas” portuguesas não há indicação específica dos instrumentos musicais a desenvolver, cumprindo-se a tradição prioritária do Instrumentário ORFF considerado como um conjunto de “instrumentos musicais pedagógicos”, e em que se inclui a Flauta de Bisel. Nem todas as escolas especializadas conseguem oferecer todo os instrumentos já previstos por lei, sobretudo devido a medidas financeiras que limitam a entrada de alunos ao número de alunos que terminam os ciclos de estudo. A oferta educativa determina as saídas profissionais, que se encontram sobretudo limitadas à música ORQUESTRAL e ao ensino de instrumentos de ORQUESTRA, ao contrário de outros países em que os conservatórios já oferecem percursos e instrumentos de música tradicional, música electroacústica e digital, e mesmo música pop-rock.

P

PAUSA para folhear e recordar o livro PRAXIAL Music Education de David Elliot (1995). É impossível voltar a olhar para o nosso sistema de ensino de música da mesma maneira depois de ler este livro.

Q

É impossível não pensar na evolução que houve no ensino da música, desde o tempo medieval, em que ela se inseria curricularmente no QUADRIVIUM (grupo das disciplinas de Geometria, Astronomia, Aritmética e Música, consideradas “teóricas”), segundo os princípios enunciados por Boécio no seu De Institutione Musica, até ao nascimento dos conservatórios na Itália renascentista (como expansão das práticas musicais religiosas para a esfera secular) e à sua consideração, desde então, como disciplina “prática” ou “praxial”. As perspectivas de ensino musical mais centradas na “apreciação estética” e no conhecimento “sobre” música (claramente predominantes no ensino “genérico” e nos seus “manuais escolares”) têm ignorado esta evolução histórica sobre o conceito de música e de aprendizagem musical “praxial”.

R

Espero que o(a) leitor(a) tenha RESISTIDO até aqui. A um dado momento deste criativo exercício de abecedário pessoal proposto pela APEM dei-me conta de que a minha ideia de fazer uma escrita contínua, em que as letras do alfabeto pudessem ser todas interligadas narrativamente, estava a gerar um texto um pouco mais longo do que se calhar se esperava. Mas senti que já não tinha RETORNO... Nem sei como REDIMIR-ME... Nova pausa. Para descansar. REST. Que é pausa em inglês e também é descansar.

S

Ah, no S, vou então ser breve... e a propósito da SELECÇÃO de alunos para o ensino “especializado” que mencionei antes, recomendar o artigo que um doutorando escreveu comigo: Brito, H. e Vieira, M. H. (2017). Era uma vez um gato maltês, tocava piano e falava francês: Um olhar sobre o acesso à rede pública de ensino artístico especializado da música. Revista de Estudios e Investigación en Psicología e Educación, 2017, Vol. Extr, (Nº 04), A4-134--A4139, DOI:

https://doi.org/10.17979/reipe.2017.0.04.2696

http://hdl.handle.net/1822/52333

Tem sido um gosto trabalhar com o Hugo Brito. Em breve de regresso ao...

T

TEMPO GIUSTO... Tão importante. Em tudo. Também no ensino superior, onde a música faz parte das “áreas pobres”, tarda em ser reconhecida com a mesma dignidade dos outros cursos e por vezes parece servir mais o papel acessório de “abrilhantar as festas” das “áreas nobres” com concertos ou... “momentos musicais”. Onde os livros de apoio aos cursos de música e ensino de música tardam 8 e 10 anos a serem comprados, onde os professores tardam em ser contratados, quando são contratados tardam a entrar na carreira, e quando entram na carreira tardam a subir de escalão, ou reformam-se 30 anos depois no escalão em que entraram, porque não abrem vagas. TEMPO GIUSTO urgente também nas questões laborais.

U

Nas UNIVERSIDADES constroem-se e equipam-se escolas inteiras de outras áreas, com vários departamentos e novos cursos, antes de se decidir contratar dois ou três professores de música de carreira que possam trazer esperança aos que trabalham há décadas. No entanto, os nossos jovens músicos (e até os menos jovens) estão a ser absorvidos por orquestras e instituições de ensino superior estrangeiras. O ensino superior realiza sempre uma determinada ideia, e traça sempre, sem sombra de engano, de forma implícita, um determinado perfil de cidadão e uma linha clara de valores.

V

Mas as VIAGENS sempre fizeram parte da vida dos músicos. Viajavam os goliardos, viajavam os trovadores, viajavam os compositores para aprender o estilo de uma escola noutro país, viajam os estudantes para trabalhar um instrumento com novos mestres, viajam os alunos e os professores no programa ERASMUS. A VIAGEM, quando não é feita em busca de trabalho ou de melhores condições de vida, mas é feita por motivos musicais e profissionais, tem um sentido positivo de busca da beleza. Ela foi até, aliás, objecto de inspiração em muitas peças musicais: Wanderer Fantaisie de Schubert, Anées de Pélerinage de Liszt, Lieder eines Fahrenden Gesellen de Mahler, Songs of Travel de Vaughan Williams, Short ride in a fast machine de John Adams, entre muitas outras.

W

Numa das minhas viagens, conheci o Pianista e Professor Jack WINEROCK (Universidade do Kansas, EUA) um dos maiores pedagogos do piano que me foi dado observar e com quem estudei durante dois anos. A sua sintonia com os alunos e a percepção exata das necessidades de cada um fez dele um exímio orientador pedagógico, plenamente consciente de outras funções da música para além da de ser tocada em concerto.

X

Noutra viagem, numa visita a duas escolas da Madeira onde dois doutorandos realizavam estudos práticos de pedagogia de instrumentos em grupo, conheci a Associação Musical e Cultural XARABANDA. O Roberto Moniz, que tem dado um contributo notável para o ensino dos instrumentos regionais madeirenses (quer em contexto informal associativo, quer nos contextos do “ensino genérico” e do “ensino especializado” - tendo realizado os primeiros programas curriculares de vários cordofones regionais madeirenses para o Conservatório da Madeira) fez-me uma visita guiada. Um espaço e uma atividade exemplares.

Y

A Madeira, através da sua Secretaria Regional de Educação, é um exemplo de respeito e valorização das componentes regionais do currículo, quer no “ensino genérico”, quer no “ensino especializado”. Desenvolve uma importante actividade editorial através da DSEAM (Direcção de Serviços de Educação Artística e Multimédia), na qual se inclui a Revista Portuguesa de Educação Artística. Do ponto de vista da preservação e investigação sobre a música e a dança tradicionais uma revista internacional muito importante a destacar é a YEARBOOK FOR TRADITIONAL MUSIC, publicada pelo International Council for Traditional Music, que é uma organização não governamental consultiva da UNESCO. Precisamos de trabalhar mais em conjunto. O continente e as ilhas, o “ensino genérico” e o “ensino especializado”, os conservatórios e as escolas profissionais, o ensino superior e o ensino básico e secundário. Juntos.

Z

ZUSAMMEN, do alemão, juntos. Como numa passagem numa partitura orquestral, depois de uma secção divisi, em que a orquestra esteve dividida.

De A a Z para a Música na Educação... por Pedro Branco

Professor do 1º Ciclo desde 1987, formado pelo Magistério Primário de Lisboa. Trabalhou no Externato “As Descobertas” e no “Jardim Infantil “Pestalozzi” até 1992, altura em que foi convidado pela Constância Editores, para integrar o seu quadro de Editores de livros escolares, cargo que exerceu até 1997.

Pedro Branco
Fotografia de Diogo Branco

Pedro Branco

Professor do 1º Ciclo desde 1987, formado pelo Magistério Primário de Lisboa. Trabalho no Externato “As Descobertas” e no “Jardim Infantil “Pestalozzi” até 1992, altura em que foi convidado pela Constância Editores, para integrar o seu quadro de Editores de livros escolares, cargo que exerceu até 1997.

Nesse ano é contratado pelo Externato Fernão Mendes Pinto, local onde permanece até hoje, com uma turma de vários anos de escolaridade desde 2006.

A sua atividade profissional tem sido pautada por um grande investimento em variadíssimas instâncias do Movimento da Escola Moderna: Congressos, Grupos de Trabalho, Formação… Outras atividades: dirige grupos de teatro e de música, dedica-se à escrita e à música, tendo editado já 6 livros (poesia, prosa, infantil…) e 1 disco. Promove e participa em eventos de poesia e de música com regularidade. Pai de 7 filhos.

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

“É preciso provocar sistematicamente confusão. Isso promove a criatividade. Tudo aquilo que é contraditório gera vida.”

(Salvador Dalí)

A

de amor.

Sem amor nada tem aquele sentido que todos achamos que é preciso. Parece que é algo de somenos importância e de fácil acesso, mas não. Infelizmente, o Homem é pródigo em atirar areia para os próprios olhos para não se confrontar com as suas maiores dificuldades e embaraços. Alguma vez se imaginou um Músico compor sem amor? Amor a uma pessoa, a uma causa, a uma revolta… Os professores (profissionais de afetos), infelizmente, não fogem a esta espécie de regra instituída e muito conveniente. E os professores de Música? Será que o amor cabe no meio das colcheias e dos compassos? .

(https://www.youtube.com/watch?v=75iqd2yJH6w)

B

de bondade.

Poderia repetir, quase na íntegra, o parágrafo anterior… No entanto, aproveito para lembrar que a Música, como qualquer arte, é uma atividade de dádiva, de comunicação, de amor, de bondade. Claro que vos falo como criador, como músico. Isso é lógico. Mas também o refiro como profissional de Educação que sou. Penso que é preciso que se coloque a bondade nas respirações docentes para melhorarmos as escolas que temos. E os professores de Música? Será que a bondade tem lugar junto das pausas e dos silêncios?

(https://www.youtube.com/watch?v=ZfyAsj4_ZDI)

C

de confiança.

Outro chavão. Outro clichê. Outra verdade inquestionável. Outro paradoxo entre aquilo que se defende (será que se pensa verdadeiramente?) e o que se faz. O ser humano em geral e os professores em particular têm uma tendência a não confiar muito nos outros, a excluir a bondade do seu lado mais consciente. Historicamente somos “formatados” a desconfiar do vizinho e a construir muros. Um Músico nunca pode deixar de confiar nos seus pares. Confiar na capacidade de improvisação dos seus pares ou na competência de reprodução do que está escrito. Um músico não pode deixar de confiar no público, no seu “juízo” (ou falta dele) e reações. Um professor não poderá deixar de confiar, como é obvio, nos seus alunos. Confiar nas suas potencialidades de aprendizagem, nos seus interesses e leituras, na forma como cada um comunica, se expressa e enfrenta aquilo que lhes pomos à frente. E os professores de Música? Será que a confiança tem estado perto das pautas?

(https://www.youtube.com/watch?v=CRIXprZqRd4)

D

de dinâmica.

Este termo sempre aparece e faz o seu figurão. Em vários domínios da sociedade. Na Música, obviamente que temos de pensar nisso e a confiança é quase cega. A dinâmica, seja ela qual for, é algo assumido por quem faz Música e sentido por quem a ouve. Em Educação temos igualmente que nos lembrar que os grupos, as turmas, apresentam dinâmicas muito próprias, às quais temos de olhar de forma diferenciada. Ou será que podemos fazer as mesmas coisas com grupos de características diferentes? Ou será que não contemplamos nas nossas preparações algo que tenha a ver com dinâmica? Dinâmica dos grupos... Dinâmica dos espaços... Dinâmica dos tempos… E os professores de Música? Será que as questões da dinâmica conseguem vir de dentro?

(https://www.youtube.com/watch?v=3ZGkdW80gnc)

E

de estrutura.

Sou uma pessoa organizada, mesmo que em certa medida me possa identificar, por determinadas vezes, com o estigma do caos daquele que cria. Acredito que uma estrutura sólida e consistente, envolvente e holística, viva e presente, cooperativa e democrática, é sempre o alicerce para qualquer movimento, seja qual for o paradigma social e cultural. Defendo e promovo isso na forma como organizo todo o ambiente da minha sala de aula e procuro que neste processo em constante ebulição (dinâmico?) eu e os meus alunos nunca nos sintamos sozinhos, desacompanhados, sem forças, com pouca energia para fazermos o que temos de fazer: aprender e ajudar a aprender. Temos, portanto, uma sala de aula onde a voz é a de um grupo com o seu líder, no respeito e na crença por uma estrutura onde cada um se possa expressar e desenvolver como pessoa, como cidadão ativo e participativo, como criador de cultura com voz e opinião, com vontade de dar… E os professores de Música? Será que existe uma estrutura coerente na forma como cada um encara o seu trabalho e a sua ação?

(https://www.youtube.com/watch?v=hkBchjktpMY)

F

de felicidade.

Já vão faltando as palavras para defender o que penso ser fundamental na vida (consequentemente, na escola): que as pessoas se sintam bem, confortáveis e confiantes nos lugares onde vivem e onde trabalham, em estruturas boas e coesas, junto daqueles com quem estão e têm de conviver. Ora o que é que isto tem a ver com a escola? Tudo. Será que professores e professores, professores e alunos, professores e diretores, alunos e auxiliares… vivem com felicidade? O que podemos, cada um de nós, fazer para melhorar a nossa felicidade? Queremos pensar nisso? Que podem os professores de uma área tão expressiva como a Música fazer para promover maiores momentos de felicidade nos seus alunos? Será que este desígnio cobre o Currículo tão específico a que nem todos ousam, conscientemente, desobedecer?

(https://www.youtube.com/watch?v=2gs3MoUAZWw)

G

de gume.

Somos todos um pedacinho muito pequeno de um grande fruto. Uma espécie de gume. Ora amargo, ora doce (não precisa ser citrino), mas imprescindível para que o todo se cumpra. Tenhamos a consciência desta humildade e consigamos encontrar nos nossos grupos – família, amigos, colegas, turmas… – essa visão holística e ecológica da condição humana, muito anterior à condição de docentes. Será que, qual orquestra onde cada um desempenha um papel fundamental, conseguimos encontrar esse equilíbrio estratégico, essa felicidade, nas condições que temos à frente e d(n)as quais a maior parte das vezes se sentem tão afastados e impotentes? E os professores de Música? Qual a percentagem de importância que cada um desempenha nesta harmonia?

(https://www.youtube.com/watch?v=CuZ2254HSp4)

H

de hierarquia.

Não sou muito apologista do caos ou da anarquia. Como já se deve ter percebido pelas abordagens várias que até agora fiz, procuro participar na construção de fortes contextos de desenvolvimento e bem-estar. Passa-se na vida. Passa-se na Educação. Passa-se na Música. Há sempre papéis que cada um desempenha dentro de cada grupo, na correlação das suas forças (hierarquias) que se sustentam em papéis e poderes simbólicos e efetivos bem definidos e aceites, como gumes. Fugindo aos egos e egoísmos; às maldades e mediocridades. Procurem-se então estruturas hierarquicamente coesas onde cada um saberá do seu lugar, da intensidade da sua voz e do seu instrumento. E os professores de Música? Qual a liberdade que cada semibreve assume nas partituras das salas de aula?

(https://www.youtube.com/watch?v=7XtLeGhOVFg)

I

de inquietação.

Tão fácil aceitar a ideia de que parar é morrer e que pode ser a insatisfação que nos move. Há algo sempre pronto a acontecer se quisermos e queremos! Há sempre uma nova janela a abrir e queremo-la abrir! Há sempre um mergulho a dar e damos! Na vida, na Educação… procuremos então, nas hierarquias que nos amparam essa linha ténue, mas certeira, que nos separa do comodismo e da inércia, levando-nos para patamares superiores da nossa (pequena) existência. Façamos de cada segundo uma grande sinfonia onde toda a nossa pele se reveja pronta a nos espelhar. Será que procuramos? E os professores de Música querem descobrir nos movimentos fortes e já carregados dos seus alunos as cores da inquietação, que os faça querer ser mais e mais?

(https://www.youtube.com/watch?v=cuMcEC8YygU)

J

de jorro.

Se pensarmos nas crianças e nos jovens como fontes, logo teremos a certeza dos rios. Se deixarmos que cada um deles e todos eles nos inundam com tamanha capacidade e água, logo teremos a infinitude do mar. Se acreditarmos que todo o nosso trabalho se pode alicerçar numa inquietação e pode ir muito mais além do que sabemos, dos nossos medos e vontades, logo teremos todas as dúvidas prontinhas a criar-nos os sorrisos das descobertas. Se nos deixarmos deslumbrar por tamanho jorro criativo e fome de vida, logo encontraremos os ingredientes para viagens inesquecíveis. Acredito que em Educação muito mais importante que falar é ouvir; muito mais importante que saber falar é saber ouvir. É de ouvir que vos falo. Ouvir o jorro que cada um traz consigo e que, de uma forma ou de outra, a Música consegue potenciar. Será que os professores de Música querem acreditar nestas torrentes sem a prisão dos saberes e das teorias?

(https://www.youtube.com/watch?v=YPO1iaetL2I)

K

de Kant.

Sob pena de não nos cumprirmos verdadeiramente, temos de acreditar no Homem e naquilo que ele sabe e é, no seu jorro. Temos de acreditar que, provavelmente contra todos os cânones pedagógicos, nós, os professores, não estaremos já acima dos outros. Precisamos de nos relativizar perante a complexidade contemporânea que tanto tem obrigado a mudar uma Escola que teima em manter-se na mesma. Talvez por isso esteja tão mal. Talvez por isso precise cada vez mais das artes. Talvez por isso esteja, na minha modesta opinião, em estado de moribundez latente. Talvez por isso nos impele para novos arranjos e orquestrações. Será que os professores de Música, quais criadores e loucos, querem enfrentar corajosamente o grande desígnio da mudança? Entrar no ruído para o modificar e transformar? (Veja-se, por exemplo, na facilidade que seria nas escolas haver Música para todos, onde cada um se possa sentir realizado, a produzir e a produzir-se, em obras culturais várias e de diversos alcances… a Música tem o grande poder de não ter – curricularmente – poder quase nenhum…)

(https://www.youtube.com/watch?v=5-Dry18_rrk)

L

de luz.

Tão bem que podíamos associar luz e som! E jogar com isso. Brincar com as inúmeras possibilidades das inúmeras teorias dos inúmeros paradigmas dos inúmeros tempos áureos dos inúmeros génios (Kant?) dos inúmeros sentidos que tudo pode ter… A luz é o sol e o sol é vida e a vida somos nós e o melhor do mundo são as crianças. Ah, e cada um tem dentro de si uma criança, claro! A luz também ofusca e nos atira para a cegueira ou outro qualquer ensaio. Ah, ensaio. Sim! É preciso ensaiar para que a Música seja Música. Há que ter algum discernimento profissional, certo? Luz porque cada um de nós tem em si uma luz. Ou várias. Pensemos com juízo: Será que aceitamos isso sem culpabilizações, tão frequentes nos professores? “Oh, pois… o pai não lhe dá atenção e por isso ele é assim…” “Oh, tem problemas financeiros…” “Oh, é um menino que tem tudo e não dá valor a nada…” Luz! Luz! Luz! Esse brilhozinho nos olhos com que conseguimos amar! Conseguimos? E os professores de Música será que encontram esse calor dentro de cada um pronto a explodir e a pintar o mundo? Desculpem o tom surreal desta parte, mas a luz deixa-me às vezes sem ver muito bem…

(https://www.youtube.com/watch?v=L1VfDGug95w)

M

de Música .

Entrar pelo discurso da importância da Música no desenvolvimento humano será seguramente gerar-se um consenso brutal! Convenhamos: não é isso que está em causa e que tenho procurado trazer à tona (provavelmente sem sucesso…). A questão estará sim nas certezas ou incertezas com que cada professor de Música lida com a sua função (e as suas prováveis frustrações?), com a luz que cada um consegue emanar. Fazemos do pouco tempo que temos com os alunos momentos de verdadeira qualidade e criatividade? Deixamos que a Música se torne, efetivamente, uma respiração em cada um e nos grupos? Acreditamos, confiamos que cada um tem dentro de si toda a Música capaz de criar Música e assumimo-nos como gestores com outro poder científico e teórico que se emocionam e se deslumbram com tamanhas capacidades dos alunos? E os professores de Música sabem desta perigosa liberdade?

(https://www.youtube.com/watch?v=mADiz_vn0RQ)

N

de neo.

Renovemos a vida a cada novo acordar! Assim, como uma verdadeira dádiva. Lembro-me bem de um dos meus mestres – João Mota –, cidadão da vida, do teatro, da arte e da pedagogia, me dizer isso mesmo, junto ao copo de água morna em jejum. Defendo que podíamos atingir outros patamares com outros contornos de respiração e de energia se efetivamente dessemos graças a um novo sol, um novo dia. Artistica e pedagogicamente. Porque em cada cantar haverá sempre uma espécie de bênção e uma nova oportunidade de sermos donos da nossa sala de aula e do nosso tempo nesta bela, delicada e honrosa missão de podermos educar os filhos dos outros. Será que os professores de Música encontram esse intervalo de tempo imprescindível?

(https://www.youtube.com/watch?v=U5L4RvHsk0g)

O

de ócio.

Palavra proibida na vida? Palavra herege na escola? “O Homem não nasceu para trabalhar”, diria Agostinho da Silva. Não tenho esse poder que me dê alguma credibilidade para vos dizer algo semelhante. Apenas o seguinte: Não podemos viver bem sem tempos de ócio e verdadeira fruição artística, cultural, desportiva, afetiva... E se não vivemos bem não devíamos ser professores. E se não formos MESMO professores não podemos ser professores de Música (não o serão eles já?). Haverá espaço nas escolas para tal? Estarão os Currículos preparados para assumir esse novo (neo) tempo, tão fundamentais e geradores de tantas aprendizagens e crescimento “não controlável”? Serão os professores capazes de não estragar essas respirações (recordo a minha professora que nos obrigava a fazer sempre uma ficha interminável de leitura de cada vez que líamos um livro, o que provocou que metade da turma começasse a detestar ler)? Será que os professores de Música querem simplesmente cantar, ouvir Música, conversar sobre Música com os seus alunos só porque é bom e sem se preocuparem tanto com a verificação dos conhecimentos ou a desocultação/desconstrução da obra artística (que por vezes é uma arma bem poderosa e assassina…)? Não será o ser capaz de construir, fruir e partilhar só por si já uma grande aprendizagem?

(https://www.youtube.com/watch?v=hml9ubcstRo)

P

de Pauta.

Esta palavra encerra em si um conceito feliz para uma sociedade melhor. Só com ordem e clareza as comunidades poderão conhecer-se e evoluir. Só com orientações serão criadoras de mudanças significativas. Na vida, na Educação, na Música, não podemos deixar para trás este poderoso registo que nos responsabiliza para um estar mais ativo e forte onde quer que estejamos, onde se consegue encontrar espaço para tudo (inclusivamente para o ócio). Será que os professores de Música querem construir as suas pautas com os seus alunos? Deixar que as linguagens de cada um se configurem em equilíbrios com sentido? Ou simplesmente insistem numa formatação pouco consequente para quem, como a maior parte dos alunos, encara a Música como uma linguagem própria e algo inconsequente como ferramenta de trabalho e de vida?

(https://www.youtube.com/watch?v=2gHu96WQLcU&list=PLw0v_UUM0hKAKbF8urEHLF0kL0-zKhAF0&index=1)

Q

de quimono.

“Coisa para vestir”, diretamente do Japonês. Eis o que todos devemos fazer na vida. Vestir a nossa vida e fazer do nosso (curto) passeio uma existência cheia de paisagens e dádivas. Somos todos criadores e capazes. E temos uma ou várias pautas! Sabemos enfrentar os espelhos e verificar-nos para continuarmos a ser melhores, para nós e para os outros. Fugindo aos egocentrismos sociais que nos querem afastar uns dos outros. Rejeitando as grandes ilusões do novo e “fantástico” mundo tecnológico atual! Qual é então o grande roupão que decidimos vestir para “combater”? Será que sabemos? Será que os professores de Música aceitam as passerelles dos seus alunos e se deixam deslumbrar com isso?

(https://www.youtube.com/watch?v=PTt6dUGzO80)

R

de reflexão.

A vida não é uma viagem que se faça sem pensar nela. Temos de nos colocar em posições humildes de a tentar entender para a tentar melhorar. De vestir esse quimono. Esta é uma verdade mais que lógica. Tanto como aquele sinal de trânsito que está sempre no mesmo sítio e já nem o “vemos”. Será que encaramos a necessidade de sermos reflexivos – connosco e com os outros – para podermos viver e trabalhar melhor? Ser professor tem de ser, seguramente, uma profissão onde esta competência deve surgir como forte instrumento de trabalho, qual serrote para o carpinteiro. Será que os professores de Música levam para as suas pautas este olhar? Permitem-se isso? Permitem essa voz aos outros? (Sim, os alunos são, por natureza, bem mais capazes de pensar do que certos adultos…)

(https://www.youtube.com/watch?v=mpauUChzXB0)

S

de sinais.

Fascinam-me os Músicos que conseguem incorporar nas suas orquestrações subtilezas que as enriquecem. São sinais conscientes que tornam a comunicação em algo ainda mais surpreendente e potenciador. Na vida, como na Educação (já se reparou que este paralelismo me surge quase sempre?) não devíamos deixar de procurar que a leitura e a reflexão sobre esses sinais – dos olhares, da linguagem não verbal, dos implícitos… – que na maior parte das situações são excluídos da nossa função como sendo algo não mensurável e de pouca importância, como não fazendo parte da condição humana, como não entrando na equação docente… Somos humanos. Temos uma profissão de relação. Não será legítimo de todo não encarar os sinais dos outros como avisos para a nossa reflexão e ação. Com a sensibilidade que nos é característica. Será que os professores de Música encaram esta questão quando olham para os outros? Será que procuram esses sinais para as suas orquestrações?

(https://www.youtube.com/watch?v=B5P4lRBOfNE)

T

de textura.

Se nos pensarmos como um grande tapete ou manto colorido, onde cada um tem a sua forma, a sua cor, os seus sinais, facilmente entenderemos que os sonhos e os medos que nos acompanham sempre (Temos, não temos?) também formarão as suas texturas, que com os outros nos levarão a manter a nossa vida mais aconchegada. Somos ao mesmo tempo aqueles que se colocam debaixo do xaile nas noites de frio como os que tricotam o casaco de malha para vestir ou oferecer. Haja cor! Haja conjugação e vontade! Será que os professores de Música aceitam entrar nesta espécie de loop que se vai multiplicando em si até ao grande manto final? Ou ficamo-nos pelas potencialidades de pedal de efeitos?

(https://www.youtube.com/watch?v=m4UpryzurOU)

U

de único.

Único é cada momento que vivemos. Cada acorde que ouvimos ou cada voz que nos ressoa no coração. Únicos são as crianças e os jovens que temos à frente e todas as suas capacidades e medos. Únicas são as nossas responsabilidades perante isso. Única é cada criação humana – Canção, Pintura, Poema… – e por isso únicos somos nós. Já vos “roubei” um sorriso com estas divagações? Boa! Façamos da nossa vida, das nossas texturas, das nossas aulas, momentos verdadeiramente únicos e nossos. Meus e teus. Dele e deles. Dos outros. Será que os professores de Música encaram este frontispício quando colocam uma obra ou uma atividade a circular? E quando acordam de manhã?

(https://www.youtube.com/watch?v=n92WXR-AuUM)

V

de viagem.

Eis o grande motivo da nossa vida. Quiçá o único… Eis a nossa vida. Eis o que fazemos. Somos músicos? Viajamos pelos sons, pelos instrumentos, pelas cantigas, pelos públicos, pelas obras que produzimos… Somos cozinheiros? Viajamos pelos alimentos, pelo olhar sobre eles, pela forma como os tratamos e juntamos, pelo que inventamos… Somos professores? Viajamos pelos outros, pelas responsabilidades que temos sobre eles e com eles, por aquilo que lhes dizemos ou não dizemos, pelo que fazemos ou não fazemos… Quem pensa assim? Será que os professores de Música aceitam e acreditam nestas viagens e em todas as suas causas e consequências quando colocam uma canção popular portuguesa para se dançar? Será que temos esta consciência na pele?

(https://www.youtube.com/watch?v=LrNz37uc7kc)

W

de Wagner.

A perspetiva do trabalho holístico e assumidamente profundo. Estar na vida – viver – é isso mesmo: uma viagem de aceitarmos a nossa condição de produtores e fazedores de cultura, capazes de se emocionar e de emocionar, de manter acesas as chamas individuais e coletivas dos outros. Podemos dizer isso mesmo quando pensamos na maioria das salas de aula, repetitivas, onde todos fazem praticamente o mesmo e onde em vez de construírem conhecimento se limitam a reproduzir conhecimento? Podemos acreditar que ISSO é profundo e interessante? Desculpem, mas não. Ainda por cima nos tempos que vivemos, em que a informação nos chega agora bem mais depressa e nalguns casos de forma bem mais interessante… Será que a Música “curricular”, os professores de Música, não poderiam assumir uma vertente bem mais provocadoramente mais desafiadora do ponto de vista cognitivo, emocional e social? Quem pensa nisso?

(https://www.youtube.com/watch?v=yDbjyZrdeSI)

X

de xamamento.

Eis mais uma traição ao espírito deste convite (escrever este artigo), que muito me honrou e desde já agradeço. Um erro ortográfico!!! Mas não se pense que não tem razão de ser, porque tem. Primeiro, na crença de que não precisamos de ser perfeitos para nos fazermos entender (Atingiu-se o conceito, certo?). Depois, num confronto teoricamente complexo que é pensar-se que muitas das questões da ortografia não apresentam regras tão facilmente entendíveis e que inclusivamente algumas têm tantas exceções que mal conseguimos decidir. Igualmente a escolha desta forma pouco “ortodoxa” também pode ilustrar a minha ideia (profunda, Wagner) de que precisamos de escolher bem as prioridades da vida (E da Educação!), sob pena de nos perdermos do essencial. Ou não terão os Currículos de Língua Portuguesa uma carga ortográfica e gramatical tamanha que as crianças e os jovens se vão desinteressando da leitura e da escrita cada vez mais… Será que os professores de Música conseguem chamar (agora sim, corretamente) para si a responsabilidade de… chamar o que é realmente interessante? Mesmo que para isso tenham de “comprar” algumas guerras…

(https://www.youtube.com/watch?v=iojYDSjKK00)

Y

de yang e yin.

Somos todos feitos destas forças e das suas conjugações. Somos seres vivos e como tal diferentes e cheios de energias várias. Não sou adepto de nenhuma linha especial, religiosa ou espiritual. Sigo os meus instintos e capacidade de reflexão e ver o mundo, nos “xamamentos” de estar vivo. Procuro sentir o que está à minha volta como um rio sempre ativo, que corre da fonte à foz, que alimenta um leito estruturado nas suas margens. Valerão de muito pouco as teorias várias e específicas nos vários níveis laborais onde nos situamos se depois não nos entendermos como seres vivos ou se acharmos que isso é tão banal que nem vale a pena pensar-se. Eu penso. Desculpem. Antes de ser humano sou animal e antes de ser professor sou um ser humano. Antes de ser pai sou pessoa ou antes de ser marido sou homem… Será que os professores de Música conseguem entender o lado estético e individual d(est)a arte? Será que assumem na sua ação o lado energético do mundo e do Homem?

(https://www.youtube.com/watch?v=yEhsvrMpoRA)

Z

de Zeus.

Eis o grande deus dos deuses. Tal como nós. Somos os grandes deuses das nossas vidas, das nossas escolas e dos nossos alunos. O yang e o yin. Por isso, temos de nos fazer valer disso. Conto (mais) uma história: Estava o Raul Solnado a descer a rua 31 de janeiro no Porto, à noite, quando é abordado por um velho. “O senhor não é o Raul Solnado?”, pergunta-lhe admirado, de dedo apontado. “Não… não sou.”, terá dito o Raul, não querendo alimentar conversas com desconhecidos, uma vez que devia estar com pressa. Reação do tripeiro – “Oh, homem! É que é mesmo parecido! Aproveite-se disso! Aproveite-se disso!”. Aproveitemos a nossa condição! Ser professor já é uma autêntica maravilha. Ser professor de Música é ampliar todas essas possibilidades com a associação fantástica do som e das suas potencialidades. Por isso… aproveitem-se disso! Aproveitem-se disso!

(https://www.youtube.com/watch?v=kGvY4tqcgUQ)


LISTA DOS M(Z)EUS ACOMPANHANTES NESTA VIAGEM (em português):

  1. Carolina Deslandes
  2. Jorge Palma
  3. Chico Buarque
  4. José Afonso
  5. José Mário Branco
  6. Caetano Veloso
  7. Sérgio Godinho
  8. Elis Regina
  9. Dead Combo e Camané
  10. Maria Bethânia
  11. Os Azeitonas
  12. Pedro Osório
  13. António Variações
  1. Osvaldo Montenegro
  2. Trovante
  3. Chico Buarque
  4. Pedro Abrunhosa
  5. António Zambujo
  6. Pedro Branco
  7. Djavan
  8. Paulino Vieira
  9. Xutos e Pontapés
  10. Márcia e JPSimões
  11. Adriana Calcanhotto
  12. Fausto Bordalo Dias
  13. Manuel Freire

De A a Z para a Música na Educação... por João Frederico Ludovice

João Frederico Ludovice

João Frederico Ludovice

Produtor e Editor Multimédia. É um dos principais editores de música clássica nacional com cerca de duzentas e setenta edições de artistas e reportório português, para etiquetas como a EMI Classics, Virgin Classics, RCA Classics, BMG Classics, Philips Classics, Naxos, Dynamic e Resonare Records, sendo presentemente o produtor musical mais galardoado em Portugal com vários prémios da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI).

É atualmente consultor de marketing estratégico em projetos para a industria discográfica. Foi o responsável pelas edições fonográficas do Porto 2001, Expo 98 e Lisboa 94 Capital Europeia da Cultura. Foi consultor para assuntos culturais da Universidade de Évora e o consultor convidado pela organização da Festa da Música no CCB em Lisboa - La Folle Journèe. Foi programador na Antena 2 (RDP), na Rádio Geste e na Rádio Renascença Produtor da Orquestra Divino Sospiro. Exerce presentemente as funções de Administrador da plataforma digital PMH-Portuguese Musical Heritage.

Leciona a cadeira de Processamento de Sinal, de Síntese Sonora e Sampling e a de Criação Musical no curso de Produção Musical da ETIC/EPI. A sua formação musical foi realizada na Academia de Música de Santa Cecília, no Conservatório Nacional de Lisboa e no Instituto Gregoriano de Lisboa, MBA na Universidade Nova Lisboa/ ICHEC Bruxelas(Gestão de Projecto Digital Subject not thesis) e possui uma Post Graduação em Marketing na Universidade Católica de Lisboa.

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de Academia de Música de Santa Cecília.

Instituição onde dei os primeiros passos no estudo da música. Fui sempre bolseiro da instituição. Ensino de grande qualidade.

B

de Burmester.

Pedro Burmester pianista amigo com quem produzi diversos CDs e com quem obtive os meus primeiros prémios na qualidade de produtor discográfico.

C

de Christopher Bochmann.

O melhor professor de música que alguma vez tive.

D

de Divino Sospiro.

Quando cheguei ao CCB fui informado pelo meu antecessor, António Pinho Vargas, que tinha sido escolhido este agrupamento musical para orquestra barroca residente do CCB. No primeiro CD que produzi em conjunto, dedicado a Mozart, atingiu-se o primeiro lugar de lista vendas da Tower Records em Tóquio cidade onde o DS tinha estado a dar concertos no âmbito da Folle Journée. Seguiram-se (e seguem) muitos outros projetos comuns.

E

de EMI Classics.

A melhor etiqueta discográfica com quem trabalhei. Uma honra ter editado ali, como produtor, cerca de oitenta títulos. 90% de música e ou músicos nacionais.

F

de Ferreira.

1 -David Ferreira provavelmente o melhor administrador de uma etiqueta discográfica com quem trabalhei e 2 -Rui Ferreira o melhor diretor de marketing que já tive.

G

de Gilberta Paiva.

Pedagoga musical - Diretora da Academia de Santa Cecília e que, anos mais tarde, fez com que eu regressasse aos estudos musicais na sua classe do Conservatório após um "longo" intervalo de 7 anos. Foi através dela que acompanhei o percurso final dos estudos de António Rosado em Portugal e de quem me tornei admirador, amigo e produtor. Dessa amizade resultou a edição discográfica de vários discos com o António Rosado para a EMI Classics e para a RCA Classics. Ao entrar em estúdio com o este pianista relembro a preparação para o exame feita por Gilberta Paiva e da "passagem" do António para Aldo Ciccolini.

H

de Hora.

Joaquim Simões da Hora - O homem que me disse que eu deveria ser produtor discográfico e não músico. (Agradeçam-lhe ouvintes incautos! poupou-vos um grande dissabor).

I

de Instituto Gregoriano de Lisboa.

Possante, Helena Pires de Matos e Carmelo. Quem lá esteve sabe do que estou a falar. Um ensino de elevada qualidade.

J

de José Fortes.

Oitenta e cinco CDs gravados com o grande mestre da arte da captação sonora. 4 Discos platina, 16 de ouro e vários de prata, galardões da AFP que a ele os devo e ao mérito dos intérpretes.

K

de Ketil Are Haugsand.

O primeiro artista que editei internacionalmente. Considero-o como um Irmão. Obras de Carlos Seixas e a primeira crítica na Gramophone escrita por Stanley Sadie (editor do Grove dicionary of Music). Percebi que Joaquim Simões da Hora tinha razão ao dizer-me para me fixar neste trabalho. Foi o último projeto produzido com Joaquim.

L

de Leonhardt, Gustav.

O melhor sentido de humor musical.

M

de Mozart .

A Coluna de Harmonia da minha vida.

N

de Nicholas McNair.

Por brincadeira digo que Nic é a única relação (indirecta) que tenho com John Elliot Gardiner. Ambos (em pólos opostos de qualidade e conhecimentos musicais) consideramos o Nic como um raro tesouro das ciências musicais. Para as bestas mais renitentes e apenas para os simples, sugiro a leitura das notas do CD da ARCHIV da Flauta Mágica gravada por Gardiner. Se não atingirem a luz leiam as notas de programa CCB da Ópera Antígono de Mazzoni e percebam o papel que ele teve na produção.

O

de Oliveira Lopes, José.

Barítono. Conheci-o pessoalmente e foi visita regular minha casa nos últimos dez anos de carreira como intérprete. Ao ouvir as suas gravações mais antigas percebi o quão injusto é Portugal em não promover os seus melhores. Idem para Helena Sá e Costa. Ser-se professor de música em Portugal é abdicar de uma carreira.

P

de Polygram.

Quando deixei a Antena 2 fui convidado para trabalhar para a Deutsche Grammophon. Aceitei mas, quando me sentei a trabalhar como label manager disseram-me que teria de passar primeiro pelo pop rock. Editei/ promovi bandas como os Cure, ABBA BeeGees e muitas outras. Foi uma grande aprendizagem em marketing musical.

Q

de Quaerendo Invenietis.

Mateus 7:7, Lucas 11:9 Ao leitor da APEM que aqui chegou a esta letra (agradeço) pergunta-se, de que compositor falo eu?

R

de Rostropovich.

Mistislav Rostropovich - Um dia recebo uma chamada da EMI Classics, UK dizendo que aquele artista tinha mostrado interesse em conhecer-me. Na verdade Portugal tinha sido o único território europeu que tinha acreditado suficientemente na edição das Suites (Bach) para fazer publicidade de televisão. Queria agradecer-me. Não podia perder a oportunidade de, nesse encontro, lhe pedir para autorizar a edição do Concerto de Lopes Graça a ele dedicado. Romeu Pinto da Silva disse-me que a gravação feita com a Orquestra Gulbenkian no Festival de Sintra não estaria nas melhores condições. Mesmo assim fui com Romeu e com o António Toscano (Antena 2) almoçar com Rostropovich. Fiz o pedido a medo e recebi a seguinte resposta: Essa gravação pode não estar bem, como diz o seu amigo, mas eu gravei Lopes Graça (o dito concerto) com a Filarmónica da Rádio Moscovo dirigida por Kirill Kondrashin e se achar bem, posso enviar para sua aprovação. Declinei a "minha aprovação" pelas razões óbvias e hoje esta obra encontra-se editada na caixa de Cds da EMI Classics de Rostropovich.

S

de Sibertin.

Antoine Sibertin-Blanc - "Mais Si mais concetéze" Um grande Senhor Professor e a quem Portugal deve uma inteira geração de Organistas. Um refinado sentido de humor e um português escrito de fazer vergonha a escritores lusos. Gravei vários CDs com o artista.

T

de dois Tozés.

1 - Tozé Carrilho, um globetrotter da flauta de bisel que tarda a ser reconhecido em Portugal fora dos meios musicais. 2 -Tozé Brito que juntamente com David Ferreira é a pessoa que mais aprecio no mundo da edição discográfica.

U

de Uqbar.

País onde conheci Jorge Luís Borges e que pretendo revisitar em breve a menos que seja tudo uma Ficção.

V

de Viana César.

Poli instrumentista. Produzi mais de 8 Cds com o César. Dou aqui um testemunho em primeira mão. RCA Classics- Gravação em Berlim com a RIAS Big Band e reportório de G. Gershwin. O César Viana chega à noite ao hotel em Berlim e descobre que as partituras alugadas em Lisboa para a gravação não correspondem às versões e partes encomendadas. Agarra em papel de música e reescreve os arranjos todos. No dia seguinte na RIAS ninguém deu pela diferença. Mais tarde, noutro projecto (Sousa Carvalho/ Ketil Haugsand) descobre-se que a abertura deveria também ter tido cravo. Não há a possibilidade de regravar a orquestra. César Viana sentou-se ao Cravo que lá tinha em casa e (em multitrack) gravei-o num só take e hoje o CD menciona um cravista, Aires Nunes, que são os apelidos do Professor César Viana. Meteu-se agora a tocar Sakuachi e “não há quem o ature”. Disse-lhe recentemente para esquecer o Taiko já que tem vizinhos. Receberei por isso, estou certo, a chave da cidade de Madrid diretamente das mãos do Alcalde. "El Sakuachi i lo suportamos bien, pero èl tambor Japonés..."

W

de Wallenstein, Pedro.

Creio que não é exagerado dizer-se que contrabaixos não há argumentos. Mais não digo.

X

de Crossfade (Xfade).

uma técnica de edição musical (áudio) que resolve muitos problemas a artistas problemáticos.

Y

de Yvette Centeno.

Como sabemos é uma Magister Ludi de Castália que se apaixonou por Portugal. Actualmente dirige o Jogo das Contas de Vidro.

Z

de Zemlinsky.

Maria Fernanda Cidrais telefona-me, da Fundação Gulbenkian para a Polygram, a perguntar se tenho um CD com obras de Zemlinsky. Digo que sim, que o envio de seguida. Para escrever as notas de programa ela gostaria de conhecer a obra em causa. Lembrei-me de Francine Benoit e do meu pai que insistiam em conhecer o assunto musical sobre o qual iam escrever. Um exemplo.

De A a Z para a Música na Educação... por Edward d’Abreu

Edward d’Abreu

Edward Luiz Ayres d’Abreu

Compositor, musicólogo, editor e programador cultural, nasceu em Durban, África do Sul, em 1989.

Iniciou os estudos de música em Portugal aos cinco anos de idade. Estudou no Conservatório Nacional com Ana Sousa Lima e Rui Pinheiro (Piano), Eli Camargo Júnior e Daniel Schvetz (Composição). Frequentou os cursos de Arquitetura e de História da Arte e concluiu a Licenciatura em Composição com a mais alta classificação no exame final na Escola Superior de Música de Lisboa, onde estudou com Sérgio Azevedo e António Pinho Vargas. Em programa Erasmus frequentou o Conservatório Nacional Superior de Música e Dança de Paris, tendo trabalhado com Gérard Pesson (Composição), Yan Maresz, Yann Geslin e Luis Naón (Música electrónica), Alain Mabit e Claude Ledoux (Análise). Em masterclasses ou em encontros académicos contactou com Emmanuel Nunes, João Pedro Oliveira e Marc-André Dalbavie, entre outros. Frequentou um Curso de Verão no Conservatório de Moscovo, onde trabalhou com o compositor Faradzh Karaev, e um Curso de Gamelão de Java no Museu Oriente, em Lisboa.

As suas obras foram já interpretadas pela Orquestra Gulbenkian (Inscriptions (X), sob a direção de Luca Francesconi), Orquestra Metropolitana de Lisboa (Sinfonietta per orchestra classica, sob a direcção de Michael Zilm — Encomenda OML, para o 23.º aniversário da orquestra) e Grupo de Música Contemporânea de Lisboa (Parque de estrelas, vento e memórias, sob a direção de Pedro Neves). Recebeu encomendas da Orquestra Metropolitana de Lisboa, Rádio e Televisão de Portugal, Quarteto de Guitarras de Paris e Síntese — Grupo de Música Contemporânea. O seu poema sinfónico Pálido pálio lunar… foi estreado em 2017 pela Banda Sinfónica Portuguesa, sob a direção de Luís Carvalho, e distinguido com uma Menção Honrosa no V Concurso Nacional de Composição. Foi um dos vencedores do Concurso para Compositores Emergentes no âmbito do Festival CRIASONS, preparando neste momento a composição de uma nova obra a estrear em 2019.

Escreveu três óperas, a última delas, Manucure, estreada em 2012 no Teatro Nacional de São Carlos sob a direção de João Paulo Santos e a encenação de Luís Miguel Cintra. Em 2016 participou, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, num workshop de criação operática orientado por Willem Bruls na Académie du Festival d’Aix-en-Provence, evento promovido pela ENOA, European Network of Opera Academies. Concebeu os libretti de duas óperas com música de Daniel Moreira: Cai uma rosa… — estreada nos Teatros Municipais do Porto e de Almada em 2015 — e Ninguém & Todo-o-Mundo — com estreia prevista em 2018. É mestre em Ciências Musicais — Musicologia Histórica pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tendo defendido a dissertação “Ruy Coelho (1889-1986): o compositor da geração d’Orpheu” sob orientação de Paulo Ferreira de Castro. É membro do CESEM, Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical. O seu trabalho “‘…le Désir est tout…’ – Obras vocais de câmara de Ruy Coelho à luz do simbolismo fin-de-siècle” foi distinguido com o 2.º Prémio do Concurso Otto Mayer-Serra 2017 da Universidade da Califórnia. Actualmente é doutorando em Ciências Musicais, tendo sido neste contexto bolseiro da FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

Concebeu e dirigiu artisticamente diversos projetos musicais e multidisciplinares, destacando-se os festivais Viagens pelo som e pela imagem, apresentados anualmente na Fonoteca Municipal de Lisboa entre 2008 e 2011. É membro fundador e Presidente da Direção do MPMP, Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, associação criada em 2009, no âmbito da qual tem concebido e coordenado diversos projetos editoriais e de programação musical, alguns deles distinguidos no contexto de apoios pontuais e bienais do Ministério da Cultura / DgArtes. Dirigiu as digressões do MPMP ao Brasil em 2014 e 2016, e o projeto operático O cavaleiro das mãos irresistíveis, resultado do cruzamento de investigação musicológica com criação contemporânea, apresentado pelo Ensemble MPMP, com encenação de António Durães e direcção musical de Jan Wierzba, no Teatro Municipal do Porto e no Teatro Municipal de Almada em 2015. No âmbito do MPMP foi ainda diretor-geral da revista Glosas, dedicada à divulgação da música de tradição erudita ocidental nos países de língua portuguesa, desde a sua fundação até ao seu 15.º número, publicado em 2016.

Como orador tem colaborado, em aulas, cursos ou concertos comentados, com a Fundação Calouste Gulbenkian, Teatro Nacional de São Carlos e Instituto de Filosofia Luso-Brasileira. É Sócio Correspondente do Instituto Histórico da Ilha Terceira.

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de Amanhã. Música para construir futuro.

B

de Brincar. Se demasiado séria, a música perde som.

C

de Curiosidade. Compor. Criar. Sem invenção tornamo-nos autómatos.

D

de Desafio. Se demasiado fácil, a música perde longitude.

E

de Egos: há que escrutiná-los, não vá a nossa arte redundar em aparência.

F

de Fundamento, fundação. Música para cimentar desde cedo a nossa personalidade cívica.

G

de Gil Vicente. Música-teatro. Faz-nos falta, com aquela perspicácia e jovialidade.

H

de Hoje. Música para servir a contemporaneidade. Não vamos tocar para sarcófagos, não é verdade?

I

de Interdisciplinaridade. Não existe música absoluta. Não há música que não contenha nela tudo quanto a rodeie. Isto assumido, desenvolvamo-lo sem pudor.

J

de Jaques-Dalcroze. Missão sempre por continuar e aprofundar.

K

de Kawai. Memórias tragicómicas de quando era aluno de piano do Conservatório…

L

de Lusofonia. Escutemo-nos, ainda por cima porque é tão fácil comunicar na mesma língua… Camargo Guarnieri, Guerra-Peixe, Almeida Prado: ouvimo-los?

M

de Magia. Propriedade imprescindível do facto musical: procuremo-la quotidianamente.

N

de (al) niente. É uma expressão musical fascinante. Quando Ivo Salvini, em La voce della luna de Fellini, contempla maravilhado uma fogueira, pergunta-se para onde irão as faíscas quando se extinguem, para logo concluir que são como música: ninguém sabe para onde vai quando termina... Gostaria que pensássemos mais nesta imagem ao saborear o facto musical, que nos contivéssemos antes e depois da execução de uma obra… e sobretudo que se saboreasse o aparente vazio como corpo sonoro, as pausas entre andamentos, as respirações subtis, em vez do corriqueiro aproveitamento desses segundos para tossir, folhear partituras, esboçar sapateados, verificar relógios ou desembrulhar rebuçados..

O

de Orquestrar. Exercício maravilhoso! Será a orquestra o mais belo dos instrumentos? De uma forma ou de outra, devíamos todos, nalgum momento da vida, passar pelo desafio intelectual de colorir orquestralmente alguma ideia musical.

P

de Paz. Não necessariamente o desarmamento do mundo, mas a substituição das armas tradicionais por instrumentos de música. Que tal?

Q

de Qualidade. Aquilo que caracteriza uma coisa. Caracterizar. Dotar, atribuir significação. Pôr sobre cada gesto sonoro uma alma inteira.

R

de Ruy Coelho. Compositor a quem dediquei o mestrado e, parcialmente, o doutoramento. Exemplo da imensidão de património por inventariar, catalogar, interpretar, gravar, conhecer de facto, sob pena de continuarmos ausentes de nós próprios. Não há como valorizar a prática musical em Portugal se tão flagrantemente se desprezam os músicos das gerações anteriores à nossa, se tão enraizadamente se institui e confirma a ideia de que vivemos exclusivamente em torno dos cânones propagados a partir de dois ou três centros culturais hegemonicamente centro-europeus..

S

de Silêncio. De novo La voce della luna de Fellini: se todos fizéssemos um pouco de silêncio, talvez alguma coisa pudéssemos compreender...

T

de Tomás Borba. De novo um nome por conhecer, este fundamental para a história da educação musical em Portugal, autor de uma obra muito para aplaudir e para desenvolver. Como Jaques-Dalcroze!

U

de Universal: porque a música o não é. Nem todas as culturas entendem por “música” a mesma coisa, nem todos gostam de música. Uma sinfonia de Mahler, um assobio, o trovejar tem para cada pessoa, colectividade, sociedade, diferentes significações. Desfeito o mito romântico, é claro que a música pode ser, como qualquer sistema comunicativo, um veículo expressivo da maior importância. Mais: passado e presente trazem consigo um património que, acarinhado, não pode senão contribuir para uma humanidade fortalecida.

V

de Verdade: outro delírio. Há verdade em música? Em termos absolutos dispenso a reflexão. Mas em termos simbólicos não seria má ideia incentivar o aluno a ouvir mais atentamente aquilo que ele poderá ter para contar, incentivá-lo a improvisar, a tanger por si e para si. Ensiná-lo a interpretar uma obra segundo preceitos “historicamente informados”, mas fomentar também a desconstrução crítica desses preceitos e a criação de novas alternativas. Não havendo verdade, haverá pelo menos um conhecimento mais profundo de si próprio e do que pode ser, afinal, a própria música como arte.

W

de Wagner, Virgínia Wagner. Conhecem? Eu também não, mas aparece algures referenciada num dicionário de compositoras, e é portuguesa. Compôs música interessante? É possível. E que outras compositoras conhecemos? É tempo de questionar os cânones também no que tange à prevalência historicamente ostensiva do sexo masculino…

X

de Xérox. Ou, como corrente em Portugal, fotocópia. Um drama que frustra enormemente qualquer tentativa de edição musical física ou digital nos nossos dias. Não importa muito a criação de leis: educar em música deveria privilegiar esta consciencialização como missão cívica quotidiana.

Y

de Youtube. Instrumento de grande utilidade. Meio e não fim. Se assim fosse aproveitado…

Z

de Zelo. Empenho solícito em procurar o bem próprio ou alheio. Palavra-síntese de quanto escrevi aqui.

De A a Z para a Música na Educação... por Paulo Lameiro

Paulo Lameiro

Paulo Lameiro

Musicólogo, pedagogo, comunicador e criativo português natural de Leiria. Depois de uma breve carreira como Barítono, tendo cantado a solo e integrado o Coro do Teatro Nacional de São Carlos em Lisboa, dedicou-se ao ensino e assumiu a direcção de várias escolas de música, nomeadamente o Conservatório Nacional de Lisboa, o Orfeão de Leiria e a Escola de Artes SAMP em Pousos.

É especialmente a partir desta sua aldeia natal que desenvolve, desde 1992, projectos de educação e produção artística para a primeira infância, de que se destacam Berço das Artes, Músicos de Fraldas, Concertos para Bebés e Pinhal das Artes. Tem vindo a interessar-se mais recentemente pelas práticas artísticas com a comunidade, de que sobressaem projectos como Ópera na Prisão, com reclusos, Novas Primaveras para pessoas idosas, Il Trovatore ou os Roma do Lis com comunidades de etnia cigana.

Foi membro fundador, e integrou o primeiro Conselho Científico, do Instituto de Etnomusicologia da Universidade Nova de Lisboa – FCSH, tendo publicado como etnomusicólogo em várias revistas da especialidade. Integrou ainda a Comissão de Liturgia e Música Sacra da Diocese de Leiria-Fátima, e foi o fundador e maestro titular durante 12 anos da Schola Cantorum Pastorinhos de Fátima.

É pai do Simão e da Natércia, e tem como passatempo a criação de carpas KOI para quem gosta de olhar demoradamente.

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de Nunca esquecer o essencial. Os primeiros encontros que proporcionamos entre a Música e os alunos devem ser primariamente de fruição, prazer e descoberta e não de ensino. Musicalmente, porque muito antes de organizarmos os sons, foram eles que nos organizaram. Acreditamos?

https://www.musicalmente.pt

B

de Começar sempre por ouvir e conhecer os universos e preferências musicais dos nossos alunos. Alunos e todos os outros. Tantas vezes, fascinados que estamos com a música e os processos que nos extasiam, fazemos carreiras solitárias no palco e na sala de aula. Quase sempre, ouvi-los, ouvir com os outros, Basta.

C

de ter a Voz sempre à mão. Na falta de ideias, materiais, método e sistema, plano, convicções e disposição, instrumentos afinados, sistemas de som disponíveis, do jardim de infância à universidade, em qualquer sala, recreio ou praça, façamos um coro. Cantemos.

D

de Cuidar os nossos pares, e antes de pensar em estar com os nossos alunos, estar com os nossos colegas. É na sala de professores da escola que começam as nossas aulas e a aventura maior de levar a música a toda a comunidade. Não se pense que nas escolas de música já estamos todos convertidos e é só nas salas com professores de Português e Matemática que tem lugar o Desafio.

E

de Pensar o som dos espaços de educação que habitamos. O fascínio dos nossos encontros com o som organizado por mestres é tantas vezes abalroado pelos cenários acústicos de refeitórios, corredores, pátios, jardins e bares escolares. Nem a mais perfeita sala de aula o consegue fazer esquecer. Importa-nos, pois, sem medo da palavra e dos actos que na escola ela nos implica, Educar para a qualidade de todos os sons.

F

de Investir nos equipamentos e recursos que usamos, em especial a qualidade dos ficheiros sonoros e dos sistemas de leitura e reprodução. Coisas simples, como não dar a ouvir as sinfonias de Mahler em colunas de computador compradas numa loja de conveniência. A qualidade das experiencias de fruição musical que oferecemos é em pequenos gestos e cuidados Fomentada.

G

de Evocar com os nossos alunos os professores que nos abriram caminhos inesperados e fecundos. Aqueles de quem ganhámos novos ouvidos, de quem recebemos a coragem para arriscar mudar de instrumento, mudar de gira-discos, e mudar de vida. Na minha lista estão Jorge Peixinho, Constança Capdeville, José Oliveira Lopes, João de Freitas Branco, Rui Vieira Nery, Salwa Castelo-Branco, ... Gratidão.

H

de Prever tempos e lugares. A música pode ser feita e partilhada em todos os cenários, territórios e estações do ano. Mas, como as frutas e os legumes, ela sabe-nos muito mais autêntica e intensamente se cuidarmos o onde e o quando. O mesmo vinho pode saber-nos ao melhor dos néctares ou ao fel em função do que antes comemos. Pois, devemos servir a música como se de um vinho (ou um chá) se tratasse, e cuidar o programa e os conteúdos como uma autêntica Horta.

I

de Fazer sempre música, nunca ter medo de tocar e cantar para os nossos alunos e professores. Os professores, antes de professores percecionam-se como pessoas que fazem e gostam de música. Na sala de aula os alunos não se transformam por ouvir professores virtuosos com ou sem carreira, envolvem-se sim ao ouvir e ver professores apaixonados e embrulhados nas práticas musicais. E acima de tudo, não a reproduzir, mas sim a Improvisar.

J

de nos Despirmos das fronteiras históricas. Às vezes, sem o saber, levantamos muros ao sucesso pelo uso dos rótulos velhos do clássico ao jazz, do tradicional ao pop, do world ao indie ou ao pimba. Apresentar a música com estas fronteiras, só por si, pode ser o suficiente para criar barreiras em muitas comunidades escolares, cada vez mais “multi”. Importa deixar exprimir e tocar livremente os nossos alunos, não na última aula do ano, sempre e !

K

de Intimidade, porque sempre me fascinei muito mais pelas experiências interiores, pelos longos tempos de reverberação dos espaços, que assim nos deixam ouvir o passado agora, pelas tubarias dos órgãos que trepam paredes de pedra e se elevam a dezenas de metros de altura, como na preciosa catedral de Colónia. Mas nesse mesmo burgo, quando à intimidade mais cúmplice se juntou a genialidade e a energia criadora, ouvimos vezes sem fim o Keith Jarrett no seu Köln Concert.

L

de Voltar às origens. São 11 as filarmónicas no meu concelho natal, e estamos ainda muito longe de conhecer o lugar destas formações nas suas mais diversas faces na educação, impacto social e cultura das comunidades que habitam. Entre pisar o palco de São Carlos em noites memoráveis ao lado de artistas como Fiorenza Cossotto e Plácido Domingo, e fazer um peditório no alto da serra de Aire e Candeeiros a tocar umas marchas atrás de um andor, eu nunca consegui saber muito bem onde era maior o prazer. Sendo que nem a cantar nem a tocar fliscorne eu tinha os predicados mínimos. Voltei a Leiria.

M

de Começar sempre pelos compositores e pelas obras que mais amamos e nunca pelos que constam do programa. É a nossa excitação que apaixona e não o nosso saber. No meu cardápio estão sempre Berio, Mahler, Schubert, Bach, Naragónia, Amália e Monteverdi.

N

da melhor música de Dança para se ouvir. Levado pelo folk e pelas danças do mundo conheci o Toon e a Pascale, no mesmo local onde ambos também se conheceram, no Andanças de Carvalhais. Ao mesmo tempo que se me abriu todo um universo de novos olhares sobre música e dança historicamente informadas, dancei e ouvi Alio, uma mazurka que passei só a ouvir. Este duo não tem nada de especial, a não ser que me transporta para mais perto de mim. Chama-se Naragónia.

O

de ter sempre presente o Lugar de cada coisa. Importa que o professor de instrumento saiba que muito mais importante que o violino ou o piano é a Música. E depois, não esquecer, maior do que a Música é a Arte, toda a Arte. E ainda assim, se ficarmos só pela Arte, esquecemos o mais importante, a pessoa, aquela pessoa de qualquer idade que se nos entrega entre 4 paredes. Quando falhamos, quase sempre, é porque cuidamos tudo menos a pessoa. Importa saber das coisas o seu lugar e Ordem.

P

de saber que começamos a Ser mesmo antes da conceção. Começamos por ser o sonho dos nossos progenitores, as suas vidas, o que eles ouvem e os emociona, até que deles também recebemos um corpo que vibra e se encontra pelas vibrações. Em bebés não precisamos de aulas de música, de oficinas criativas e muito menos de concertos para bebés, mas é bom que se saiba que já somos. E na verdade, o que importa mesmo é o que fazem e cantam para nós e connosco todos os que nos rodeiam, em especial os nossos Pais.

Q

de Esquecer de vez as idades e os estatutos de cada um de nós. Não podemos ter uma escola de alunos, professores e encarregados de educação. Os pais dos nossos alunos não podem ser convocados e recebidos como encarregados de educação. São pessoas, uma a uma, são professores e alunos como nós, com um desejo mais ou menos secreto, mais ou menos intenso de também tocar saxofone como a filha ou cantar como o vizinho. Uma escola que não está e se integra na comunidade. Uma escola que é a comunidade. Para Quando?

R

de dar Testemunho dos nossos primeiros mestres. Todos guardamos na memória aquele professor que radicalmente nos abriu um outro universo da música, e o brilho nos olhos que não conseguimos evitar ao partilhar esse primeiro encontro contagia quem nos rodeia com um poder muito superior à melhor das nossas aulas. Obrigado Raquel Simões.

S

de Resistir ao uso da música na sua condição de ferramenta auxiliar. Ora seja para animar festas e eventos, ou porque música e matemática é tão cool, para ajudar nas línguas estrangeiras é um must, e para disciplinar “rebeldes e hiperativos” é do melhor. Sim, tudo se pode fazer, mas sem retirar o tempo e o investimento ao essencial e mais importante, a Arte e a Música interessam-nos e valem por Si.

T

de um Poder extraordinário que a Música também tem e é, porque na verdade, valendo por si, contém na sua génese uma relação com a saúde e o bem-estar, estrutura e fortalece relações pessoais e sociais, oferece um forte impacto no que somos nas nossas dimensões física, psíquica, emocional, social e espiritual. Sim musicoterapia. Sim música nos hospitais, nas prisões, e em todo o lugar onde possa fazer falta a alguém. Música é também isto Tudo.

https://www.reuters.com/article/us-portugal-crime-opera/young-portuguese-inmates-sing-mozart-opera-on-way-to-freedom-idUSKBN1K31G2

U

de construir e viver um lema claro e mobilizador em toda a comunidade escolar. Mais importante que colocar músicos em palco, é colocar a música na vida das pessoas e das comunidades. Foi por aqui que começámos a aventura de um projecto chamado Escola de Artes SAMP, na pequena aldeia dos Pousos, junto ao Lis. Sonhar novos caminhos e energizar as nossas escolas é Urgente.

https://arestlessart.com/2015/10/26/against-the-odds/

V

de Comunidade, que não pode ser somente quem acolhe a escola, quem a integra e recebe. As práticas musicais que fazemos não devem impor-se como distintas e exclusivas de uma casta eleita, devem nascer e contruir-se com as pessoas das ruas, das aldeias, vilas e cidades que as receberam, também dos seus gostos e necessidades. Dialogar com os territórios familiares e sociais é a chave para o sucesso mais amplo de uma escola, também de música. Só quando o conseguimos podemos cantar Vitória.

W

de nos Interrogarmos sobre alguma solidão que resulta de não querer ou conseguir olhar para o lado. A música nunca foi só música. Só existe pela vibração, no movimento e no espaço, na dança e na arquitetura, no teatro, na poesia, no cinema.... Deixemo-nos abraçar por outras linguagens artísticas, sem ter necessariamente o desejo de uma obra de arte total, como sonhava o Wagner.

X

de ter a Consciência que são muito mais as dúvidas que as certezas, e que é por elas que mais avançamos. Não hesitar em partilhar essas dúvidas com os alunos e os nossos pares, com os pais e com a comunidade. A neurociência, em especial a neurobiologia, os novos rumos políticos da Europa e do mundo, a curva descendente no investimento em Cultura que teima em manter-se por todo o mundo ocidental, colocam-nos a cada dia novos desafios sobre o lugar da Música nas nossas vidas. Mas, como na matemática, é só uma variável o X.

Y

de não fazer ou pensar rigorosamente nada (para dar um pouco mais de espaço e tempo ao Z, que precisa). Yeah!!!

Z

de AQUI CONTIGO. Foi pela mão de uma filarmónica que me descobri, que me encontrei na música e na minha vida. Fui criança com adultos e idosos, fui aprendiz com mestres, toquei hinos e rapzódias, aberturas e concertos, em carreiros, palcos e adros. Aprendi a respeitar o tempo, não o da partitura, o da vida. E por ela, pela filarmónica, apesar de me ter fascinado em tempos pelos bebés, e pela origem e descoberta do que somos, hoje é o momento final da vida que me fascina. Momento esse para quem tem 8 horas de vida, 800 gramas de peso, toda a tecnologia e entes queridos ao seu redor, ou para quem tem 80 anos e ninguém a seu lado. A Música se não o é, será geminada com a última fronteira, e por isso temos experimentado na SAMP encontros pela e na música que não sei descrever, desculpem-me. Chama-se Aqui Contigo este programa, e é só um dos muitos portos nesta viagem que se inicia com a gravidez, no Primeiro Auditório. A música, esta companheira de A a Z.

https://arestlessart.com/2017/04/19/speaking-of-unspoken-things/

De A a Z para a Música na Educação... por Margarida Fonseca Santos

Margarida Fonseca Santos

Margarida Fonseca Santos (n. 1960, Lisboa)

Foi professora de Pedagogia e Formação Musical em várias escolas, nomeadamente na Escola Superior de Música de Lisboa. Estudou Escrita Criativa, Escrita para Teatro, Guionismo e Curta-Metragem.Tem mais de 100 livros publicados, sendo a maioria na área infantojuvenil, estando mais de metade incluídos no PNL. Publicou dois livros de canções para os mais novos. Dinamiza oficinas de escrita para professores, alunos e adultos. Alguns dos seus romances são De Nome, Esperança (2011) e De Zero a Dez (2014). Publicou, em 2015, o livro AltaMente – treino mental e uso pedagógico da metáfora. A coleção «A Escolha é Minha» (da 20|20) é o seu projeto mais recente, e que corresponde a uma atitude perante o dia-a-dia: podemos não controlar o que nos acontece na vida, mas podemos sempre decidir como vamos reagir a partir daí. É responsável pelo projeto Histórias em 77 palavras, recomendado pelo Plano Nacional de Leitura 2027, tendo publicado o livro Desafios em 77 Palavras.

www.margaridafs.net
margaridafs7@gmail.com
www.77palavras.blogspot.pt
https://www.linkedin.com/in/margaridafonsecasantos/

Fiz a insana proposta à Manuela Encarnação de escrever todas as entradas em 77 palavras. Aceitou! Porquê 77? Porque sim, porque é para mim um projeto que me define, «histórias em 77 palavras», e porque é uma fonte extraordinária de descoberta, de inovação, de redefinição de limites, de amizade, criatividade, e sem ela não sobrevivo. Deu jeito? Nem por isso, mas o prometido é devido e os textos ficam maneirinhos. Como esta introdução, tem exatamente 77 palavras…

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de aprender enquanto se ensina

Não consigo conceber o ensino sem aprendizagem. Insisto sempre nisto por acreditar que é verdade, mas também por que me aborreceria de morte de outro modo. E guardo alguns momentos incríveis, como na Academia de Amadores de Música, com José Salgueiro, João Lucas, Paulo Amorim, tantos outros, que me ensinaram muito mais do que imaginam. Harmonias jamais ouvidas, repertório desconhecido. Só preparados para aprender com os alunos progrediremos enquanto pedagogos, tanto na música como em qualquer área.

B

de Baganha (ou seja, Batota)

Baganha, uma personagem de «O Segredo da Floresta», o meu segundo livro de canções. O primeiro cresceu nas aulas, compondo-as para as crianças. No «Histórias de Cantar» está «O amigo». Escrevi-a e não sabia se estaria boa ou lamechas. Pedi ajuda aos miúdos. Disseram-me que tocasse e cantasse, que repetisse, repetisse mais uma vez. À quarta, cantaram com uma afinação emotiva. Por fim, disseram: «Está linda!». Chorei. Continua a ser uma das mais queridas, incrível, não é?

C

de Constança Capdeville

Tive a sorte de fazer a disciplina de Contraponto com Constança Capdeville. Junto de outros apontamentos da passagem pelo Conservatório Nacional, guardo estes com muito carinho. Às vezes, ia ter com a Constança a outros sítios para ter aula. Ensinava-me tanto! Fiquei a adorar contraponto. Escrevia B ou MB nos exercícios bem feitos, pura magia. O cuidado de elogiar uma tarefa bem feita, e isto continua a ser tão raro. Podemos não esquecer isto, sobretudo na música?

D

de descoberta

Descobrir a música e crescer assim na aprendizagem é, do meu ponto de vista, o principal caminho do ensino. Há pouco li que o ensino correto (noutras áreas) se faz no pré-escolar, porque se ensina a descobrir, a experimentar, a pôr as mãos na massa para moldar o conhecimento. Vamos ficando preocupados com matérias, notação, teoria, etc., afastamo-nos da descoberta. Ser professor de iniciação musical é dificílimo, mas não devíamos estar sempre a fazê-lo? Dá que pensar…

E

de Elisa Lamas

O meu conhecimento harmónico e da formação musical mudou quando conheci Elisa Lamas. O primeiro período de aulas foi alucinante, não escrevemos nada. Ouvíamos, repetíamos, entendíamos, cantávamos, e, por fim, chegávamos ao conhecimento. Uma Educadora com E maiúsculo, uma alfabetizadora da música. Aprendi com Elisa Lamas como arar o campo antes de semear, arrisco quase dizer que as minhas dúvidas sobre o que queria ser profissionalmente se dissiparam quando a conheci. Aprendi a trabalhar ouvidos menos dotados.

F

de Francisco Cardoso

E quando os alunos nos lançam na descoberta de outras formas de pensar a música? Conhecer o Francisco foi espantoso. Ganhei muito como amiga, mais ainda quando levávamos miúdos incrédulos a construir, numa semana, o enredo, as letras das canções e os temas musicais de um espetáculo levado à cena à sexta-feira, onde tocavam, cantavam e representavam. Tinham 8 a 12 anos, empenhavam-se tanto. Quando acabava o espetáculo, gritavam de alegria – conseguimos! Criar = forma ideal de aprender.

G

de Gregoriano, Instituto Gregoriano de Lisboa

O Instituto Gregoriano de Lisboa foi a escola onde mais gostei de ensinar. Entrei pela mão da tão impressionante Helena Pires de Matos. Talvez nunca devesse ter deixado esta escola. Tinha, continuo a ter, um grande orgulho no trabalho aqui feito, pois os alunos vindos do IGL entram sempre sólidos na ESML. E continua sempre, começando cada vez mais cedo, num valioso trabalho em articulação com escolas básicas. Foi este o legado de Helena Pires de Matos.

H

de harmonia

A educação harmónica, no ensino da música, desde os primeiros passos, é, para mim, fundamental. Aprender a descobrir a harmonia, escolhendo por tentativa erro os caminhos harmónicos para, por exemplo, harmonizar uma canção, não serve apenas para estruturar a compreensão tonal, mas também a afinação, a intenção do movimento melódico, a possibilidade de, ao cantar a vozes, sentir a harmonia na coerência de cada voz. A harmonia, da iniciação à mestria, é intuitiva e estruturante. Apostemos nela.

I

de interior, da audição interior que nos acompanha sempre

A audição interior é a maravilha da educação musical. Neste meu mundo partilhado com a escrita e o treino da mente, comecei a cruzar conhecimentos e, como não podia deixar de ser, a audição interior foi o ponto forte. Na dificuldade da aprendizagem da leitura (de texto), construir uma boa «base de dados» sonora interior é fundamental para avançar. Os maus leitores, soletram, não entendem palavras e frases por isso. Quando descobrem a audição interior, tudo muda!

J

de Jorge Moyano

Fui aluna de piano de Jorge Moyano. Com tudo o que fui dizendo até aqui nas outras entradas, encaixa-se o que foi começar a ter estas aulas, começar a entender a música. A análise do que tocava estava sempre presente, pois chegar à reexposição numa sonata é isso mesmo, reexpor, toca-se com essa intenção, assim como um desenvolvimento nos revela outros cruzamentos. A possibilidade de juntar análise com interpretação transformou-me e transformou a minha visão da música.

K

de knocked out

Foi isto que aconteceu e tocou-me profundamente. Tinha escolhido uma determinada obra para os tão afamados (e odiados!) ditados com buracos, ou seja, por partes para preencher. Piano e clarinete, salvo erro. Tinha chamado a atenção para a estrutura, que iria ajudar os alunos a encontrar soluções. De repente, um aluno disse-me: Desculpe, Margarida, mas eu não quero escrever nada, quero ouvir, é tão bonito. E eu pensei: estás cheio de razão, vamos ouvir. E assim fizemos.

L

de leitura versus ditado

Depois de dizer mal do ditado, explico-me. Em que situação, na vida de qualquer músico, se é posto perante uma partitura com espaços em branco, ou uma pauta para escrever uma sequência de sons (nos ouvidos absolutos, de intervalos para os outros), se teve apenas 6 vezes para isto ou aquilo? Ser músico é tocar, primeiro que tudo, e, querendo tocar obras de outros, é ler, interpretar. Tirar de ouvido é tão mais interessante… ao nosso ritmo.

M

de memória

Quem estuda piano sabe – tem de se decorar o que tocamos a solo. E, afinal, alguém ensina a memorizar? Alguém explica que há diferentes memórias, como se pode treinar a memória de forma contínua e consistente, como a memória se adapta ao que dela queremos? Ora aí está um hábito que podia deixar de tirar sono a tantos. A memória ensina-se e treina-se, desenvolve-se, acontece mais depressa espontaneamente do que se formos obrigados a memorizar. Pensemos nisto.

N

de notação

Como pode ainda «aprender música é aprender notação» assombrar as aulas de Pedagogia? Deixem-me contar-vos a confirmação em EB1 de Algés, Pedreira dos Húngaros, no MUS-E. Cantávamos, sabíamos harmonizar de ouvido, sabíamos funções tonais, brincávamos com sensíveis, compúnhamos, mas um dia a professora disse que tinha pena, os alunos não sabiam ler. Arrisquei ― pus linhas e leram, dividi tempos binários e ternários e leram, riram-se por ser simples. Ela só dizia: mas como?! Porque sabem música, respondi.

O

de oportunidades

Acredito nisto como, salvo seja, numa religião: a capacidade de adaptar a aula aos grupos que estão connosco, seguindo o curso daquilo que surge, mesmo fugindo do nosso plano de ação. Tantas vezes a pressa de avançar nos tolda o discernimento. Alguém falou numa canção que parece ter um detalhe interessante? Paremos, falemos sobre ela, cantando, ouvindo, reconstruindo o saber com casos práticos, do dia-a-dia. Arrisquem, as aulas são para os alunos! As aprendizagens são mais fortes.

P

de Paul Hindemith

Às vezes, os malabarismos podem ser muito educativos. No meu tempo de aluna (e nos primeiros momentos enquanto professora), os exercícios do «Adiestramento Elemental para musicos» faziam parte dos recursos. Cantávamos, com ritmos para ler ao mesmo tempo, havia até professores que exigiam que se batesse o compasso ao mesmo tempo. Difícil? Sim, mas divertiam-nos… Foi à custa deles que, um dia, me voaram uns óculos! Fazem falta esses malabarismos divertidos, concebidos como malabarismos para dar desenvoltura!

Q

de querer sempre mais, a esperança no ensino

Mesmo depois de deixar o ensino da música, por impossibilidade física (e porque a escrita esperava por mim), fui sempre repetindo esta frase: «no dia em que deixarmos de ter esperança nos nossos alunos, teremos de deixar de ensinar». No dia em que não estivermos à espera de ser surpreendidos com um avanço ousado, com um salto de qualidade, não devemos continuar. Esperemos comovidos pelo avanço, pela emoção. Foi para ver crescer que escolhemos esta profissão, certo?

R

de rótulos, dar rótulos ao que já se sabe

Retiremos os rótulos que pomos aos alunos. Pegando na entrada anterior, sabendo que, se esperarmos apenas pouco, será pouco o que recolheremos, deixemo-los crescer para lá do que pensamos de cada um. Não é fácil: este desafina, este não tem ritmo, é pouco musical ― são estes os pensamentos que nos podem induzir em erro. Podia contar-vos momentos incríveis! Em vez de «este é», perguntemos: «o que posso fazer para que afine melhor?» O segredo é esse.

S

de sistemas de representação mental

Lidar com a dor fez-me trabalhar a mente. Assim, descobri coisas que devia saber antes de entrar numa sala de aula e que, sem este percalço, não saberia: os sistemas de representação mental. Não deixem de saber mais sobre isto. Os nossos alunos podem ser visuais, verbais e auditivos, cinestésicos, misturas várias de todos estes. E aquilo que fazemos para que aprendam música, precisa de aparecer em vários sistemas. Experimentem, é muito gratificante o que se consegue.

T

de treino da mente

Continuando a entrada anterior, treinar a mente inclui: memória, atenção (não chega dizer para estarem com atenção!, temos de a treinar), desenvolver os sistemas de representação mental, ligar a emoção à aprendizagem e execução. Tenho feito muitos workshops sobre isto e o efeito é sempre este: se é tão simples e tão útil, porque não o fazemos? Porque se fala pouco disto. O que vos posso dizer é que, uma vez aprendido, modifica a forma como trabalhamos.

U

de utilidade da formação musical

Vou ser um pouco provocadora. Dizia isto nas aulas de pedagogia: atenção, há países que não têm formação musical. É verdade! E não deixam de ter excelentes músicos. A leitura e a escrita servem um propósito: partilhar partituras, poder saber o que outros escreveram, poder cantar uma obra coral, tocar numa orquestra, e por aí adiante. A disciplina «educação musical» não é um objetivo, é uma ferramenta. Se perdermos este foco, podemos estar a não ensinar nada.

V

de viagem cultural

Falemos da música fora das academias e conservatórios. Deixemos de parte o solfejo e viajemos no mundo das canções. Ouvir, escrever letras, compor canções é uma viagem cultural. Na nossa missão de ter mais pessoas a gostar (e consumir) música, trabalhar canções leva-nos a descobrir o mundo dos outros, o nosso mundo interior, a intervenção e o desabafo, a alegria e a perplexidade (a afinação, o prazer). Se só pudéssemos fazer uma coisa, eu diria: escrevam-se canções!

W

de Edgar Willems

Ah, a pedagogia de Willems. Gostava de salientar duas que me tocam. Uma é como se modifica a intenção ao cantar, quando as crianças sentem a afinação como um imperativo da lógica tonal (ou outra). Damos aulas com piano, quase sempre, numa afinação temperada. Mas deveríamos procurar essa afinação sensível. E nunca esqueço estas suas palavras: o mau músico, ouve o que tocou; o mediano, ouve enquanto toca; o bom músico, ouve antes de tocar. Intenção = mestria.

X

de Xanax

Foi assim que, sem eu saber, ficou conhecida a canção «O girassol» entre os meus alunos da ESML. Xanax ou Lexotan, tanto faz. Diziam que, se as turmas estavam agitadas, bastava cantá-la para sossegarem. Cantar, rir, ler em silêncio ou ouvir uma história, são boas formas de ativar a atenção e o foco, são formas de treinar a atenção. Escrevi-a para uma das minhas sobrinhas, mas pensando nos meus filhos. É diferente, quando escrevemos com o coração.

Y

de Yehudi Menuhin

Cristina Brito da Cruz, lembras-te? Pediste-me que fosse contigo a Berna (sim, onde nunca conseguia descobrir o nosso quarto dentro do hotel) para assistirmos a aulas em escolas complicadas (diziam eles…). Um projeto de Yehudi Menuhin ― MUS-E ― que irias implementar em Portugal. Recusaste fazer um gueto dentro de um gueto, e conseguiste financiamento para todas as turmas, e não só duas. Revolucionaste o ensino naquela escola e as nossas cabeças, fiel à ideia do Mestre. Agradeço-te imenso!

Z

de Zoltán Kodály

É pouco original, e a Cristina Brito da Cruz é mestre nisto. Quando juntas começámos o projeto MUS-E na EB1n.º1 de Algés, apoiei-me no fantástico dó móvel. Em muito pouco tempo, aquelas crianças do segundo ano sabiam cantar e sentir a tonalidade, conhecer a fundo a lógica tonal, e a utilizar os gestos e os sons. Divertia-os tanto que evoluíam depressa. Meninos com condições de vida terríveis, famílias destroçadas, felizes com as artes, uma lição de vida.

De A a Z para a Música na Educação... por Bruno Cochat

Bruno Cochat

Lisboa, 5/4/1971. Licenciado pela Escola Superior de Dança – Ramo de Espetáculo. Iniciou os seus estudos em dança em 1983 na Companhia Nacional de Bailado e Ballet Gulbenkian.

Professor de Expressão Dramática na Escola Artística de Música do Conservatório Nacional desde 2003 até ao presente. Professor de Expressão Dramática na Escola Voz do Operário e na Escola Básica do Castelo (Lisboa).

Trabalha também como coreógrafo, destacando das suas criações:

NU MEIO – co-criação com Filipa Francisco

RITUAIS DE LUTO/A – EXPO 98

QUEBRA-NOZES – CCB

O PERIGO DA DANÇA – Teatro da Trindade

KOPD’ÁGUA – Clube Estefânia

CARPE DIEM – Teatro Camões/Companhia Nacional de Bailado

A FIXAÇÃO PROIBIDA – Centro Cultural Caldas da Rainha – Dia Mundial da Dança, 2010

BABAR, o pequeno elefante – Teatrinho do Conservatório Nacional.

1HD – Uma História da Dança – Companhia Nacional de Bailado AGORA – Grupo 23 – Silêncio. FMM (Sines) e Teatro São Luiz

Para o Atelier Musical da EMCN, encenou ou co-encenou “Flauta Mágica”, “Brundibar”, “Tutti Fan Frutti” e “Vamos Construir uma Cidade”, “Vou-me Embora, Vou Partir”, entre outros…

Colaborador regular do PAD - Projecto de Aproximação à Dança – Companhia Nacional de Bailado e da “Orquestra Geração”.

Formador da APEM – Associação Portuguesa de Educação Musical.

Professor e Produtor na Escola de Música do Conservatório Nacional, onde inaugurou a temporada de concertos “Le Foyer”. Programador do mês de Abril/2012 na Baixa-Chiado PT Bluestation.

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de ALFABETO.

Os primeiros passos a dar no ensino de qualquer matéria é a aquisição de códigos que, como letras, servirão mais tarde para criar as nossas frases, os nossos discursos. A seguir, irei enumerar aquelas que são as “letras” do meu alfabeto de Expressão Dramática no ensino vocacional da Música e que são comuns a todos os tipos de ensino que se centram na individualidade dos alunos e no desenvolvimento da sua inteligência emocional…

B

de BELEZA.

Permitirmo-nos, e aos nossos alunos, satisfazer-nos com o que é Belo, que não precisa de mais justificação ou explicação. “Gosto porque sim, porque me arrepia”, seja uma música, um som, um poema, um movimento ou uma imagem.

C

de CONCENTRAÇÃO/CONFIANÇA.

Estas são, têm de ser, as “portas de entrada” para o trabalho com crianças. Para tudo quanto queiramos apre(e)nder, necessitamos desenvolver a nossa capacidade de nos focarmos no assunto ou no objectivo. A estreita relação de confiança entre o aluno e o professor, o aluno e a turma e o aluno em si próprio, são meio caminho andado para o “sucesso”. Por sucesso, entendamos a capacidade que o aluno deve ter de se ultrapassar, de se surpreender.

D

de DANÇA.

Vindo da Dança, dar aulas de Expressão Dramática numa escola de Música, eu sou a verdadeira “pirueta” das artes performativas. É sempre através do Corpo que nos expressamos e é este que nos traz mais barreiras e constrangimentos. Consoante a idade dos alunos com que lidamos, varia muito a sua (como a nossa) relação com o seu Corpo e devemos, em qualquer situação apaziguar esta relação. A Dança, como a Música, não é uma, são muitas e, se todos gostam de algum género musical, o mesmo se passa (ou devia) com a Dança. Cabe-nos a nós, professores facilitar os processos de procura do género onde o aluno se sinta mais confortável.

E

de EXPRESSÃO DRAMÁTICA.

Esta é, só pode ter sido, a primeira forma de comunicação do ser humano. Antes de saber falar, o Homem sabia expressar. A expressão dramática obriga-nos, como a formação de um ator, a “descascar as várias camadas da cebola”, até chegar ao nosso interior, a partir do qual, se for o caso, se poderá então construir a persona/personagem. Este caminho leva-nos, inevitavelmente, ao autoconhecimento e a lidarmos de perto com as nossas emoções que estarão, assim, à vista de todos (quanto ao medo que isto provoca já iremos…)

A Expressão Dramática é também aquela disciplina onde cabe qualquer tema, onde se resolvem conflitos, onde, muitas vezes, a aula ganha um rumo próprio, diferente daquele que o professor tinha imaginado.

F

de FAMÍLIA.

No sentido mais lato que se possa imaginar. A família que é a turma/escola, a família que é a comunidade escolar e a família que é a família. A presença dos familiares na vida da escola, na minha experiência, só tem trazido benefícios. Juntos naquele que é o objectivo principal (a criança), traçamos estratégias, definimos abordagens especiais e ficamos a par de informações muito importantes que de outra forma não saberíamos.

G

de GOSTO.

Saber de que gostamos e porquê, leva-nos ao desenvolvimento do sentido crítico, tão importante quanto o passo seguinte, que é defender o gosto pessoal sem se esquecer de respeitar os gostos dos outros. A discussão do gosto, que tanto se disse não poder existir, leva-nos afinal ao pensamento filosófico. Estas discussões podem levar ao debate de qualquer temática que esteja presente na vida escolar familiar ou social dos nossos alunos.

H

de HOJE (AGORA).

Com a quantidade de máquinas e respetivas aplicações (úteis) que temos (não só os alunos…) é muito fácil não se estar onde se está, tal é a quantidade de respostas por dar, conversas e mensagens a meio. Esta dinâmica tem de ser contrariada diariamente pois o Presente (Agora), embora não existindo, espremido entre o que já passou e o que ainda não, é o único Tempo que temos. Presente é também “Prenda”. Desfrutemos, então.

I

de IDEIAS.

De quem são as ideias que vão surgindo durante uma conversa, exercício ou jogo? A partilha das ideias ou a percepção de que podem ser “de todos” é um passo importante para a criação de uma noção de trabalho de grupo. Desenvolver nos alunos a compreensão de que não existem à partida ideias más ou que não servem, faz com que se perca o medo de partilhar aquilo que se pensa ou sente. Muitas vezes uma ideia que surge a partir de outra é mais interessante do que a original e muda o curso da proposta inicial.

J

de JOGO.

Está-nos na massa do sangue ser competitivo e isso deve ser visto como algo saudável, desde que não nos altere nem nos torne maldosos. Todas as “letras” deste alfabeto são apresentadas de forma lúdica, interessando o aluno no processo de aprendizagem.

Se numa primeira fase “o importante é participar”, depois “o importante é divertir”, deve posteriormente focar-se a importância em perceber o jogo, delinear estratégias para, sobretudo, ultrapassar-me e fazer melhor do que da última vez.

Também nos devemos focar na invenção de novas regras, muitas vezes em colaboração com os alunos, tornando assim, o jogo, “seu/nosso”.

K

de KNOWLEDGE (CONHECIMENTO).

(já que me internacionalizo no alfabeto, uso palavras “estrangeiras”). O que sabemos e vamos ensinando, assim como o que vamos aprendendo, vão-nos enchendo a “mochila do conhecimento” o que, por um lado nos cobre de satisfação e, por outro, nos mostra o quanto fica (e ficará) por saber. Este “abismo” tem de ser fascinante e não assustador para quem lida com crianças na arte da Educação.

L

de LIBERDADE.

Se é tudo o que temos, devemos “usá-la para que não enferruje” (citando um aluno). O exercício do uso da liberdade, de pensamento, de expressão de ideias e sentimentos, prende-se com a construção da personalidade e torna-nos (a todos) seres mais humanos, solidários e emocionalmente inteligentes.

M

de MOVIMENTO.

Identificar junto dos nossos alunos as múltiplas possibilidades de movimento: grande, pequeno, concreto, abstracto, ligado ou sincopado, livre ou com alguma das inúmeras técnicas existentes. A prática do movimento e a memorização de uma sequência de movimentos, de dança ou do quotidiano, exercitam as mesmas zonas do cérebro que o cálculo matemático, como o estudo da Música desenvolve o raciocínio. A improvisação de movimento (a partir de um estímulo musical, um tema ou outro) é das práticas mais libertadoras que pode existir e, depois de ultrapassadas as inibições iniciais, não há criança (ou adulto) que não goste de improvisar movimento, usado também no início da aula como forma de aquecimento e concentração.

N

de NADA.

Como quem olha para uma folha em branco, sem saber por onde começar a desenhar ou escrever, este “medo do nada” tem de ser ultrapassado, lembrando-nos que o Zero é sempre a casa de partida para qualquer actividade. Digo aos meus alunos (e a mim, muitas vezes): “quando não souberes o que fazer, não faças nada”. Numa improvisação de grupo, por exemplo, devemos aguardar que a inspiração (vontade de entrar) chegue, que o Corpo ou a Música fale connosco, nos diga o que fazer.

O

de OUTRO.

O trabalho de observação do outro, ajuda-nos a encontrar-nos, a sabermos quem somos e como somos. Funcionando como espelhos de nós mesmos, a observação dos outros, diz-nos, quase como um GPS, onde devemos encaixar-nos. Pessoalmente, enquanto professor, têm sido sempre os meus alunos quem me ensina a dar aulas, indo de encontro às suas necessidades e interesses.

P

de POSTURA

Seja no sentido da forma como posicionamos o nosso corpo nas mais diversas situações ou a forma como devemos comportar-nos em determinadas ocasiões, a nossa postura diz muito sobre nós e podemos melhorá-la, bastando, muitas vezes, estar atento a ela. O desenvolvimento de um trabalho de postura(s) serve também como aquecimento e concentração, ideais para início de uma aula ou ensaio.

Q

de QUESTIONAR

Pratica fundamental do desenvolvimento humano, não podemos acreditar sem duvidar ou pretender conhecer sem questionar. Temos (em conjunto com os nossos alunos) de habituar-nos a que a questão faz parte do todo e que muitas perguntas ficarão para sempre sem resposta e que a dúvida, como o erro, faz parte da vida.

R

de REPETIÇÃO.

“Como se diz ensaio em francês?”, pergunto muitas vezes aos meus alunos. “Répétition”. É através da repetição de um exercício, de um jogo ou de um estudo que podemos melhorar, garantir que a aprendizagem foi integrada e assim progredir. Não deve ser vista como algo cansativo ou sem intenção. Dou também aos meus alunos o exemplo do tiro com arco. Fazer quantas tentativas? As suficientes até estarmos satisfeitos e mais uma. Para garantir que não foi um acaso.

S

de SONHO.

Não é seguramente por acaso que este, diz-se, comanda a Vida. O homem correrá sempre atrás dos seus sonhos, mesmo aqueles que sabe nunca irá alcançar. Se não sonhasse voar nunca inventaria o avião, se não corresse atrás da perfeição, mesmo sabendo que não a irá atingir, iria facilmente desistir. E essa é a única regra dos jogos: “Não se pode não jogar”.

T

de TRABALHO/TALENTO.

Sempre lado-a-lado, percentagens de um e outro para cá e para lá, o primeiro desenvolve o segundo e o segundo o primeiro. Se o talento existe? Eu digo que sim, que se vê e se sente. É aquele “brilhozinho nos olhos” de quem toca, canta ou dança. E o trabalho, nas nossas áreas, é amor, é paixão, é o aluno que estuda sem para isso ser mandado, que nos pede mais e mais, que nos apresenta um trabalho enorme, quando a proposta era pequena e isso não pode, quanto a mim, em circunstância nenhuma, ser censurado.

U

de ÚNICO.

O ensino da Música, ao contrário da Dança, por exemplo, promove a diferença a vários níveis entre os alunos. Essa diferença deve ser respeitada e fomentada. A percepção de que não necessitamos ser como outros, que podemos ser e mostrar quem somos, sem medo(s), é o que mais estimulo nos meus alunos.

V

de VERGONHA.

“Medo do que os outros pensam sobre aquilo que eu faço” tem sido a conclusão a que mais frequentemente os meus alunos chegam, concluindo depois, no meu entender muito sensatamente que, “se não sabemos o que os outros estão a pensar, para quê ter medo”? Esta é, sem dúvida, uma das principais e primeiras barreiras a vencer na aprendizagem de qualquer “arte performativa”, uma vez que a apresentação/exposição faz parte do processo e convém que seja, tão cedo quanto possível, um prazer e não uma tortura.

W

de WONDERFUL.

(outra palavra estrangeira). Principalmente por trabalhar com crianças e, muitas vezes sobre e a partir do universo infantil, lido (lidamos) com o nosso “lado de criança”. Porque não deixamos de ser crianças nunca. Somos é outras coisas em cima disso. A idade é cumulativa e não desarticulada nas nossas várias fases. Aquilo a que me refiro, neste caso, é a acreditar no fantástico, saber que as personagens de ficção existem de facto, nem que seja numa realidade paralela (as histórias) e deixar-me sempre (ou quase), maravilhar, deslumbrar, com a Fantasia.

X

Aquilo que não sabemos, aquilo que queremos saber. Tal como a perfeição, inatingível, também o conhecimento deve ser uma procura constante, embora nunca o consigamos atingir em pleno. Assim, a curiosidade é uma das qualidades a fomentar nos nossos alunos, sempre com a consciência de que é procurando saber que se vai sabendo.

Y

(a última palavra estrangeira, prometo) Esta letra estrangeira, se dita em estrangeiro e em voz alta, soa igual à pergunta mais extraordinária de todas e a que faz tudo avançar e desenvolver o conhecimento: “WHY”? Ainda que frequentemente não saiba dar resposta a tantos “Porquês” dos meus alunos, acontece-me com alguma frequência ser surpreendido pela descoberta de algum significado de um termo, resultado da discussão mais ou menos filosófica do “Porquê das Coisas”. Não devemos temer estes “ataques de perguntas”, pois é também assim que “(…) O mundo pula e avança/Como bola colorida/Entre as mãos de uma criança”. (“Pedra Filosofal” – poema de António Gedeão).

ZZZ

Tal como o silêncio faz parte da Música, bem como o espaço entre as notas e o tempo de cada uma, também o descanso faz parte do processo de trabalho e aprendizagem. Como se diz no mundo da Dança, “Dormir também é trabalho”, recuperando o corpo e a mente para o dia seguinte e dando ao cérebro tempo para arrumar as ideias (processar).

Assim sendo, Boas Férias a todos!

De A a Z para a Música na Educação... por Eugénio Harrington Sena

Eugénio Harrington Sena

Licenciado em Engenharia Química e com uma pós-graduação em Gestão das Artes pelo INA, exerceu diversos cargos em várias Instituições Culturais, nomeadamente, Pianista e Diretor de Cena na Companhia Nacional de Bailado e Diretor Técnico Adjunto e Diretor do Gabinete de Estudos e Desenvolvimento no Teatro Nacional de São Carlos.

Foi consultor técnico em vários projetos culturais e lecionou em diversos cursos de produção e gestão cultural. Concebeu e produziu o espetáculo Vamos Fazer Uma Ópera para Lisboa 94, Capital Europeia da Cultura.

Em 2001 escreveu vinte programas para a RDP-Antena 2 sobre o reportório de óperas para crianças. Foi o encenador e autor da versão portuguesa das óperas Help, Help, The Globolinks! de Menotti (2000), Cinderella de Peter Maxwell Davies (2002) e Pollicino de Hans Werner Henze (2006). Foi o Diretor Técnico da Culturgest entre 1993 e 2010 altura em que saiu para conceber e realizar o projeto Vamos Construir Uma Cidade com o qual venceu o Prémio Ideias Verdes Fundação Luso/Expresso 2010. Nos últimos anos realizou, na Culturgest, vários ciclos de conferências: “A Revelação de Wagner” (2013), “Conversas com Wagner” (2014) e “Música e Ciência” (2016).

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de Ana, de Aboulker (Isabelle) e A.P.E.M.

Ana Ferrão e Ana Venade, duas gerações de dedicação à causa da música na educação. Que melhor maneira para começar este abecedário? Muitos as conhecem. Ana Maria Ferrão formou para a educação musical centenas de professoras de todas as áreas e graus de ensino, entre as quais, também, Ana Venade, que me deixou fascinado há 8 anos quando a vi a trabalhar pela primeira vez nestas coisas da formação musical onde eu era um “outsider”.

Isabelle Aboulker é uma das mais prolíficas compositoras de óperas para crianças, conhecida melhor em Portugal pela produção da sua obra Jeremias Fischer no CCB em 2010.

https://www.youtube.com/watch?v=fTTx5KPBJL4
https://www.youtube.com/watch?v=CQ0rAio0AqM
https://www.youtube.com/watch?v=zd7VpNUQJLw

Da A.P.E.M. fica só a sigla, pois a dimensão daquilo que representa no universo da nossa educação musical não cabe aqui.

B

de Benjamin Britten e de Brundibár.

O compositor e a obra maiores do século XX no que diz respeito à capacidade de envolvimento das crianças e jovens na música e na ópera. De Britten, basta lembrar o Young Person’s Guide to the Orchestra e Let’s Make na Opera embora os exemplos sejam muitos.

Brundibár, de Hans Krása (ver letra K), é o exemplo paradigmático do que se pode fazer em termos da participação conjunta de crianças e adultos em projetos de educação musical integrada, na formação de um ser humano melhor. Estreada em Portugal por altura do evento Porto 2001 capital europeia da cultura, e mais tarde em Lisboa pelas mãos e vontade do Bruno Cochat e da Escola de Música do Conservatório Nacional.

C

de Cinderela, de Culturgest e de CREA.

A Cinderela é uma das muitas histórias para crianças que são aproveitadas para pôr em prática atividades de teatro musical. A versão de Peter-Maxwell Davies foi uma das obras que a Culturgest deu a conhecer em Portugal, no âmbito da sua programação de óperas para crianças entre 2000 e 2006. Para mim foi uma surpresa a maneira como crianças sem formação musical conseguiram entrar na linguagem nada fácil do compositor britânico.

https://www.youtube.com/watch?v=NJSfXXhmm8Y

O CREA (Centre de Création Vocale et Scénique) é uma instituição modelar criada em 1987 por Didier Grojsman, com instalações nos arredores de Paris e que através de projetos de teatro musical e ópera para crianças “tem por vocação formar cidadãos cultos abertos ao mundo, com orelhas inteligentes e olhos críticos”.

https://www.lecrea.fr/le-crea/un-lieu-unique/
http://www.dailymotion.com/video/x189u2j

D

de Drama musical.

A expressão que definirá melhor as obras de Wagner mas que o próprio não gostava de utilizar. Teatro através da música. Talvez a melhor forma de perceber o mundo ao pô-lo em cena sob a ação conjunta das palavras e da música. Fazê-lo desde criança e abrangendo toda a população seria a utopia do meu programa de Música na Educação.

E

de Euler (Leonhard).

Talvez às gentes da música o nome diga pouco mas Euler foi “apenas” o matemático mais prolífico de todos os tempos e o autor da relação a que muitos chamam de “a equação de Deus”. Escreveu, aos 23 anos, um “Ensaio sobre uma Nova Teoria da Música” onde definiu “graus de agradabilidade” (gradus suavitatis), abrindo o leque das harmonias consonantes que durante tantos séculos se tinham fechado nas categorias de Pitágoras. Pela mesma altura estava Bach a compor o primeiro volume do seu “O Cravo bem Temperado”. Euler e Bach, no fundo, foram os dois génios do século 18 que abriram a porta do sistema tonal para que tudo fosse possível na música dos séculos seguintes. E nós fruímos todos disso.

F

de Fazer e de Foco Musical.

Fazer é o fundamental. Se os nossos projetos não passarem do papel ou da gaveta nada irá acontecer. Pensar, planear, focarmo-nos com determinação, e fazer!

Como a Foco Musical. Cantatas, concertos, óperas, orquestra de brinquedos e tantos projetos sob o talento do Jorge Salgueiro, do Miguel Pernes e de tantos colaboradores. O projeto Tartaruga, galardoado em 2015 com o prémio da escolha do público dos YAMA (Young Audience Music Awards) reflete o trabalho desta instituição portuguesa com mais de 20 anos.

https://focomusical.org/
http://yamawards.org/about

G

de Grojsman (Didier), Glyndbourne e Globolink

O pedagogo que criou o CREA (ver letra C).

https://www.fondationorange.com/Didier-Grojsman-et-le-CREA

O festival de música que há mais de 30 anos se empenha em projetos educativos inovadores e onde realço a encomenda contínua de novas obras que têm alargado significativamente o reportório de óperas para crianças.

http://www.glyndebourne.com/education/

O extraterrestre da ópera para crianças Help, Help, The Globolinks! de Giancarlo Menotti que a Culturgest produziu em 2000. Poderia ter sido o início de um ciclo de apresentação regular naquela instituição do reportório de óperas para crianças acompanhado em simultâneo pela programação da Casa da Música no Porto, mas ambas as instituições, infelizmente, viriam a desistir desse percurso ao longo do decénio.

https://www.youtube.com/watch?v=pMzbFjBQgYw

H

de Humperdinck (Engelbert), Hindemith (Paul) e de Henze (Hans-Werner)

Três compositores de referência na história do drama musical com e para crianças. Engelbert Humperdinck, o autor das obras- primas Hansel und Gretel e Königskinder no final do século XIX.

Paul Hindemith, que introduziu o conceito de ópera escolar quando criou, em 1930, Wir Bauen Eine Stadt (ver letra V) para o Festival de Nova Música de Berlim.

Hans Werner- Henze que, no espírito de participação comunal do seu Festival de Verão em Montepulciano criou, para as crianças locais, Pollicino em 1980. Todas as obras, com a exceção de Königskinder, foram apresentadas nos palcos portugueses ao longo do primeiro decénio deste século.

I

de Instrumento.

O meio de comunicação da música. Da voz ao simples batimento de um pau. Do assobio à flauta. Do monocórdio ao sintetizador electrónico. Milhares de invenções do ser humano ao longo dos séculos, na sua demanda de transcendência da realidade física através da música.

J

de Jubal.

O pai de todos os músicos segundo a Bíblia (Genesis 4:21). Seis gerações depois de Caim. Um símbolo fundamental.

K

de Kepler (Johannes), Krása (Hans), Kojoukharov (Vladimir) e de Kommische Oper.

O astrónomo genial esteve sempre envolvido na prática e na teoria musical da sua época. Para Kepler, na harmonia do cosmos os planetas estão “a cantar” um moteto polifónico e, a partir de várias medições e cálculos, escreveu num pentagrama a música que os planetas fazem nas suas órbitas à volta do sol.

https://www.youtube.com/watch?v=2-YtZSjC2Nw

Hans Krása é o compositor de Brundibár (ver letra B) obra com que tinha concorrido a um concurso estatal de óperas para crianças em 1938. Estreada num orfanato judeu de Praga em 1941 a obra tornou-se tristemente célebre pelas apresentações que teve no campo de concentração de Terezín. Krása morreria em 1944 em Auschwitz.

https://www.youtube.com/watch?v=st4INYATIqc

Vladimir Kojoukharov, compositor francês, foi o criador, em 1990, de um dos primeiros e mais ativos departamentos educativos dos Teatros de Ópera na Europa, o Atelier Opéra Junior de Montpellier. Uma atividade enorme aberta a todas as crianças e jovens, sem qualquer seleção, fazendo o reportório existente e criando novas obras, sempre com o objetivo de desenvolver tanto as qualidades artísticas como os valores humanos e sociais.

http://www.opera-orchestre-montpellier.fr/page/presentation-opera-junior
https://www.youtube.com/watch?v=GyX8wsIZxGY

A Kommische Oper Berlin tem um dos programas educativos mais consistentes dos Teatros de Ópera da Europa, incluindo sempre encomendas de novas óperas para crianças a novos compositores.

https://www.komische-oper-berlin.de/en/discover/children-and-young-people/

L

de Let’s Make na Opera.

A obra-prima que Britten compôs em 1949 para estimular a aproximação das crianças e jovens ao mundo da ópera. A primeira parte é uma peça de teatro onde crianças e adultos escrevem e constroem uma ópera a partir de uma situação real. Na segunda, The Little Sweep, as mesmas crianças e adultos representam a ópera que escreveram. Foi o evento didático-musical mais importante da Lisboa 94, capital europeia da cultura, na versão portuguesa apresentada no Teatro Municipal São Luiz para cerca de 10 000 crianças de todo o país. João Paulo Santos dirigiu musicalmente a produção encenada por Paulo Matos. Este remontou uma nova versão na Gulbenkian em 2009.

https://www.youtube.com/watch?v=J1mO4dBZ3Ck
https://www.youtube.com/watch?v=cClTsh0_YMI/

M

de Menotti (Gian Carlo), Maxwell Davies (Peter) e Musicoterapia.

Gian Carlo Menotti foi um dos compositores que na segunda metade do século XX mais contribuiu para manter vivo o género “ópera” e, em particular, o reportório de óperas infantis. Entre as várias obras destaco o conto de Natal Amahl and The Night Visitors, que foi a primeira ópera propositadamente escrita para televisão, estreada em 1951, e é ainda das obras mais apresentadas, todos os anos, nos EUA. Foi estreada em Portugal pelo Círculo Portuense de Ópera em 1989.

Peter Maxwell Davies foi um compositor britânico contemporâneo que criou muitas obras especialmente destinadas à interpretação de crianças acompanhando-as de guias de orientação para os professores. A Cinderella de 1980 foi composta propositadamente para o seu Festival de São Magno, nas ilhas Orkney, a norte da Escócia.

As funções terapêuticas da música, que hoje em dia são reconhecidas cientificamente, já tinham sido descritas na Bíblia, no Livro de Samuel (16.23) no episódio de Saul e David. De Pitágoras a Stockhausen, os exemplos são muitos desta utilização quase mágica do poder da música.

N

de Newton (Isaac).

Isaac Newton, o génio da física e da matemática, que uniu os céus e a terra num mesmo mundo obedecendo às mesmas leis, foi também um obcecado pelo mais importante problema teórico da música de então, o da divisão da oitava. Foi dos primeiros a utilizar logaritmos para cálculos musicais e da analogia entre os seus estudos da luz e das cores com os tons de uma oitava de uma corda vibrante concluiu que as separações das frequências das cores da luz branca estavam nas mesmas proporções das divisões musicais de uma oitava. No fim da sua vida Newton costumava dizer que acreditava que a música das esferas de Pitágoras era a gravidade e que, assim como os sons e as notas dependem do comprimento das cordas, também a gravidade depende da densidade da matéria.

Uma das figuras mais importantes da história da humanidade, a mostrar-nos como tudo está ligado.

O

de Ocean World.

O musical ecológico sobre a destruição dos oceanos, da dupla Peter Rose (música) e Anne Conlon (libreto). Publicada no início do século XXI e mais atual do que nunca.

https://www.youtube.com/watch?v=JAn-pgjODZk&t=22s
http://www.mtishows.co.uk/ocean-world

P

de Pitágoras, de Principezinho, de Pinóquio e de Programa.

O grego, amante da sabedoria, pai de (quase) tudo o que governa o cosmos e que uniu os números à música. O nosso mundo musical (e não só) mudou a partir dele.

Entre a história do Principezinho e a do Pinóquio vão alternando as dezenas de obras de teatro musical que têm aparecido nas últimas duas décadas. Por mim, prefiro as do Pinóquio. Há para todos os gostos musicais: da ópera ao jazz, passando pelo rock. Pierangelo Luigi Valtinoni, Jonathan Dove, Natalia Valli ou Thierry Lalo são apenas alguns dos compositores envolvidos.

https://www.youtube.com/watch?v=vhasxzjVEPU
https://www.youtube.com/watch?v=L9KgmkglwRA
https://www.youtube.com/watch?v=7IorDDSEMaI
https://www.youtube.com/watch?v=ca5SDsByWgs
https://www.youtube.com/watch?v=gs9Lyet765A

Um programa é sempre um ponto de partida. Muitas vezes não passa disso. Mas de vez em quando consegue-se alguma coisa. Exemplo é o Programa de Educação Estética e Artística do Ministério da Educação que até conseguiu chegar ao peso pesado São Carlos.

https://tnsc.pt/residencias-artisticas-musicos-osp-orquestra-sinfonica-portuguesa/

Q

de Querer e Questionar.

Às vezes basta querer, para fazer alguma coisa acontecer. Outras vezes é preciso juntar as vontades. Também é preciso sorte para querermos no tempo certo. Questionar o status quo é fundamental para inovar e seguir em frente com algo novo que abra os horizontes.

R

de Rita Redshoes e de RESEO.

A autora, compositora e intérprete de, entre muitas outras coisas, Rita e a Floresta dos Legumes, um projeto pedagógico de promoção de uma Alimentação e Estilos de Vida Saudáveis, dirigido para alunos e alunas do Ensino Pré-escolar e 1.º Ciclo de Escolaridade.

https://www.ritaflorestadoslegumes.com/sobre
https://www.youtube.com/watch?v=g2y4mchdadc

A rede europeia que há 15 anos trabalha para a educação e aprendizagem participativa do público jovem na ópera e de que fazem parte, em Portugal, a Casa da Música, a Companhia de Música Teatral e a Miso-Portugal.

https://www.reseo.org/

S

de Schopenhauer (Arthur).

O filósofo que pôs a música no lugar que ela merece, acima das outras artes, no papel privilegiado de articulação do mundo dos fenómenos com o númeno.

T

de Temperamento musical, de Tchiloli e de Tartaruga.

O grande problema teórico da música ao longo dos séculos, resolvido no ocidente no século XVIII através do temperamento igual: a oitava dividida em doze partes iguais possibilitando uma prática musical universal com o uso de todas as tonalidades. No fundo, o princípio da educação musical para todos.

Um cheiro a globalização antes do tempo, numa fusão cultural europeia-africana. A história de A Tragédia do Imperador Carlos Magno e do Marquês de Mântua abraçada desde o século XVI pelo povo são-tomense.

https://tchiloli.com/
https://www.youtube.com/watch?v=I__q5QsD6xQ

O nome do projeto da Foco Musical vencedor em 2015 dos Young Audience Music Awards (Ver letra F).

https://www.youtube.com/watch?v=bLAeD60B9z4

U

de Ut.

Ut queant laxis, o primeiro verso em latim do hino a São João Baptista que Guido d’Arezzo utilizou para rebatizar as notas musicais no séc. XI e que com a criação do tetragrama, precursor do pentagrama, nos deu a base da notação musical moderna. Embora depois o ut tenha passado a dó mantiveram-se os nomes das primeiras sílabas dos restantes versos do hino. O monge toscano medieval merece a minha evocação pois marcou uma etapa decisiva na universalidade da comunicação musical.

V

de Vibração e de Vamos Construir Uma Cidade.

Tudo começa com uma vibração de um campo invisível, silencioso e omnipresente, o famoso bosão de Higgs, que ocupa todo o universo e é por ele existir que, por artes mágicas, este universo se materializa. E como escreveu Michio Kaku num dos seus muitos livros de divulgação científica a propósito da teoria das cordas, as harmonias da corda são as leis da física e as melodias que podem ser escritas nas cordas correspondem às leis da química. O Universo pode agora ser visto como uma vasta sinfonia de cordas (…) A música oferece a metáfora através da qual podemos compreender a natureza do Universo, quer ao nível subatómico como ao nível cósmico. A educação pela música deveria fazer estas ligações. Música e ciência de mãos dadas.

A partir da ópera escolar de Paul Hindemith Wir Bauen Eine Stadt (ver letra H), o projeto de sensibilização ambiental Vamos Construir Uma Cidade poderia ter sido o arranque de um programa de educação pela música através do teatro musical, incluído no curriculum do ensino básico e secundário. Talvez um dia…

https://www.youtube.com/watch?v=AsljO5x-uaA

W

de Wagner e de W11, Opera for Young People.

Richard Wagner foi o ponto de viragem de muitas coisas na música. E o conceito de gesamtkunstwerk (obra de arte total), que ele utilizou como ideal estético, bem poderia ser recuperado e alargado para uma filosofia de educação pela música que integrasse todas as restantes áreas do ensino através da realização curricular de uma obra de teatro musical ou, utilizando uma expressão também ligada a Wagner, de drama musical (ver letra D).

W11, Opera for Young People, é talvez a instituição mais antiga e regular na encomenda de novas obras destinadas à participação de crianças e jovens. Desde 1971 que todos os anos faz uma nova encomenda a um novo compositor.

http://www.w11opera.org/

X

de ele próprio.

A incógnita em todas as equações sejam elas matemáticas, artísticas ou simplesmente as do nosso quotidiano. É na sua busca permanente que passamos a nossa vida e quando, em determinada altura, encontramos o seu valor, somos felizes.

Y

de Yanomamo e de Youth Opera Company.

O primeiro dos “musicais ecológicos” de Peter Rose e (música) e Anne Conlon (libreto) encomendado, em 1983, pela WWF (World Wide Fund for Nature) sobre o tema da proteção da floresta amazónica.

https://www.youtube.com/watch?v=h6FygW7cipM
http://www.roseconlonmusic.co.uk/

O programa da Royal Opera House de Londres, dedicado às crianças dos 9 aos 13 anos.

http://www.roh.org.uk/learning/young-people/youth-opera-company

Z

de Zoë.

A ópera para adolescentes de John Lunn (compositor) e Stephen Plaice (libreto), uma das muitas criações do Festival de Glyndbourne que poderia, ou antes, deveria fazer parte do curriculum do último ano do nosso ensino secundário num sistema que desejaríamos pudesse integrar artes, ciências e humanidades em projetos comuns de fins de ciclo, que preparassem melhor os novos ciclos dos homens de amanhã.

http://www.glyndebourne.com/education/about-glyndebourne-education/education-projects/commissions/zoe-2/

De A a Z para a Música na Educação... por Liliana Marques

Liliana Marques

Educadora de Infância, Licenciada em Supervisão Pedagógica e Formação de Formadores, Mestre em Ciências da Educação na especialidade de Avaliação e Desenvolvimento Curricular.

Docente em diversos contextos educativos no meio rural e citadino, na rede pública e solidária, em creche e jardim de infância.

Exerceu funções na DGIDC/ME (2000-2011) participando em diversos projetos: Desenvolvendo a Qualidade em Parcerias-DQP, Rede ECEC da OCDE, grupo de trabalho para a conceção das brochuras da Língua e da Matemática para a educação pré-escolar.

Na Fundação Aga Khan (2011-2014) foi formadora em contexto e Diretora Pedagógica do Centro Infantil Olivais Sul.

Foi Vice-Presidente da Associação dos Profissionais de Educação de Infância - APEI, membro da equipa editorial dos Cadernos de Educação de Infância (2011-2016) e Presidente da Assembleia Geral da Associação (desde março 2016).

É formadora certificada pelo Conselho Científico Pedagógico da Formação Contínua.

Atualmente exerce funções na Direção-Geral da Educação, é coautora das Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar, membro do projeto-piloto Grupos Aprender, Brincar, Crescer e representante do ME na Rede da OCDE Early Childhood Education and Care.

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de Aprendizagem, de Ação educativa que não se pretende que seja a de transmitir mas a de escutar e de proporcionar contextos de educação desafiantes, interativos em que se possa aprender a aprender.

B

de Brincar.

Atividade espontânea da criança, que corresponde a um interesse intrínseco e se caracteriza pelo prazer, liberdade de ação, imaginação e exploração (OCEPE 2016). Ao brincar as crianças vão-se apropriando de conceitos que lhes permitem dar sentido ao mundo, realizam processos de socialização, constroem a imagem de si próprias, desenvolvem capacidades físicas e motoras. Vivem, crescem e aprendem! Brincar na escola, em casa, na rua, na natureza…

C

de Crianças.

Indivíduos competentes, construtivos, curiosos, detentores de Direitos.

D

de Direito à educação desde o nascimento, de desafio de o considerarmos na Lei de Bases da Educação que, por enquanto, só considera esse direito às crianças a partir dos 3 anos de idade.

E

de Educador/a de infância, que observa, que reflete, que verdadeiramente se coloca à escuta e toma decisões, que é capaz de se conter e não se antecipar às crianças, dando-lhe tempo e espaço para serem protagonistas da sua própria aprendizagem; que organiza o tempo, o espaço, os materiais, que cria um ambiente educativo culturalmente rico e desafiante.

F

de Feedback construtivo, numa perspetiva de avaliação formativa.

G

de Gardner, Howard Gardner, o cientista das inteligências múltiplas.

H

de Histórias para crianças.

Histórias que se contam, que se leem que apelam a todos os sentidos, que contribuem para o desenvolvimento da imaginação, da criatividade, da memória, da linguagem, da capacidade de reflexão e da construção da identidade. Histórias contadas em casa, na escola, no espaço exterior, pelos educadores e professores, pelos pais, pelas crianças, pelos avós. E as crianças gostam tanto!

I

de Intencionalidade educativa que caracteriza a intervenção dos docentes e que permite dar sentido a ação pedagógica.

J

de Jazz, Louis Armstrong - What a wonderful world (1967).

K

de Kilpatrik.

Autor de O Método de Projeto. Segundo Kilpatrik o conceito de projeto na educação deve realçar a importância da experiência do educando no processo educativo, em oposição ao ensino tradicional no qual o aluno é reduzido à simples condição de recetor de conteúdos. Realça a ideia de que a educação deveria ser considerada parte da própria vida e não uma mera preparação para a vida. (Kilpatrik, W.H., 2006).

L

de Liberdade.

Liberdade de falar, de escrever, de opinar, de votar, de escolher, de protestar, de falhar…

M

de Música.

De música que está presente na nossa vida desde muito cedo. Sendo a qualidade uma exigência fundamental, é imperativo que as crianças oiçam música de géneros, formas e estilos musicais diferentes, através de diferentes recursos, que lhes permita o acesso à arte e à cultura artística.

N

de Nelson Mandela (1918-2013).

Foi presidente da África do Sul, depois de ter sido um defensor da liberdade e do fim do apartheid. Uma das suas frases mais conhecidas: Ser pela liberdade não é apenas tirar as correntes de alguém, mas viver de forma que respeite e melhore a liberdade dos outros.

O

de Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar .

Documento que se constitui como uma referência para apoiar os educadores de infância na construção e gestão do currículo, que deverá ser adaptado ao contexto social, às características das crianças e das famílias e à evolução das aprendizagens de cada criança e do grupo. Não se trata de um programa a cumprir http://www.dge.mec.pt/ocepe/ .

P

de Pedagogia, de Paulo Freire.

Educador, pedagogo e filósofo brasileiro que entende a pedagogia como um meio de ler o mundo, dialogar, escutar e conscientizar.

Q

de Queen.

Para ouvir ontem, hoje e sempre! É a banda rock que mais ouvi durante a minha vida e que me transporta para as matinés dos anos 80 e é a música que oiço quando faço uma grande viagem. O meu dueto preferido: Freddie Mercury & Montserrat Caballé - Barcelona (Live at Ku Club Ibiza, 1987)

https://www.youtube.com/watch?v=pPG5DP2RQZk

R

de Reggio Emilia.

Uma cidade situada no norte de Itália, na região de Emilia Romagna que inspirou Loris Malaguzzi fundador da perspetiva pedagógica que tem na arte a ferramenta para o pensamento. É identificada como a pedagogia da escuta, reconhece que as crianças usam as cem linguagens para se expressar, pensar, descobrir, aprender, através do desenho, da escultura, da dança, do movimento, da pintura, da música e do brincar ao faz-de-conta. Brincar e aprender estão profundamente ligados.

S

de Saxofone.

Instrumento de sopro muito usado no jazz .

T

de Teatro Musical.

Outro modo de contar histórias em que, para o desenvolvimento da narrativa dramática, se estabelece um diálogo entre a representação e a música que envolve o canto, a dança e o teatro.

U

de Universal, a música é uma linguagem universal.

François Guizot (França 1787-1874, político e historiador) afirmava que “a música oferece à alma uma verdadeira cultura íntima e deve fazer parte da educação do povo”.

V

de Voz.

Voz para cantar, mas também ter voz e ser escutado.

W

de William Shakespeare (1564-1616).

Dramaturgo e poeta inglês, foi o maior escritor da língua inglesa e o maior influenciador dramaturgo do mundo.

X

de Xutos e Pontapés.

Emblemática banda portuguesa de rock formada no final do ano de 1978.

Y

de Yes we can! - Barack Obama.

Z

de Zuza Homem de Mello.

Música com Z é o seu oitavo livro onde publica 140 textos sobre música brasileira ou jazz que reúne artigos, reportagens e entrevistas publicados ao longo de 58 anos de atividade jornalística, nos principais órgãos da imprensa nacional além de alguns inéditos (1957-2014).

De A a Z para a Música na Educação... por Jorge Prendas

Jorge Prendas

Jorge Prendas (n. 1968, Porto) iniciou os seus estudos musicais aos 10 anos tendo posteriormente ingressado no Conservatório de Música do Porto onde concluiu o curso geral de composição na classe de Fernando Lapa.

Licenciou-se em Informática de Gestão na Universidade Portucalense e retoma os estudos musicais na Universidade de Aveiro onde conclui a licenciatura em ensino da música/composição em 2003. Estudou com professores como Evgueny Zouldilkine e João Pedro Oliveira. No domínio da Música Electrónica compôs “A aparente ilusão de um som” que obteve um “encouragement” no Festival Internacional de Música Electrónica Musica Viva 2002 e foi selecionada para o Seoul International Computer Music Festival 2002.

Em 2003 obteve uma menção honrosa no Festival Internacional Música Viva com a peça “Uma leitura possível para um poema de Eugénio de Andrade”. Esta peça foi executada no festival Synthèse em Bourges 2004. Em 2010 com a peça “Qualche respiro” foi um dos 3 finalistas do concurso internacional Harvey G. Phillips Awards for Excellence in Composition.

Tem composto para as mais diversas formações, tendo já sido editadas em disco e em livro várias das suas obras.

Lecionou Análise e Técnicas de Composição, História da Música, Acústica e Classes de Conjunto no Conservatório do Porto, na Academia de Música de Espinho, na Escola Profissional de Música de Espinho, Escola de Música Óscar da Silva entre outros estabelecimentos de ensino. Orientou seminários de música com comunidades na Escola Superior de Música do Porto a alunos de licenciatura de música e de pós-graduação em Arte Comunitária.

Desde 2007 colabora com o Serviço Educativo e é o Coordenador deste serviço desde 2010. Com a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música participou nos projetos “A Orquestra vai à Escola” e “Novas Colinas do Ribeiro”. No âmbito do “Casa vai a Casa” desenvolveu projetos em várias instituições como são exemplos estabelecimentos prisionais, casas de acolhimento de menores, comunidades terapêuticas, lares de 3ª idade, centros para pessoas com necessidades especiais e hospitais. Foi diretor artístico das “Histórias do Norte” (2008) e “Histórias do Sul” (2009), espetáculos criados para a sala Suggia. É diretor artístico da Orquestra Som da Rua desde a sua criação em Outubro de 2009. Foi igualmente diretor artístico dos espetáculos infantis “Bach Be Cue” e “Algodão Doce”. O espetáculo “Curado”, produzido para marcar os cem anos da primeira guerra mundial e realizado em parceria com a Associação dos Deficientes das Forças Armadas teve a sua direção musical, bem como “Gulag” apresentado em 2016 e que contou igualmente com a participação da ADFA.

Atualmente é o responsável artístico e pedagógico das Orquestras Energia Fundação EDP, bem como o Coordenador de Formação de workshop leaders do Tokyo Bunka Kaikan, dois projectos que estão a ser desenvolvidos pela Casa da Música. Entre 2014 e 2016 fez parte do steering committee da RESEO. Desenvolve trabalho noutras áreas musicais, como é o caso do quinteto a cappella Vozes da Rádio que ajudou a criar em 1991. Com este grupo já gravou dez discos e dois dvd’s assinando a maior parte dos arranjos e originais, assim como a produção musical. Com este mesmo quinteto já realizou centenas de concertos não apenas em Portugal mas também em Espanha, Inglaterra, Macau e Hong-Kong.

Tem tido participações pontuais no cinema não apenas como compositor da banda sonora, mas também como ator. “O Barão”, “CineSapiens”, “A Caverna”, “O espectador espantado” e “Delírio em Las Vedras” são os filmes de Edgar Pêra em que participou. Compôs igualmente a banda sonora do filme de Cláudia Clemente “O dia em que as cartas pararam”. Como compositor e ator participou no novo filme de Edgar Pêra “Caminhos magnéticos” que estreará em 2018.

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de Acordar.

As primeiras memórias musicais são de acordar ao som dos vinis. O gira-discos dos meus pais estava no meu quarto e logo pela manhã ouvia um disco que muitas vezes escolhia na noite anterior. Daí ao primeiro rádio-relógio foram poucos anos. Gostava de acordar com música diferente e assim mudava de estação todas as noites. A surpresa de uma música nova e diferente dava a energia para o dia. Hoje ao acordar ouço sempre um disco diferente, de um estilo diferente. Ontem ouvi esta:

https://www.youtube.com/watch?v=Ggy1ytdJYQM

B

de Beatles.

Não me lembro quando foi a primeira vez que os ouvi, provavelmente porque deve ter sido antes mesmo de nascer, mas sei que ainda ontem os ouvi. Com eles aprendi o que é melodia e harmonia. Com eles cheguei mais facilmente a outros B’s (Beethoven com Because por exemplo) e ouvi um ensemble de cordas em Eleanor Rigby, bem antes de conhecer quartetos que fazem parte da História da Música. Se apenas pudesse ficar com um disco para o resto da vida, seria dos Beatles.

https://www.youtube.com/watch?v=ODIvONHPqpk

C

de Canções.

É a forma mais simples e a mais antiga. Sempre foi a minha preferida, seja ela de Schubert ou de António Mafra, tenha ela poema de Apollinaire ou de Aleixo. Canção remete-me para Comunicar, que também começa por C. E lembro-me como se fosse hoje do dia em que o meu tio me mostrou a Construção do Chico, uma das canções perfeitas da minha vida.

https://www.youtube.com/watch?v=JnOAYO8aOrU

D

de Debussy.

Que ar fresco quando o descobri! A primeira obra que ouvi foi o Prélude à l’après midi d’un faune e tudo ali me pareceu mágico. Depois foram os prelúdios para piano e só parei depois de conhecer a obra toda. Debussy é o principal culpado de eu me sentir muito mais próximo da música escrita em França do que de qualquer outra.

https://www.youtube.com/watch?v=E5Y7mbfS5r8

E

de Educação.

Nunca pensei que a palavra educação estivesse tão presente na minha vida. De um momento para o outro instalou-se no meu dia-a-dia de forma bem visível. O que é educação? Quanto mais leio, mais ouço, mais faço por ter uma resposta directa para a pergunta, menos sei, menos consigo definir, mais me enredo nas palavras. Resta-me pensar naquilo que sou enquanto pai, naquilo que faço enquanto coordenador de um serviço educativo, pensar que Exemplo e Educação não têm apenas o E em comum e citar a minha querida amiga Assumpció Malagarriga, responsável pelo Serviço Educativo do l’Auditori de Barcelona durante muitos anos: “educar é a arte de aprender sem ser ensinado”.

https://www.youtube.com/watch?v=1Xm6liKGPpg

F

de Forma.

A forma na música sempre me interessou muito, sobretudo nos compositores que a contrariam – ou brincando com ela ou lutando contra ela. Forma traz-me à memória as aulas de composição que tive no Conservatório com o professor Fernando Lapa e, passados uns bons anos, aquelas que dei em vários locais. Do tempo de aluno aqui fica aqui uma das obras analisadas e que na altura muito me surpreendeu.

https://www.youtube.com/watch?v=myTFlb9cfCw

G

de Guillaume Dufay.

No Coro do Conservatório, com o professor Francisco Melo, tive o contacto com uma música que para mim era completamente nova e muito mais fascinante: a polifonia renascentista. Na realidade, naquele tempo, nos conservadores corredores do Conservatório soava apenas música compreendida entre dois séculos, do século XVIII ao fim do século XIX. Até Debussy era quase um sacrilégio. Por isso, foi uma experiência revolucionária cantar aquela música antiga que fugia às regras tonais. Dufay foi apenas um dos muitos compositores que descobri nessa altura. Ainda hoje, mais depressa ouço música vocal da Renascença do que uma sinfonia clássica.

https://www.youtube.com/watch?v=6mcxEtyEUw4

H

de Humor.

Does humor belong in Music? É claro que sim. Tenho-o nas veias e procuro colocar em tudo o que faço. E com o humor tantas vezes compreendi as coisas tidas como muito sérias.

https://www.youtube.com/watch?v=MzXoVo16pTg

I

de Igor Stravinsky.

Não consigo dizer muito sobre um músico que está presente em toda a melhor música do século XX. Até as suas brincadeiras são melhores que as dos outros:

https://www.youtube.com/watch?v=OJAEepA0nPk

J

de John Cage.

Não sei se Cage é mais compositor ou filósofo. A verdade é que com a ajuda dele, obra musical e não só, saltei para fora daquela cerca apertada que até aí era, para mim, a música. Everything we do is music.

https://www.youtube.com/watch?v=bE7wrqxK-Ks

K

de Köln Concert.

Não deverá haver muita gente da minha geração que não tenha ouvido o registo do concerto de Keith Jarrett em Colónia. Foi a minha porta para os jazzes desta vida. Continua a ser um disco a que volto com regularidade. Muitos anos depois conheci toda a história que esteve por detrás do concerto e fiquei a admirar ainda mais aquele disco e a genialidade de Keith Jarrett.

https://www.youtube.com/watch?v=1FqH9mtxJnQ&t=4s

L

de Luigi Nono.

O primeiro disco com música para fita magnética que comprei era com obras de Luigi Nono. Gravar, editar, manipular o som sempre me fascinou muito e em casa, desde pequeno, brincava com um pequeno gravador de fita do meu pai. Depois, com a música electrónica e com o professor João Pedro Oliveira, aprendi que podia criar sons de instrumentos que não existem. E hoje lamento não ter mais tempo para trabalhar com música electrónica.

https://www.youtube.com/watch?v=NU5BIpVN6I4

M

de Música e de Meio.

Entre A e Z estamos no meio. E no meio está a virtude. A música é isso mesmo: a virtude. É também o alfa e o ómega. É o princípio e o fim deste alfabeto. É o meu princípio e o meu fim.

https://www.youtube.com/watch?v=xERitvFYpAk

N

de Notação.

É extraordinário termos uma forma de comunicar baseada em traços, hastes, sinais, pequenas bolas ora preenchidas, ora em branco. Esta concretização em símbolos de algo tão abstracto como a música, com dez séculos, mais coisa menos coisa, dá-nos hipótese de ouvir a música escrita há muito tempo e deixar música escrita para daqui a muitos anos alguém ler. No entanto, a notação é só isto: uma forma de comunicar, um meio e nunca um fim. Por vezes assusta-me perceber que muitos olhem para a notação como o objectivo, sobretudo quando me lembro que muitos dos maiores músicos que já ouvi e com quem tive o privilégio de trabalhar não sabem ler uma pauta. Para então ficar bem claro, notação é bom? É. É música só por si? Não!

https://www.youtube.com/watch?v=bE7wrqxK-Ks

O

de de Olivier Messiaen.

De visita a Paris, em 1990, entrei na Sainte-Trinité e fiquei ali uns minutos hipnotizado a ouvir um senhor de idade bem avançada a tocar órgão. Claramente estava a improvisar. Horas mais tarde garantiram-me aquilo que não achei que fosse possível: era mesmo o Messiaen. É um dos compositores que está no meu altar-mor.

https://www.youtube.com/watch?v=eCO7le_6LzU

P

de Porto.

Todas as cidades têm características próprias, a sua identidade. A minha cidade deu-me e continua a dar-me muito, pela forma como é, tantas vezes, pioneira e criativa. Os músicos do Porto, compositores ou instrumentistas, da música clássica ou da pop, não são melhores nem piores que os outros. Mas muitos são diferentes, talvez porque carregam aquilo que a cidade lhes dá. E é bom viver numa cidade que tem uma identidade tão marcada.

https://www.youtube.com/watch?v=PWjqTwsGFD8

Q

de Qualidade.

A palavra está gasta e mal a ouvimos associamo-la a fumeiro, construção civil ou dotes futebolísticos. Habitualmente não a uso, mas tento que esteja sempre presente. O pior que pode acontecer, quando por exemplo planeamos um projecto com uma determinada comunidade, é sermos condescendentes. O nosso esforço deve visar sempre a obtenção de um nível artístico alto, valorizando o que de melhor as pessoas nos podem dar enquanto artistas e assegurando, pela originalidade e pela criatividade, que aquele projecto não é replicável por outros. É isso que o torna bom, que lhe confere qualidade. E a qualidade garante-nos que podemos ir ainda mais longe.

https://www.youtube.com/watch?v=mA0zefMvsMI

R

de Requiem.

Há muito que Requiem deixou de ser “apenas” a missa de defuntos, com fins litúrgicos. É uma grande forma musical explorada por crentes ou ateus e associada à morte, ao sofrimento, à perda. A morte nunca é um tema fácil, sobretudo quando se trata de crianças. Em 2010 assisti no La Monnaie a um projecto extraordinário onde o Requiem e o tema da morte foram trabalhados em três escolas públicas: uma católica, uma muçulmana e uma judaica. O resultado musical de um projecto verdadeiramente intercultural teve o nome de “The Brussels Requiem” e foi dirigido artisticamente por Howard Moody.

https://vimeo.com/15354450

S

de Som da Rua.

Quando fizemos o nosso primeiro ensaio, em Outubro de 2009, não pensei que passados nove anos ainda existisse o projecto, nem muito menos que ele me tivesse ensinado tanto. Sobre o Som da Rua pouco mais posso dizer. Quem não sabe bem o que é, aconselho uma pesquisa.

https://www.rtp.pt/play/p2183/e218228/sons-da-rua

T

de Tropical.

Não tenho como disfarçar, nem faço por isso. Os meus pais nasceram em Manaus, Brasil, e eu cresci influenciado por toda a cultura do país tropical. Antes de Amália Rodrigues ouvi Orlando Silva, antes de Zeca Afonso ouvi Chico Buarque, antes de José Cid ouvi Roberto Carlos. Antes de Vergílio Ferreira li Jorge Amado, antes de Fernando Namora li Érico Veríssimo. O meu pai, que veio para Portugal em meados dos anos 60, trouxe uma colecção de vinis que ainda hoje é um tesouro para mim. São os meus primeiros discos, são os românticos brasileiros e os pais da Bossa Nova. É pau, é pedra, é Nelson Gonçalves, é Elis Regina. E é Vinícius e muito Tom, que por acaso também começa por T.

https://www.youtube.com/watch?v=srfP2JlH6ls

U

de Uirapurú.

Esta obra de Villa-Lobos foi seguramente o primeiro poema sinfónico que ouvi. Foi um dos muitos vinis trazidos pelo meu pai do Brasil e remete para a Amazónia e para o canto de um pássaro da selva. Na flauta ouvi o Uirapurú e aprendi que uma orquestra pode ter as cores da natureza.

https://www.youtube.com/watch?v=Wgh8CzHPKok

V

de Voz.

Primeiro e último instrumento. Uma constante descoberta. E com a voz divirto-me a cada concerto das Vozes da Rádio, o meu ginásio físico-espiritual. Por isso mesmo, nada como recuar vinte e muitos anos, rever a nossa primeira aparição televisiva e perceber que o digital pode imortalizar coisas de que não nos importávamos de esquecer.

https://www.youtube.com/watch?v=1wMC5_mSSVY

W

de Walt Disney.

Algures no início dos anos 70 vi no cinema Águia Douro os filmes da Disney que por lá passaram. A Fantasia foi um deles e com Walt Disney tomei contacto com alguma da música de que um dia viria a gostar. Foi com ele também que um dia vi a Aurora Miranda a dançar com o Zé Carioca e o Pato Donald. Obrigado Sr. Walt, que também esteve na minha educação para a música.

https://www.youtube.com/watch?v=DcMhRfwmnL4

X

de Xiquitsi.

É o projecto da minha amiga Kika e a forma que ela encontrou de intervir no seu país. A música também é isso mesmo, uma poderosa ferramenta de intervenção, que pode ajudar na mudança social, na inclusão. Há felizmente cada vez mais projectos que têm a música como meio de mudança, seja ela a clássica, a popular, feita com instrumentos de orquestra, com percussão, com guitarras. Na realidade, o meio não é o mais importante. O fim, sim. A todos os Xiquitsis deste mundo, muito obrigado.

https://www.youtube.com/watch?v=Y6x2f-dcA_g

Y

de Yes.

O rock progressivo dos anos 70 está também muito presente na minha vida. O álbum “Close to the Edge” ainda hoje toca lá por casa. A complexidade de muitos dos arranjos bem como todo o enquadramento conceptual de muitos dos discos deste período fascinam-me. Yes, Emerson, Lake & Palmer, Jethro Tull, Triumvirat, Camel, Genesis, Pink Floyd e tantos outros fizeram parte da minha educação musical.

https://www.youtube.com/watch?v=BcDU-vilgic

Z

de Zappa.

É certo que há poucos Z’s para lhe fazerem concorrência mas também é verdade que eu teria muito bons argumentos para o colocar em qualquer letra deste alfabeto. Zappa é tudo: alegria, festa, loucura, humor, desassossego, crítica, ironia, sarcasmo, virtuosismo, imprevisibilidade, surpresa, riqueza sonora. É e será sempre inspiração.

https://www.youtube.com/watch?v=nBGQ1xVroqk

De A a Z para a Música na Educação... por Luís Tinoco

Luís Tinoco

Luís Tinoco [n.1969, Lisboa] formou-se em composição na Escola Superior de Música de Lisboa. Mais tarde, no Reino Unido, fez um Mestrado em Composição na Royal Academy of Music e doutorou-se pela Universidade de York. Combina a sua atividade de compositor com o ensino, exercendo funções docentes na ESML.

Enquanto programador e divulgador musical, destaca-se a sua colaboração com a Antena 2 da RTP como autor e produtor de programas radiofónicos e como diretor artístico do Prémio e Festival Jovens Músicos.

Como compositor, desempenha o cargo de Compositor Residente no Teatro Nacional de S. Carlos e, na temporada de 2017, foi Artista Associado da Casa da Música.

O seu catálogo inclui obras vocais e música de cena como “Search Songs” (2007) – para soprano e orquestra, com textos de Alexander Search; “From the Depth of Distance” (2008) – para soprano e orquestra, com textos de Walt Whitman e Álvaro de Campos; “Evil Machines” (2008) – uma fantasia musical com libreto e encenação do Monty Python Terry Jones; “Paint Me” (2010) – uma ópera de câmara com libreto de Stephen Plaice e encenação de Rui Horta; “Passeios do Sonhador Solitário” (2011) – uma cantata com libreto de Almeida Faria; e “Lídia” (2014) – um bailado com coreografia de Paulo Ribeiro, encomendado pela Companhia Nacional de Bailado (CNB).

Trabalhos orquestrais recentes incluem “Cercle Intérieur” (2012) – estreada pela Orquestra Filarmónica da Radio France; “Concerto para Trompa” (2013) – estreado no 45th International Horn Symposium; “FrisLand” (2014) – estreada pela Orquestra Sinfónica de Seattle; “Incipit” (2015), para orquestra sinfónica – composta para celebrar os 450 anos da fundação da cidade do Rio de Janeiro e estreada pela Orquestra Sinfónica Brasileira; “O Sotaque Azul das Águas” (2015), co-encomendada pela Orquestra Gulbenkian e pela Orquestra Sinfónica Estadual de São Paulo (OSESP), e “Concerto de Violoncelo” estreado por Filipe Quaresma e a Orquestra Sinfónica Portuguesa (2017).

A música de Tinoco é publicada no Reino Unido pela University of York Music Press e está disponível em dois CDs monográficos gravados pela Orquestra Gulbenkian (Naxos 8.572981, 2013) e pelo Ensemble Lontano (Lorelt 121, 2005).

Outras peças de câmara estão disponíveis em gravações comerciais pelos agrupamentos Arditti String Quartet, Apollo Saxophone Quartet, QuadQuartet, Quarteto Vintage, Galliard Ensemble, Le Nouvel Ensemble Moderne, Sond’Ar-te Electric Ensemble; Royal Scottish Academy Brass, e por Pedro Carneiro.

Para mais informações e exemplos musicais, consulte:

http://www.tinocoluis.com e http://www.uymp.co.uk/composers/luis-tinoco

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de Antena 2.

Um refúgio (como ouvinte) e uma casa com a qual me orgulho de colaborar semanalmente.

B

de Bernardo Sassetti.

Quem nos deixa Inquietude como esta (https://www.youtube.com/watch?v=9Lr21vQYBqo ) merece figurar em qualquer A a Z.

C

de Casa da Música.

Outro refúgio incontornável. Um contributo inestimável para o Porto (e para o país).

D

de Drumming Grupo de Percussão.

Completa 20 anos em 2019. Sinto-me feliz e privilegiado pelos meus vários encontros com estes músicos durante duas décadas. E antecipo, com expectativa, alguns reencontros para breve.

E

de ESML.

A minha alma mater e local de trabalho onde vou testemunhando o talento e empenho de tantos alunos e colegas. Vivemos um momento musicalmente feliz, com muitas promessas (e confirmações). Na ESML, tal como em muitos outros estabelecimentos de ensino da música em Portugal.

F

de Facing You.

Um dos meus álbuns de referência, desde que o descobri (ainda em vinil) em casa dos meus pais. Em miúdo, entretinha-me a fazer filmes de animação com bonecos de plasticina, musicados com faixas deste álbum. Os bonecos derretiam com o calor das lâmpadas mas o Keith Jarrett assegurava a temperatura certa para o resultado final (https://vimeo.com/33334363 )

G

de Gulbenkian. Outro refúgio incontornável. Um contributo inestimável para Lisboa (e para o país).

H

de Um Homem na Cidade.

Uma das minhas primeiras aulas de composição. Com a vantagem de viver debaixo do mesmo tecto do professor. (https://www.youtube.com/watch?v=710khuPvq_Y )

I

de Inspiração, Intérpretes.

Dois ingredientes fundamentais para os cozinhados de um compositor.

J

de Jobim.

Um compositor que cozinhava com os melhores ingredientes: https://www.youtube.com/watch?v=zS64Qy6774Q.

K

de Das wohltemperierte Klavier.

Os inquéritos A a Z costumam incluir uma pergunta sobre o que levaríamos para a tal ilha deserta. Aqui está a minha bagagem.

L

de Ligeti. Um grande mestre, uma fonte de inspiração inesgotável.

M

de Mallarmé e Maurice.

Quando a escrita de texto literário e de texto musical se juntam para nos encher a alma com obras como esta: https://www.youtube.com/watch?v=UPdsPhSQy58

N

de Notação.

O que se encontra entre a ideia e a prática. Más opções podem resultar em grandes obstáculos.

O

de Orquestra.

Um instrumento maravilhoso, com possibilidades inesgotáveis.

P

de Prémio Jovens Músicos.

Há 32 anos a descobrir novos talentos e a apoiar o que de melhor se faz nas nossas escolas de música.

Q

de Quartetos de Cordas.

Outro instrumento maravilhoso e, no contexto deste inquérito, um excelente pretexto para não deixar de fora o nome de Bartok.

R

de Remix Ensemble.

Desde a sua criação, uma referência incontornável da música contemporânea nacional, com um reconhecimento crescente (muito merecido) além-fronteiras.

S

de Sagração da Primavera.

Como já gastei o trunfo da “ilha deserta” com a alínea “K”, resta-me esperar que a organização deste inquérito me autorize a inclusão de mais uma partitura na mala de viagem…

T

de Teatro Nacional de S. Carlos.

Entrei neste teatro, pela primeira vez, em 1979 para integrar o elenco da "Trilogia das Barcas” de Joly Braga Santos. Atualmente, tenho a honra e alegria de colaborar com esta casa como compositor residente e de poder acompanhar de perto alguns projetos educativos notáveis, com sede nos Estúdios Victor Córdon.

U

de University of York Music Press.

Uma editora fundada em 1995 por Bill Colleran e David Blake e, também, uma família a que me orgulho de pertencer desde 2005.

V

de Variações Sinfónicas.

Neste A a Z eu tinha de arranjar maneira de não deixar de fora a música de Lutoslawski…

W

de Wozzeck.

Para não cair na fatalidade de associar o “W” a Wagner, aqui fica uma referência a uma das obras-primas da ópera do século XX. Também podia ser Lulu… mas já gastei o “L” com o criador de Le Grand Macabre…

X

de Xanax.

Ferramenta muito útil para enfrentar o primeiro ensaio de uma nova composição (apenas em caso de S.O.S, entenda-se).

Y

de You Must Believe in Spring.

Outro dos meus álbuns de referência. E também não podia deixar Bill Evans de fora. (https://www.youtube.com/watch?v=FTlKzkdtW9I )

Z

de Frank Zappa.

Um indivíduo notável, não só pela qualidade da sua música mas, também, pelo seu humor, irreverência e coragem.

Descobri-o pela mão do meu amigo e colega compositor Carlos Azevedo, que me deu a conhecer o belíssimo álbum The Yellow Shark. Concluo esta lista com um documento precioso, gravado em 1963 no programa televisivo The Steve Allen Show. (https://www.youtube.com/watch?v=1MewcnFl_6Y )

De A a Z para a Música na Educação... por Manuel Rocha

Manuel Rocha

Manuel Rocha nasceu em Coimbra, em 1962. Licenciado em "docência de violino e músico de orquestra" (CEM Gnessin de Moscovo, URSS, 1988). É, desde 1988, professor de violino no Conservatório de Música de Coimbra, tendo ali exercido funções de diretor entre 2005 e 2017.

Como músico, em registo sonoro ou em palco, trabalhou sobretudo nos ambientes da chamada música popular portuguesa, com nomes como a Brigada Victor Jara (de que é membro desde 1977), Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, Fausto, Vitorino, José Medeiros, Mísia, Filipa Pais, Carlos do Carmo, entre outros. Paralelamente, tem atividades de diversa natureza, de que destaca a série de documentários para a RTP sobre a música tradicional portuguesa, realizada a partir da série de Michel Giacometti e Alfredo Tropa "Povo que Canta". Colaborou com grupos de teatro, registou música (bandas sonoras) para cinema e televisão.

Integrou dois grupos de trabalho do Ministério da Educação para a reforma do Ensino Artístico Especializado, o último dos quais viria a fundamentar o desenho curricular em vigor. Fez parte da comissão organizadora do Festival 1001 Músicos. Foi indicado pelo Ministério da Cultura (2011) para integrar o grupo de trabalho junto da Comissão Europeia responsável por definir “O papel das instituições artísticas e culturais na promoção de um melhor acesso e de uma participação mais ampla na cultura. Sinergias entre a cultura e a educação, com destaque para a educação artística”.

Desenvolve atividade associativa, sindical e política, sendo dirigente sindical, membro da Assembleia Municipal de Coimbra e da Assembleia da CIM-Coimbra.

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de Arte.

Acontece quando se percebe aquilo de que é feito o mundo e se quer representá-lo. Para as crianças é idioma natural se encontrado desde o berço, para os artistas é exercício continuado. Em educação é utensílio de emancipação.

B

de Brincar.

A mais séria das ferramentas de conhecer o mundo, seus habitantes e existências. Dizia o Pintor ter “demorado oito anos a aprender a pintar como no Renascimento, e a vida inteira a aprender a pintar como as crianças”. Longa vai a discussão nos lugares da pedagogia, acerca de como fazer com que a vontade de aprender a arte dos sons (e as áreas todas do conhecimento) contenha os ingredientes da brincadeira, cruzados com os da vontade de saber.

C

de Cantar.

Maneira de fazer muita Música sem precisar de bens materiais. Entretanto alguém inventou administrativas flautas (belíssimo e malfadado instrumento) e outras complexidades; e esqueceu-se, por instantes apenas, de como se cantava nas rodas do recreio e nos trabalhos do campo. É urgente cantar mais.

D

de Dança.

É quando a vibração da música vai além da agitação das moléculas que compõem o corpo humano e faz despontar emoções sob a forma de gestos; ou como disse Balanchine “é a música que pode ser vista”.

E

de Escola.

Um lugar da educação, o único de que se espera tudo (até a perfeição). Enredada entre o que se quer (e pode) transmitir e o que se quer (e pode, e sabe) apreender, a Escola é a última fronteira da dignidade, desde a consciência de si até à dádiva do pão (quando falta em casa).

F

de Forma musical.

Processo pelo qual a música reflete as Civilizações (o jogo dos humanos e a sua relação com a Natureza) e as representa. A forma musical está sempre presente na educação musical, desde a cantiga de embalar à compreensão da obra mais complexa. A forma musical reproduz as configurações do que existe e do que haja para existir.

G

de Giacometti, Michel Maria (1929-1990).

Corso e etnólogo, escolheu ser sepultado em Portugal. Das sabedorias dos humanos, a de que mais se encantava era a música. Disse um dia que o que mais o seduzia na música deste povo eram os romances transmontanos e as polifonias minhotas, sinais das nossas habilidades mais preciosas. Graças a Michel Giacometti, e a poucos outros, vamo-nos despegando da alergia que o Portugal musical do Secretariado de Propaganda Nacional nos provoca ainda. Falta levar o seu trabalho às nossas escolas.

H

de Harmonia.

Para o senso-comum concórdia, para a música combinação (mesmo quando parece haver sonora discordância). Em matéria de educação é o mais sério dos assuntos, pois cantar e tocar “a vozes” é a expressão musical da valorização das diferenças e seus dotes de complementaridade.

I

de Improvisação.

Aquilo que o músico pode fazer quando sabe a música de cor. De veleidade mal-aceite (mesmo tendo sido recurso essencial da música antiga) passou a incensada qualidade nestes nossos tempos de provectas novidades. Mas não é uma coisa nem a outra, porque a invenção das notas não é nem menos, nem mais excelente do que a sua interpretação. Em música, o fazer é sempre criação.

J

de Jazz.

Escreve-se com “J” mas poder-se-ia escrever com “I”, a letra de “improvisação”. É Música “séria”, mais por mérito próprio do que por condescendência de quem a queria apartada. O Jazz é uma enciclopédia – distintas formas e estilos captam cultores em todo o mundo, muito além da Nova Orleães em que nasceu. É, a par da música “clássica” e da música da tradição oral, um testemunho maior da invenção sonora da Humanidade. Para os grandes compositores ocidentais o Jazz nunca foi um problema, mas só há pouco chegou às escolas do ensino artístico especializado (Conservatórios) onde vai fazendo o seu caminho.

K

de Kabalevsky, Dmitry Borisovich (1904-1987).

Compositor soviético e destacado pedagogo, professor catedrático no Conservatório Tchaikovsky de Moscovo. Considerava que a tarefa central do professor de música é a de levar os jovens a perceber emocionalmente a música enquanto fenómeno integral da vida, apaixonando-os pela arte dos sons. Para tal, criou uma didática da Expressão Musical, revendo curricula e programas a partir da convicção de que a educação de qualidade baseia-se sempre na utilização de recursos de qualidade. Por essa razão defendeu a promoção, em ambiente educativo, da música da tradição oral e dos grandes compositores da História da Música.

L

de Lopes-Graça, Fernando (1906-1994).

Compositor de muita música para as finalidades todas do Portugal do século XX, desde a inscrição nas correntes estéticas europeias até à criação “ao gosto popular”. O pensamento, a escrita opinativa e a obra musical de Lopes-Graça não fazem concessões ao “facilitismo” popularizante, mas interessam-se pela inscrição nas vidas das pessoas, como se prova pelo elevado número de cantores, profissionais e amadores, que viveram a sua obra coral. É que, como diz um dos estudiosos da obra de Lopes-Graça, “ainda que a sua música seja reputada de ‘difícil’, o certo é que não se aprende a gostar de café bebendo cevada”.

M

de Músico.

Aquele que exerce a música como profissão e aquele a quem se reconhece autoridade nesse domínio. Em Portugal, “músico” pode ainda ser sinónimo de vigarista, porém habilidoso, o que significa – ainda que pelo avesso – reconhecimento pela complexidade da função, e respetivo conteúdo sedutor. Em Portugal, nem sempre nos ficamos pelo essencial.

N

de Notas musicais.

As que antes de o ser (dós e sóis) já o eram (sons). No meu tempo de criança eram instrumento de tortura sob a forma de leitura “rezada”, coitadas – despidas de som, sem préstimo musical, reduzidas à condição do seu nome reconhecido numa austera parede de cinco linhas e quatro espaços. Ainda há quem as ensine assim, mas são muitos mais os que as apresentam como pigmentos do grande mural que é a Música.

O

de Orquestra Geração.

“Mais do que Música tocamos vidas”, diz de si mesmo o Projeto Orquestra Geração. É polémico, como tudo o que existe ao lado de existências, mas quem o frequenta (as tais vidas tocadas) considera-o essencial. Tem conhecido expansão sobretudo na área metropolitana de Lisboa, mas já motivou o aparecimento de projetos semelhantes um pouco por todo o país. Lugar de educação.

P

de Polifonia.

Cantar “a vozes” é coisa de que os portugueses gostam. Educar para a diversidade – também nas “fonias” das nossas escolas – também é revelar o bom resultado que se obtém quando, em ambiente de remar para o mesmo lado, nos dá para cantar a muitas vozes.

Q

de Quarteto.

Quando nos passar a febre das orquestras escolares havemos de descobrir os “etos” todos. E descobriremos certamente que educar em entusiasmo coletivo não depende da quantidade dos envolvidos, mas sim da capacidade de, ouvindo-se a si mesmo, conseguir ouvir os outros.

R

de Ruído.

É sempre aquilo que se sobrepõe (e impõe) aos sons de que se gosta e precisa, e ao silêncio também. A cada qual a sua definição de ruído, que pode ser música de elevador, som do martelo pneumático rasgando o alcatrão, superêxito cançoneteiro das manhãs da TV, playlist de loja de pronto-a-vestir. Como definir “ruído” com precisão quando, tantas vezes, tão bem se disfarça de Música?

S

de Silêncio.

“Nunca interrompas o silêncio se não for para o melhorar” (Beethoven).

T

de Textura (musical).

A tela da música, ponto de partida para as descobertas dos pigmentos, dos contornos, dos significados. Recurso educativo, portanto.

U

de Ut (queant laxis).

Dó, em início de vida.

V

de Valores.

A tarefa central da educação, também na educação musical, ali onde se revelam existências que, inevitavelmente, resultam em escolhas. Os valores da educação musical são os éticos, os morais, os estéticos, os culturais – a música que se fará é a sua expressão sonora.

W

de Wolferl.

Até a Mozart calhou ser criança. Quando, aos 6 anos de idade, se apresentou pela primeira vez em público, era pelo nome de Wolferl que respondia. Músico completo e genial, agente educativo tanto pelo que foi (a obra) como pelo que se disse ter sido (e se escreveu, contou e filmou).

X

de Xilofone, Xenákis, xotiça.

O Xis é a letra do alfabeto em que a escolha de termos musicais é quase descobrimento. Um instrumento de percussão, um compositor grego, uma dança popular de origem escocesa - afinal não é coisa pouca.

Y

de Yankelevitch, Yuri (1909-1973).

Pedagogo soviético, professor de violino no Conservatório Tchaikovsky, educou violinistas como Viktor Tretyakov, Grigori Zhislin, Pavel Kogan, Mikhail Kopelman, Vladimir Spivakov, Tatiana Grindenko, entre muitos outros. Publicou trabalhos metodológicos e de análise musical do reportório violinístico.

Z

de Zumbidor.

Instrumento musical constituído por uma pequena placa de madeira que se faz girar na ponta de um cordel. Emite um som semelhante ao do trovão, ao longe. É, em muitos lugares do mundo, um instrumento sagrado, mensageiro de divinas vozes, relacionado com rituais iniciáticos. É a prova de que um instrumento (qualquer que seja) nunca é apenas o som que emite, o encantamento que gera - é também os relatos de que é portador. Recurso educativo, mais um.

De A a Z para a Música na Educação... por Cristina Brito da Cruz

Cristina Brito da Cruz

Completou o Curso Superior de Piano (EMCN), a Licenciatura em Engenharia Civil (IST), uma Pós-graduação em Pedagogia Musical (Kodály Institute - Hungria) e o Mestrado em Ciências Musicais, no ramo de Etnomusicologia (UNL).

Começou nos anos 70 a lecionar formação musical (FM), piano, harmonia e acústica na Academia Luísa Todi, e nos anos 80 lecionou na Academia de Amadores de Música e no Conservatório Nacional. É docente na Escola Superior de Música de Lisboa desde 1991, coordenando actualmente a Variante de Composição, Direção e Formação Musical da Licenciatura em Música e presidindo ao Conselho de Representantes. Foi Presidente do Conselho Pedagógico e do Conselho Técnico Científico da ESML (2001 a 2015).

Tem colaborado nas áreas de formação de professores e de investigação com a ESMAE, Universidade Nova de Lisboa, ESELx, Universidade de Aveiro, Universidade Católica do Porto, Instituto Piaget de Almada, conservatórios, escolas de música e outras instituições, como a APEM, a DRC Açores, o Centro Nacional de Cultura, o Museu da Música Portuguesa, a Fundação Calouste Gulbenkian, vários centros de formação e outras instituições. Tem orientado workshops em Portugal, Espanha, Bélgica, Hungria e Cabo-Verde, e participado em projetos da Yehudi Menuhin Foundation (Bruxelas) e da Association Europeénne des Conservatoires (Utrecht) desenvolvidos em vários países europeus (Portugal, Espanha, França, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Suécia, Alemanha, Suíça, Áustria, Hungria, Itália, Malta, Grécia e Turquia). Os artigos que publicou no âmbito da Educação Musical e da Etnomusicologia estão disponíveis no Repositório do Instituto Politécnico de Lisboa.

Com Helena Vaz da Silva fundou a Associação Yehudi Menuhin Portugal (27/01/2000), sendo actualmente membro da Direção presidida por Guilherme de Oliveira Martins. Propôs, com Manuela Encarnação, a criação do Centro Kodály de Portugal (CKP), integrado na APEM. Após aprovação da Assembleia Geral (7/7/2017), foi nomeada Directora do CKP. O governo húngaro agraciou-a com uma Cruz de Mérito em Outubro de 2017.

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de Avós, de Afectos, de Audição, de Artur Santos.

Porque tudo se liga! Os meus avós, os vossos avós, os avós dos nossos filhos, nossos pais, pela importância que tiveram e têm nas nossas vidas, porque o passado é importante para a construção do futuro; os afetos pela importância que têm na nossa relação com a música, nas nossas memórias familiares, nas de mestres, de alunos, de colegas, de amigos, daqueles com quem fizemos e ouvimos música.

A audição musical, audição interior, audiação e a audição ativa, as capacidades de saber ouvir, de sentir, reagir e compreender a música que “imaginamos”, que ouvimos e que fazemos, capacidades de compreender e de nos relacionarmos com os outros.

O Professor Artur Santos (1914-1986), que foi durante 7 anos meu professor de composição, no Conservatório Nacional. Compositor e “folclorista científico” seguiu as orientações teóricas de Kodály e Bartók, tal como Lopes Graça, sendo um dos precursores da etnomusicologia em Portugal. Defendi a dissertação de mestrado em etnomusicologia na UNL, sob a orientação de Salwa Castelo-Branco, com o título Artur Santos e a Etnomusicologia em Portugal (1936-1969).

Pode ser consultada em:

https://run.unl.pt/handle/10362/15218

B

de Bartók (Béla Bartók 1881-1945), o pianista, o compositor, o etnomusicólogo, o amigo de Kodály, o húngaro nascido na atual Roménia que se exilaria nos Estados Unidos, atravessando o Atlântico a partir de Lisboa.

O génio que Fernando Lopes Graça conheceu em Paris e a quem não conseguiu dirigir palavra, o génio sobre cuja obra Lopes Graça escreveria como ninguém, aqui em Portugal.

Bartók, o emigrado que viveu em Nova Iorque com grandes dificuldades económicas e a quem outros músicos geniais encomendaram obras para o ajudar a sobreviver, como Joseph Szigeti e Benny Goodman (1940, Contrastes, para violino, clarinete e piano), Yehudi Menuhin (1944, Sonata para violino) e Sergei Kussevitzki, regente da Orquestra Sinfónica de Boston (1944, Concerto para Orquestra, composto em sete semanas).

Bartók acabou a revisão do Concerto para Orquestra em Fevereiro de 1945, já diagnosticado com leucemia. Morreria a 25 de Setembro desse ano, longe da sua Hungria, onde um ano antes os ocupantes alemães tinham sido substituídos pelos ocupantes soviéticos.

Em Junho de 1988 os restos mortais de Bela Bartók foram trazidos para o cemitério de Buda, por decisão dos seus filhos, Béla e Peter Bartók.

Bartók:Contrasts For Violin,Clarinet&Piano-Szigeti,Goodman&Bartok (YouTube)

Bartók: Sonata for violin Tempo di ciaccona Yehudi Menuhin (YouTube)

Bartók: Concerto for Orchestra Koussevitzky/3D Sound (gravação de 1944 no YouTube)

C

de Centro Kodály de Portugal (CKP), criado a 07/07/2017 na Assembleia Geral da APEM, presidida pela Professora Teresa de Macedo.

Em 1975, um grupo de professores e alunos húngaros foram trazidos a Portugal, pela então Diretora da APEM, Maria de Lourdes Martins, para realizarem classes de demonstração. Em 1986/87 as primeiras estudantes portuguesas frequentaram o Instituto Kodály em Kecskemét (cidade natal de Kodály) que tinha sido visitado por Lopes Graça no ano da sua inauguração em 1975: Rosa Maria Torres e eu, seguidas quatro anos depois por Fátima Antunes, que vive em Macau.

Orientei a primeira ação de formação Kodály em 1988, na Academia de Amadores de Música, a convite da APEM. Nos quase 30 anos que decorreram desde então orientei dezenas de ações de formação, por todo o país.

Em 1998, a Rosa Torres publicou um livro sobre a adaptação da metodologia Kodály ao caso português. A partir de 2008, com a mobilidade permitida pelo programa Erasmus, um estudante da Universidade de Aveiro, uma estudante da ESE do Porto e cerca de 40 alunos da Escola Superior de Música de Lisboa frequentaram o Instituto Kodály. A partir de 2008 organizei visitas de estudo de uma semana (com 70 alunos e professores envolvidos) e uma dezena de portugueses frequentaram os International Kodály Seminars, em Kecskemét, onde também lecionei de 2009 a 2013.

Existindo finalmente um corpo de profissionais com formação Kodály, decidiu-se criar o CKP que tem como objectivos:

“1. Divulgar a filosofia Kodály nas áreas da investigação, etnomusicologia, educação, composição e performance da Música.

2. Promover ações de formação, seminários, publicações, encontros de coros, concertos e outras iniciativas artísticas, científicas e/ou pedagógicas que se enquadrem nas competências do CKP.

3. Apoiar e acompanhar músicos, investigadores e professores que desenvolvam ou queiram desenvolver projetos com base na filosofia Kodály.”

http://www.apem.org.pt/centro-kodaly-portugal/

D

de Dalcroze (Émile Jacques-Dalcroze 1856-1950), o pai dos métodos ativos de pedagogia musical, criador do método conhecido como A Rítmica de Dalcroze (Eurhythmics) e personalidade fundamental para divulgação do Solfejo Cantado como técnica de aprendizagem.

Em Portugal, ficará ligado a esta metodologia o legado da Professora Margarida de Abreu, bailarina e professora de Ballet que estudou com Dalcroze na Suíça.

https://dalcrozeusa.org/index.php/history

International Conference of Dalcroze Studies, Canadá, 2017

E

de Escola Superior de Música de Lisboa (ESML), a “minha casa” há mais de 20 anos.

Visitem o site e venham aos concertos da escola, se gostam de ouvir repertório para solistas, música de câmara, coros, orquestra de cordas, orquestra de sopros, orquestra sinfónica, de ópera, de combos e de Big Band de Jazz, de música antiga até à contemporânea, de música eletroacústica ou mista, com estilos e géneros ecléticos, mas todos de grande qualidade musical e artística.

https://www.esml.ipl.pt/

F

de Filhos, porque o contexto em que se nasce e se vive nos molda e nos proporciona experiências únicas e gratificantes. Orgulho-me do percurso dos meus três filhos. A do meio (Maro) está a iniciar uma carreira musical:

https://www.facebook.com/marianaforjazsecca/

G

de Gulbenkian, de Graça e de Gordon pela sua importância na música na educação em Portugal.

Calouste Sarkosian Gulbenkian (1869-1955) transformou a vida cultural em Portugal através da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), criada em 1956.

Comecei a estudar música na FCG aos cinco anos (1964), frequentando os Cursos de Iniciação Musical (Raquel Simões), as aulas de Piano (Vitória Reis), de Instrumental Orff (Maria de Lourdes Martins), de Flauta de Bambu (Inês Mazoni) e o Coro Infantil (Leonor Moura Esteves).

Edgar Willems vinha regularmente a Portugal orientar a formação destes nossos (então) jovens professores. Orff veio assistir a aulas de Maria de Lourdes Martins, dadas em Setúbal. Nós, as “crianças da Gulbenkian” tivemos uma formação inicial de exceção e não admira que tantos, agora na casa dos 50 e 60 anos, sejam músicos e professores de música.

Ao longo dos anos, e muito graças a Madalena Perdigão, que foi também presidente da APEM, a FCG foi organizando seminários com os mais proeminentes pedagogos: para além de Willems e Orff, foi na fundação que conheci Edwin Gordon e Murray Schafer, por exemplo. E os Encontros anuais da APEM são realizados nas instalações da fundação.

É também de elementar justiça lembrar a importância do Coro e da Orquestra Gulbenkian, bem como a do saudoso Ballet Gulbenkian, e os milhares de concertos sinfónicos, de câmara e dos melhores solistas mundiais que, nestes mais de 60 anos, a fundação tem proporcionado.

https://gulbenkian.pt/

https://gulbenkian.pt/fundacao/calouste-sarkis-gulbenkian/

Fernando Lopes Graça (1906-1994), que conheci na Academia de Amadores de Música onde leccionei nos anos 80 integrando, com Alexandre Branco Weffort, a Direção Pedagógica presidida por Paulo Valente Pereira, foi uma das personalidades de referência da cultura musical do século XX em Portugal. Weffort publicou o livro A Canção Popular Portuguesa em Lopes Graça (2006) que vale a pena ler.

Em 2016, e numa escala mais modesta, publiquei o artigo “Música, Educação e Cultura, segundo Lopes Graça”, disponível em:

http://repositorio.ipl.pt/handle/10400.21/6767

Edwin Gordon (1927-2015), o pedagogo e doutorado em Psicologia da Música que conheci logo na sua primeira vinda a Portugal em 1995, trouxe-nos aprendizagens musicais destinada a recém-nascidos, uma sólida Teoria de Aprendizagem Musical, o enfoque em “como se aprende” e não apenas em “como se ensina” e a sua personalidade absolutamente cativante.

Em 2015 foi criado em Lisboa o Instituto de Aprendizagem Musical Edwin Gordon (IAMEG), por um grupo que incluía a Professora Doutora Helena Rodrigues, da Universidade Nova de Lisboa, a quem devemos a introdução da metodologia em Portugal.

https://www.giamusic.com/bios/edwin-gordon

http://cesem.fcsh.unl.pt/event/workshops-teoria-de-aprendizagem-musical-de-edwin-gordon

H

de Hungria, pela gratidão que tenho a este país por tudo o que lá aprendi, por tudo o que os meus alunos lá aprenderam, pelos músicos extraordinários que conhecemos e com quem fizemos música, pelos amigos de todo o mundo que ali fizemos e também pela Cruz de Mérito do Estado Húngaro, com que fui agraciada a 13 de Outubro de 2017 nas comemorações da criação do Centro Kodály de Portugal.

Se estão a contemplar estudar na Hungria, vale a pena consultarem os sites da Academia Liszt e do Instituto Kodály:

http://zeneakademia.hu/en/home e http://www.kodaly.hu/

I

de Imaginar. Visualizar imagens e movimentos, ouvir sons e palavras, planificar ações, improvisar e criar, imaginando. Imaginar futuros, criar equipas e laços, construir.

Sem imaginação somos menores e provavelmente menos felizes. São sinónimos de imaginar [https://www.sinonimos.com.br/imaginar/]:

“sonhar, fantasiar, criar, conceber, idealizar; elaborar, traçar, planejar, idear, inventar, projetar; achar, prever, supor, prognosticar, presumir, pressupor, julgar, conjecturar, crer, acreditar; concluir, identificar, saber, descobrir, atinar; refletir, pensar, meditar, cismar, considerar.” Pois então, imaginemos!

J

de ! Porque é mesmo importante não procrastinar, não adiar, não deixar nada para depois.

K

de Kódaly (Zoltán Kódaly 1882-1967). Vale a pena verem o vídeo “Safeguarding of the folk music heritage by the Kodály concept”, da Unesco (YouTube), de que transcrevo as palavras iniciais:

“Yehudi Menuhin summarized the significance of Zoltán Kodály’s life work as follows: He left three living monuments to his Homeland and to Mankind: his musical compositions, the folk-music research he completed jointly with Béla Bartók and last, but not least, his new method of teaching music to children.

Let music belong to everyone! But how can we make it widely accessible? This is the question I have been pondering since I reached the mezzo del cammin, or the midway point of my life - wrote the 70 years old Kodály in the dedication of an anthology of his writings.

The world renown Hungarian composer, ethnomusicologist, Professor of Composition of the Hungarian Academy of Music, former President of the Hungarian Academy of Sciences, later, President of the International Folk Music Council and Honorary President of the International Society for Music Education, and granted Honorary Doctorates by numerous universities, considered facilitating the accessibility of all strata of society to the possibilities and benefits of Music Education to be his most urgent task. Starting in the mid 1920s together with former students and enthusiastic school music teachers, he revolutionized the Music Education system, in Hungary.”

E, se puderem, ouçam algumas das obras que Kodály compôs, como por exemplo:

Janos Starker - Kodály Cello Solo Sonata

Kodály Girls’ Choir – Mountain Nights (Hegyi Ejszakak)

Kodály: Dances of Galánta / Fischer, Berliner Phiharmoniker

Zoltán Kodály: Psalmus Hungaricus, Op. 13, Kertész, London Symphony Orchestra

L

de Literacia musical. Porque ouvir música não pode ser apenas um embalo de quem ouve uma linguagem exótica que não percebe de todo; porque cantar não é aprender música como um papagaio que repete o que lhe ensinam, sem sentir, nem perceber o significado musical do que repete; porque tocar é mais do que a repetição mecânica de gestos até à exaustão.

Formemos pessoas cultas, que saibam ouvir e cantar e, de preferência, tocar. Que saibam ler uma partitura como sabem ler um livro, em silêncio, também. Formemos músicos e amadores cultos e conhecedores, que valorizem e atribuam sentido à música que prezam.

M

de MÚSICA PARA TODOS, num processo de aprendizagem que as crianças devem começar cedo, cedíssimo: de preferência “desde que a avó está grávida da mãe”, como disse Kodály.

Música que fruímos ouvindo, cantando, tocando ou dirigindo. Música nas obras que estudamos, que aprendemos, divulgamos e ensinamos, nas obras compostas ou improvisadas.

A música de que vivemos, com quem convivemos por vontade própria e/ou por obrigação profissional, por prazer ou porque não poderia ser doutro modo, nem quereríamos que o fosse.

E música para todos no MUS-E, Musique à l’École - Artistas na Escolas, na sua versão portuguesa - o projeto de Yehudi Menuhin que em Portugal começou em 1996, sob a minha coordenação e que continua, graças ao esforço de tantos, em escolas de meios económicos desfavorecidos, levando semanalmente a expressão dramática, músicas e danças, de diferentes culturas e tradições, a muitas crianças do pré-escolar e do 1º ciclo.

N

de NÃO! Não desistir de sonhar, não recuar perante as adversidades, não acreditar em impossibilidades, não desanimar, não aceitar o inaceitável, não ir contra os nossos princípios, não parar de aprender, não perder a curiosidade, não deixar de acreditar.

O

de Orff (Carl Orff 1895-1982), o compositor e pedagogo que criou a Orff Schulwerk adaptada em Portugal por Maria de Lourdes Martins. O lugar de destaque que este compositor atribuiu à improvisação, na pedagogia musical, e que é atualmente muitas vezes relegada para segundo plano por muitos dos que se dizem seguidores do método de Orff. O Instrumental Orff que podemos encontrar na maioria das escolas de música e nas escolas do ensino genérico e que é provavelmente o aspecto mais visível da Orff Schulwerk. Muitas vezes a aprendizagem musical feita através da execução do Instrumental Orff está condicionada à leitura ou à execução de motivos e ostinatos que o professor ensina a cada criança. A improvisação deixou nesses casos de ser a atividade privilegiada de quem usa o instrumental Orff, num claro desvio dos princípios inicialmente formulados. No Instituto Orff, sediado na cidade austríaca em que nasceu Mozart, Salzburgo, leccionam-se currículos anuais e cursos de verão onde se aprende o método de acordo com os princípios do seu criador.

http://www.orff.de/en/institutionen/orff-institute.html

P

de Portugal, um país com um passado de 878 anos que tem de investir na educação e na cultura para ter um futuro melhor.

O reino nascido em 1139 e reconhecido pelo tratado de Zamora a 5 de Outubro de 1143, que teve Afonso Henriques como primeiro rei e o jovem D. Manuel II como último rei, depois do regicídio de 1 de Fevereiro de 1908.

O país em que a República foi implantada também a 5 de Outubro, mas de 1910. O país em que o regime do Estado Novo durou 41 anos, iniciando-se em 1933, com os ideais de Salazar concretizados numa Constituição, e terminando com a Revolução dos Cravos, a 25 de Abril de 1974.

Em 1986, Portugal foi o 12º Estado a integrar a União Europeia, que atualmente é constituída por 28 países.

O português é a sexta língua mais falada do mundo depois do chinês, do espanhol, do inglês, do hindu e do árabe. Quase 270 milhões de pessoas são cidadãs de países que têm o português como língua oficial. São 9 os países que pertencem à CPLP, em 4 continentes: o Brasil, Moçambique, Angola, Portugal, a Guiné-Bissau, Timor-Leste, a Guiné-Equatorial, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe, aqui ordenados por número de habitantes. Também se fala português em Macau, agora parte integrante da China. Que percentagem de portugueses conhecerão todos estes dados?

https://www.cplp.org/

Q

de Quem é quem? O extraordinário e colossal trabalho de investigação de uma numerosa equipa de especialistas que resultou na publicação pelo Círculo de Leitores dos 4 volumes da Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX, sob a Direção da Professora Doutora Salwa Castelo-Branco (2010), permite-nos conhecer músicos, colectores e estudiosos, instrumentos, festividades, géneros performativos e tradicionais, campos de estudo, instituições e, com grande probabilidade, tudo o que procurarmos sobre músicos, musicologia e etnomusicologia em Portugal no Século XX.

São “mais de 1200 entradas, cerca de 1500 páginas (360 por volume), 550 fotografias, índice temático e onomástico” (informação da página do INET-md).

No IV volume encontramos ainda o capítulo “Do século XX ao século XXI: processos, práticas musicais e músicos emergentes”, de leitura obrigatória.

http://www2.fcsh.unl.pt/inet/publicacoes/enciclopedia/pagina.html

R

de Revistas da especialidade. A Revista Educação Musical da APEM que “pretende continuar a ser um marco distintivo no panorama da música e da educação do nosso país, através da publicação de artigos científicos, reflexões sobre boas práticas, reportório original para a infância, notícias importantes para professores, músicos e investigadores, ou recensões de livros, entre outras coisas.” Para além da revista, de publicação anual, a APEM publica online uma Newsletter mensal e artigos de opinião.

http://www.apem.org.pt/publicacoes/newsletter-da-apem.php

A Revista Glosas, do Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa (mpmp), fundada em 2010, que “é a única revista no mundo dedicada exclusivamente à música de compositores lusófonos. Preenchida, entre outras, por diversas notícias, críticas, artigos científicos, crónicas e entrevistas sobre o meio musical lusófono, cada número homenageia um compositor em particular, destacando-o na capa e dedicando um largo número de páginas à sua vida e obra.”

https://pt.wikipedia.org/wiki/Glosas

http://mpmp.pt/edicoes/glosas/

A Revista Portuguesa de Musicologia. Portuguese Journal of Musicology que “é publicada online duas vezes por ano e inclui dossiers temáticos e artigos de investigação, assim como recensões de livros, fonogramas e outros suportes digitais. O português e o inglês são as línguas preferenciais, mas a revista aceita igualmente artigos em espanhol, francês e italiano.”

http://rpm-ns.pt/index.php/rpm/index

S

de Suzuki, de Schafer, e de Swanwick, pedagogos de três continentes, conhecidos e respeitados mundialmente. De Shin’ichi Suzuki (1895-1995) saliento a aprendizagem instrumental com o apoio parental, por imitação, de ouvido, em aulas individuais ou de grupo, e também os concertos com centenas de crianças e jovens violinistas que o japonês autor de Nurtured By Love: A New Approach to Education (1969) organizava, e que o popularizaram em todo o mundo.

A Academia de Música de Lisboa e o trabalho de Filipa Poejo e da sua equipa, com a orquestra Os Violinhos, são um bom exemplo de aplicação do método Suzuki em Portugal.

Inicialmente aplicado à formação de violinistas, o método foi progressivamente sendo adaptado para a aprendizagem de outros instrumentos musicais.

http://internationalsuzuki.org/shinichisuzuki.htm e https://europeansuzuki.org/

http://www.violinhos.net/orquestra.html

Murray Schafer (n. 1933) é mundialmente conhecido pelos seus criativos Soundscapes, pela valorização do silêncio e pelas novas formas de ouvir e de improvisar que defendeu. O compositor e pedagogo canadiano é autor de livros como The Composer in the Classroom (1965), The New Soundscape (1968), When Words Sing (1970) ou The Tuning of the World (1977) e foi o mentor e coordenador do World Soundscape Project da Simon Fraser University (SFU).

Listen (escucha) Murray Schafer (YouTube)

(sobre o World Soundscape Project)

Keith Swanwick (n. 1937), o britânico que defendeu a tese de doutoramento Music and the Education of the Emotions (1974), e que publicou Music, Mind and Education (1988) e Teaching Music Musically (1999), por exemplo, mundialmente conhecido como editor do British Journal of Music Education e como o primeiro Chairman do British National Association for Education in the Arts (1987). De referir ainda a sua Teoria da Espiral do Desenvolvimento Musical e a formulação estruturada do CLASP (Composition-Literacy-Appreciation-Skills-Performance). Tem trabalhado em Portugal em estreita colaboração com o Professor Doutor José Carlos Godinho, professor coordenador da ESE de Setúbal.

http://www.imerc.org/people/18-professor-keith-swanwick

T

de Torres, Rosa Maria (1998) As Canções Tradicionais Portuguesas no Ensino da Música. Contribuição da Metodologia de Zoltán Kodály. Lisboa: Caminho. Um livro que dou a conhecer a todos os meus alunos de Pedagogia Musical e que tem uma coleção de mais de 60 músicas tradicionais portuguesas, analisadas e organizadas metodologicamente, é útil para vários níveis dos ensinos genérico e especializado da música.

http://www.apem.org.pt/associacao/noticias/index.php?post_id=81

U

de Universidades e da sua relação com os Institutos Politécnicos, os dois sistemas de ensino superior em que se aprende música em Portugal. Testemunhar sobre o tratamento preferencial que o Estado português dá às Universidades, por exemplo relativamente ao financiamento dos cursos de música, ou às carreiras docentes e sua remuneração, às condições dadas à investigação e à mobilidade internacional, aos anos sabáticos concedidos ou impossíveis de conseguir. Relembrar a legislação publicada à altura da criação dos cursos de música nos Politécnicos que pressupunha entregar os estudos teóricos de música às Universidades e os práticos aos Institutos Politécnicos. Constatar que atualmente as Universidades também têm ofertas educativas em Performance, e ainda bem. Constatar que, pelo menos em Lisboa, duas Universidades têm Doutoramentos na área da performance em que, maioritariamente, os responsáveis pelas Unidades Curriculares de Performance são professores do Politécnico (Escola Superior de Música de Lisboa). Perceber que a distinção entre universidades e politécnicos é clara, em muitos aspetos, e nada clara, em tantos outros. Sentir que há em Portugal um ensino superior que os nossos governantes consideram de 1ª, e outro que consideram de 2ª, sem que sejam critérios de qualidade a justificar a distinção que nos é imposta. Como docente do Politécnico acredito que melhores dias virão, por uma questão de justiça e até de bom senso.

V

de Vianna da Motta (José Vianna da Motta 1868-1948), menino prodígio, protegido do rei D. Fernando e da Condessa d’Edla, pianista virtuoso, e um dos últimos alunos de Liszt (1811-1886), a partir de 1885, e de Hans von Bulow (1830-1894), em 1887.

Viveu em Berlim e em Genebra, fez digressões europeias e tocou nos EUA, no Brasil e na Argentina, a solo e com músicos como Sarasate, Bernardo Moreira de Sá ou grandes cantores. Como compositor utilizou a música tradicional e textos de autores portugueses em obras que compôs (na Sinfonia à Pátria, por exemplo) e influenciou alguns compositores portugueses das gerações seguintes, na senda do nacionalismo no âmbito da composição.

Foi Diretor do Conservatório Nacional, depois de se instalar definitivamente em Lisboa (1917) e professor de várias gerações de pianistas portugueses, de que destaco Sequeira Costa, Luiz Costa e sua filha Maria Helena Sá e Costa (neta de Bernardo Moreira de Sá), Maria Cristina Lino Pimentel e Fernando Lopes Graça. Vianna da Motta publicou numerosos artigos em revistas portuguesas e alemãs.

(artigo de Teresa Cascudo)

José Vianna da Motta (1868-1948): Valsa caprichiosa (YouTube)

José Vianna da Motta (1868-1948): Liszt - Totentanz (1 of 2)

W

de Ward de Willems, de Wuytack três importantes pedagogos, influentes também na educação em Portugal.

Justine Ward (1879-1975), é a única mulher que integra o grupo de pedagogos de referência na Iniciação Musical. A talentosa pianista americana - filha de William Bayard Cutting, um dos fundadores da Metropolitan Opera Company de Nova Iorque - veio com 25 anos para França estudar Canto Gregoriano, conheceu Dalcroze, fez recolhas de música tradicional e teve uma enorme influência no sistema de educação musical americano, através dos manuais para o ensino da música que publicou. O Instituto Gregoriano de Lisboa fez formação de professores e utilizou este método durante muitos anos, com grande sucesso, até por Júlia Almendra, a fundadora do Centro de Estudos Gregorianos ter feito o Curso Ward, em Paris. Em 1950 realizou-se a I Semana do Canto Gregoriano. As Semanas de Estudos Gregorianos continuam a realizar-se, anualmente, agora sob a direcção da Professora Doutora Idalete Giga que foi docente na Universidade de Évora e que traduziu os manuais de Justine Ward para português.

http://centroward.wixsite.com/centrowardlisboa

Edgar Willems (1890-1978) cunhou o conceito de Iniciação Musical (Initiation Musicale pour les tout petits). Pelo número de anos que trabalhou com docentes portugueses, a convite da Fundação Gulbenkian, e até por ter sido o primeiro pedagogo a fazer sistematicamente formação de professores em Portugal, marcou profundamente várias gerações de professores de música. Raquel Simões ficará para sempre ligada à adaptação para Portugal do método, bem como professoras como Salomé Leal e Ana Maria Ferrão, Luísa Gama Santos, Teresa Lancastre e muitos outros que obtiveram o Diploma de Educação Musical Willems.

https://www.fi-willems.org/pt-PT/

Jos Wuytack (n. 1935), pedagogo belga que no verão de 2017 deu o seu 45º e último curso em Portugal e que é “autor de diversos livros e artigos sobre educação musical, publicados em vários países”, também contribuiu para o desenvolvimento da Educação Musical em Portugal. O seu livro Canções de Mimar, dedicado às crianças, foi editado em seis idiomas. “A sua contribuição mais original para a moderna pedagogia musical, o sistema de Audição Musical Activa, destinado ao ensino da apreciação musical e baseado na metodologia do musicograma, foi editado em neerlandês (1972), francês (1974), português (1995) e espanhol (1996)”. De salientar a ação de divulgação deste método em Portugal feita pela Professora Doutora Graça Boal Palheiros, professora coordenadora da ESE do Porto, coautora de alguns dos livros de Wuytack editados em Portugal e fundadora da Associação Wuytack de Pedagogia Musical.

http://www.awpm.pt/

X

de Xenakis, que com a sua obra Cendrées para coro e orquestra, encomendada pela Fundação Gulbenkian e dirigida em 1974 por Michel Tabachnick no Grande Auditório da fundação, me proporcionou um primeiro contacto com organizações de sons que eu nunca tinha ouvido, muito menos cantado. Era na altura uma adolescente, membro do Coro Infantil Gulbenkian, e senti medo daquele estrangeiro com uma enorme cicatriz na face que veio assistir a alguns ensaios. Também senti o deslumbramento de fazer parte de algo importante, grande, enorme. Para qualquer criança/adolescente a experiência de fazer música num grande ensemble vocal e/ou instrumental é extraordinariamente marcante. Aqueles de nós que passaram pelo Coro Infantil da Gulbenkian, sob a direção da Sra. D. Leonor Moura Esteves, saberão exatamente a que me estou a referir. Atualmente há uma profusão de coros infantis, por todo o país, a fazerem um trabalho de grande qualidade e que têm uma visibilidade crescente. Os que são agora pais de crianças e jovens, que aproveitem a oportunidade de proporcionar aos seus filhos experiências riquíssimas que eles nunca esquecerão e que contribuirão para o seu desenvolvimento musical, individual e social.

Y

de Yehudi Menuhin (1916 – 1999) o chamado “Violon du Siècle” que conheci pessoalmente enquanto maestro, pedagogo e extraordinário humanista, em 1996, e que mudou radicalmente a minha maneira de ver a Educação e me aproximou de comunidades escolares com muito pouco acesso às artes. Entre o mundo do ensino especializado - em que eu tinha começado a estudar aos 5 anos e a leccionar aos 17 anos (1977) – e o contexto da Escola Nº 1 de Algés, onde iniciámos o MUS-E e que era frequentada por crianças de 12 países (mas maioritariamente descendentes de cabo-verdianos que viviam na Pedreira dos Húngaros) quase nada era comparável. Entre esses dois mundos existiam abismos que eu tive de atravessar voando e com pouca preparação para o fazer. Vieram depois escolas como a da Quinta do Alçada (Évora), a de Marrazes (Leira) ou a do Cerco (Porto) e fui aprendendo.

No MUS-E contei com a ajuda de pessoas extraordinárias, pelo seu saber-estar, pelo conhecimento da sua arte e pela sua dedicação a uma causa maior. Os seminários internacionais com Lord Menuhin (Budapeste, Perpignan, Bruxelas e Altea) também me proporcionaram experiências maravilhosas, tal como os encontros de coordenadores dos 12 países então com projetos MUS-E.

Ouço muitas vezes gravações de Yehudi Menuhin tocando grandes obras de música erudita, ou de outras músicas, com Ravi Shankar e com Stéphane Grappelli, vejo gravações de entrevistas, leio o que escreveu. Se puderem, visitem os sites:

Yehudi Menuhin - Violin of the Century

Who's Yehudi? - Yehudi Menuhin BBC documentary

Indian Classical Music : Ravi Shankar, Alla Rakha and Yehudi Menuhin Trio

Menuhin e Oistrack, Duplo Concerto de Bach.

Z

de Zoltán Kódaly (1882-1967), sim, outra vez, com um grande sorriso, por tudo o que proporcionou nos últimos trinta anos de carreira profissional, em escolas de música um pouco por todo o país, no continente e nos Açores, em Cabo Verde e, é claro, na Hungria. Também pelas obras musicais que compôs, por tudo o que escreveu e pelo que fui conhecendo dele, através de um seus dos grandes amigos, Yehudi Menuhin. E uma referência final a Sarolta Kodály, sua segunda esposa, actual presidente da International Kodály Society (IKS) e que tenho prazer de conhecer: por tudo o que tem feito pela educação de húngaros e de pessoas de tantos outros países, de todo o mundo, pelo apoio dado a pesquisas etnomusicológicas e pela divulgação de compositores húngaros, promovendo concertos e apoiando a publicações de partituras.

https://www.iks.hu/

De A a Z para a Música na Educação... por Helena Rodrigues

Helena Rodrigues

Helena Rodrigues é professora do Departamento de Ciências Musicais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Investigadora do Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical, fundou o Laboratório de Música e Comunicação na Infância.

Efetuou estudos de Doutoramento com Edwin Gordon, divulgando a sua teoria de aprendizagem musical desde 1994. Colwyn Trevarthen é outra relevante influência no seu trabalho. Com uma formação de base nas áreas da Psicologia e da Música, tem se interessado também pelas áreas do teatro físico e dos efeitos terapêuticos da música. O conjunto destes e outros saberes tem-na levado a formular uma proposta original de formação, visando contribuir para uma melhoria dos cuidados na infância. Foi Researcher Fellow da Royal Flemish Academy of Belgium for Science and the Arts.

É diretora artística da Companhia de Música Teatral. Coordenou o projeto Opus Tutti, coordenando atualmente o projeto GermInArte, ambos financiados pela Fundação Calouste Gulbenkian. Autora de publicações de natureza diversa, é frequentemente convidada para apresentar conferências e workshops em Portugal e no estrangeiro.

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de afecto. Ou de Atalaya. Ou de amor. É quase só o que faz falta na educação. Desde os primeiros anos de vida ao ensino superior. Breve história: “ - Aprendi muito com aquela professora! Ela até me ensinou a usar desodorizante!”. Com o Maestro José Atalaya muitos despertaram para a música com ele. Tenho-o procurado. Ninguém sabe dele. Por onde andam os nossos afetos?

B

de Bebé Babá. Um projeto que me transformou. Um projeto que ajudei a construir depois de ter ouvido o seu nome, soprado por uma voz íntima. Depois das sombras dos primeiros gestos criativos (a criatividade é quase sempre uma superação da penumbra), tudo foi luminoso: equipa fantástica, o acaso a trazer novas ideias, música a brotar naturalmente de corpos rompidos por instintos maternais. Uma vontade de viver espelhada num canto coletivo refletindo a afirmação de uma das Mães: “Sinto que já não somos apenas as Mães ou os Pais dos nossos filhos, mas de todos os bebés aqui presentes”.

A primeira edição deste trabalho aconteceu em 2001. Em 2008 foi realizada uma edição especial no Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo para mães reclusas e seus bebés. Sobre esta edição está disponível o documentário https://vimeo.com/45629362 (Password: BetterWorld)

C

de Companhia de Música Teatral. De muita gente - Ver http://www.musicateatral.com ;
Ver também: https://vimeo.com/cmusicateatral

D

de disciplina. É quase só o que faz falta na educação.
Lembrado por Berry Brazelton, cuja passagem por Portugal devemos ao pediatra João Gomes Pedro.

E

de Encontro. Encontro Internacional Arte para a Infância e Desenvolvimento Social e Humano. Vai na VII edição. Um espaço de reflexão e partilha. Ver: http://www.musicateatral.com/germinarte/

F

de Ferrão. Ana Maria Ferrão. Presença linda no mundo da música para a infância. Diplomada com o Curso Superior de Piano, Ana Maria Ferrão estudou com Willems, tendo sido professora na antiga Escola do Magistério Primário e na Escola Superior de Educação de Lisboa. Muitos educadores e músicos foram ou continuam a ser formados por si. Tocados pelo seu estilo delicado, doce e sabiamente focado no essencial. Coautora de Sementes de Música. Ver: https://www.wook.pt/livro/sementes-de-musica-paulo-ferreira-rodrigues/205152

G

de Gordon. Edwin Elias Gordon (1927-2015), autor do que é comummente designado como “teoria de aprendizagem musical”.
Muito à frente do seu tempo nas ideias sobre a aprendizagem musical de recém-nascidos e crianças em idade pré-escolar. Conheci-o em 1994, tendo tido o privilégio de ter realizado estudos de doutoramento sob a sua co-supervisão. Grande mestre e amigo, as suas ideias têm influenciado uma parte significativa do trabalho do Laboratório de Música e Comunicação na Infância do CESEM e da Companhia de Música Teatral.
Entre 1995 e 2008 apresentou regularmente as suas ideias em encontros e seminários em várias cidades portuguesas (e também na Galiza). Marcou uma geração de estudantes e professores que hoje se distinguem pelo relevo dado à improvisação e à construção de um “pensamento musical” próprio. Marcou e continua a marcar as práticas musicais e artísticas do nosso País.

H

de Helena Sá e Costa. Piano. Presença. Professora. Mestre. Um sorriso ao subir da escada. Recordação boa, suave. O ensino para além do tempo de vida. Escola

I

de imaginação. Há muito, muito tempo, um menino disse: “basta um pinguinho de imaginação para se fazerem coisas espetaculares!” https://run.unl.pt/bitstream/10362/12568/1/Spidaranha_imaginacao.pdf

J

de Jorge. De Jorge Parente e do seu trabalho de corpo e voz. Um trabalho cheio de musicalidade e de abertura à Vida. Ver: http://jorgeparente.com.

K

de Kundera. “A insustentável leveza do ser” de Milan Kundera marcou as leituras da minha juventude. Agora, depois do tempo se ter encarregue de arrumar o argumento nos subterrâneos da memória, lembro-me de uma escrita orquestrada com sonhos e música evocada pelo autor.

L

de Lyl. Na casa de Lyl Tiempo moram vários pianos. Crescem no meio de buganvílias cor-de-rosa, tocados pelos filhos (os pianistas Sergio Tiempo e Karin Lechner), pela neta (a pianista menina prodígio Natasha Binder) e muitas crianças que aí dão os primeiros passos na arte de amar a Música. Na casa vizinha, moram os pianos de Martha Argerich. Imagino que também estes floresçam no meio de buganvílias, outras flores e trepadeiras ligando a terra e o céu. O filme “La calle de los pianistas” dá-nos conta desse privilégio tão especial que é fazer música com a família e os amigos. Trailer em: https://www.youtube.com/watch?v=mUtF-AASTzk

M

de McFerrin. Só voz e corpo. A essência. A frugalidade. Tanta música só na presença! O equivalente, talvez, ao que no teatro ficou designado como “teatro pobre”. Ver, por exemplo, com a nossa Maria João: https://www.youtube.com/watch?v=4boy-eXQBHg

N

de NOAH. Criação da Companhia de Música Teatral (CMT) com estreia em Outubro de 2017, em coprodução com a Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão, o Cine-Teatro Alba e o Teatro Aveirense. O ponto de partida de NOAH é a história que a nossa cultura nos contou, a mesma da Arca de Noé: um mundo em desmoronamento devido à ação do Homem. Do ponto de vista musical, NOAH propõe uma viagem por vários territórios e sonoridades, revelando a Arca enquanto metáfora da convivência e da diversidade. Violoncelo, flautas, saxofone, eletrónica e vozes são alguns dos recursos sonoros e o discurso musical não hesita em mudar de rumo e tocar tanto em territórios prováveis como improváveis. A peça baseia-se no trabalho criativo que foi feito com a CMT-kids, com uma gestação final acolhida pelo Teatro Aveirense. Espelha a “voz” de cada uma das crianças/adolescentes envolvidas no projeto, emanando diretamente dos seus talentos e interesses num processo de “diálogo” com o compositor Paulo Maria Rodrigues.

O

de orelha. Uma palavra mágica. O-re-lha. Ooooo-éeeeee-áaaa. Uma palavra com forma de montanha. Uma palavra com forma de curva normal com um pequeno desvio à direita. Lembro-me bem de um dia a ter dito por acaso, e o meu pequeno músico, de cerca de ano e meio, a ter agarrado, ainda a vibrar no ar. Olhou-me com a doçura de um sorriso, como se do céu tivesse caído uma pérola sonora. Depois soletrou a palavra emergente, repetiu-a como quem entoa um mantra. É possível que nessa manhã, atolado nas cores de consoantes e vogais, não tenha ainda ligado o som ao objeto. Mas que importa? No instante daquele seu espanto revelou-me que a nossa primeira relação com a aprendizagem da língua materna é de ordem musical.

P

de Paluí. Mundo fantástico de Helena Caspurro. “Se queres saber o que é o Paluí... põe o teu dedo aqui:” https://www.youtube.com/watch?v=kyV-sS4iX5I

Q

de Quintana. Especialmente delicioso o seu “Poeminho do Contra”: Todos esses que aí estão/ Atravancando o meu caminho, / Eles passarão…Eu passarinho!”

R

de respeito. O que é o respeito pela cultura de outros povos? Oiçamos o som dos batuques num aerograma de António Lobo Antunes: http://3.bp.blogspot.com/-HZw5KPCPKCI/UIv06ogpOVI/AAAAAAAABa4/4JifcTiPvYE/s1600/aerograma2.jpg

S

de silêncio. Silêncio, a primeira condição para o nascimento da música. Silêncio, o lugar para onde converge a música que nos harmoniza. Que bom ficar à escuta seguindo o rasto da reverberação!

T

de Trevarthen. Colwyn Trevarthen, professor Emérito da Universidade de Edimburgo, é um dos mais destacados pioneiros do estudo da infância e da proto-comunicação.
A partir de estudos que mostram que a comunicação entre mães e bebés envolve padrões de tempo, pulsação, timbre e gesto que parecem seguir, de forma não intencional, muitas das regras que caracterizam a performance musical, Colwyn Trevarthen desenvolveu (em parceria com Stephen Malloch) o conceito de musicalidade comunicativa. De acordo com esta ideia, as primeiras comunicações humanas, estabelecidas entre os bebés e os que lhe estão próximos, regem-se sob uma organização intrínseca e simpática de movimentos e gestos (corporais e vocais), seguindo princípios de natureza musical. Em 2003, teve lugar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa um “encontro histórico” entre Edwin Gordon e Colwyn Trevarthen. Desde então, tem sido uma grande fonte de inspiração para o trabalho realizado no Laboratório de Música e Comunicação na Infância do CESEM e da Companhia de Música Teatral. É mentor honorário do projeto GermInArte. (http://www.musicateatral.com/germinarte)

U

de Ursa Maior. Professores, músicos e educadores de todo o Mundo!: - Reivindiquem o dever de ter tempo para contemplar a Ursa Maior!

V

de vocalização. O estudo de vocalizações de bebés é um fascinante tema de investigação, com implicações quer para o estudo da aquisição da língua materna (ou outra) quer para o estudo da aquisição da voz cantada. Ver, por exemplo:
https://doi.org/10.1177/0255761411408507
https://doi.org/10.1177/0305735617719335
Mas há ainda muito para descobrir no que diz respeito ao desenvolvimento vocal na primeira infância.

W

de Wagner. Depois de cantado, o tema do Tannhauser nunca mais nos larga. Fica dias seguidos a soar dentro de nós (fenómeno este a que a Psicologia da Música dá o nome de “brain worms” ou “ear worms”). Outras das suas obras são igualmente fantásticas. Mas, verdadeiramente, quando alguém evoca o seu nome, a memória que me chega primeiro é a da pequena estatueta preta que me deu a minha primeira professora de piano.

X

de Projecto X. Teve já várias edições, sobrevivendo à “incompreensão curricular”. Um trailer da edição de 2017 – https://vimeo.com/227909753 – dá uma ideia de como a arte pode oferecer espaços para a criação de universos onde as diferenças se esbatem e se procura a essência do que nos faz humanos. Espécie de manifesto por uma arte feita em comunidade e com capacidade de poder chegar a todos os indivíduos, independentemente da sua condição social, género, idade ou cultura.

Y

de d’Orey. Todo o dia procurei um y. Que não, ou não estava, ou não me servia, ou fugia espavorido com a minha pouca habilidade de me intrometer na vida organizada das letras. Foi então que decidi sair do trilho como sempre sucede quando estou em apuros. Custasse o que custasse haveria de encontrar um! Encontrei-o ao fim da rua, morada de Francisco d’Orey. Músico de muitas vidas a quem perdi os rastos. Não sei por onde encaminhou todas as letras do seu nome, mas bastou uma para me lembrar dele, do seu entusiasmo pela música e pela vida.

Z

de ZYG. ZYG de zigótico.
Útero-ovo-esqueleto-dinossauro-concha-barco-berço.
Ver: http://www.musicateatral.com/zyg

De A a Z para a Música na Educação... por Madalena Wallenstein

Madalena Wallenstein

Madalena Wallenstein, nascida em Lisboa em 1964, iniciou a sua formação, ainda em criança, no Movimento da Educação pela Arte, na Fundação Gulbenkian nos anos 70, nas áreas da música e do teatro. Estudou no Conservatório Nacional de Lisboa e licenciou-se em Educação.

Trabalhou desde 1987 como educadora artística, alternando a sua atividade entre contextos de criação artística, educação formal e não formal, intervenção pedagógica para crianças e jovens e ainda práticas para professores e artistas. Destaca-se o seu trabalho no Artemanhas, associação cultural que fundou e dirigiu até 2016 e a colaboração com a Fundação do Gil na conceção e coordenação artística da “Hora da Música”, projeto que se realizou em 28 pediatrias hospitalares em todo o país.

Desde 2008 que é a programadora e coordenadora da Fábrica das Artes do CCB. É através desta experiência que desenvolve um trabalho de investigação sobre programação para a infância, criação artística e públicos. Neste contexto, coordenou e foi coautora das publicações da Fábrica das Artes [CCB] “Se não havia, nada, como é que surgiu alguma coisa?”; “Raízes da Curiosidade – tempo de ciência e arte” e “Nós Todos Pensamos em Nós”. A sua atividade de pesquisa tem-se construído a partir da reflexão crítica sobre a experiência de transversalidade entre o campo artístico e o campo educativo e a exploração das potencialidades da educação artística como espaço específico da dimensão estética. Madalena Wallenstein é doutoranda em Educação Artística na Faculdade de Belas Artes do Porto.

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de arte, criada a partir de uma intencionalidade vital ligada à beleza, à surpresa, à sensibilidade, à inteligência, à crítica; criação que se desenvolve num processo divergente cujo resultado final é desconhecido à partida e que tem como objetivo provocar um abalo no óbvio, ou seja, espanto. A programação pode estimular, nos processos criativos, a consideração da perceção e atenção dos diversos públicos durante a receção artísticas. Na programação da Fábrica das Artes, desloca-se a ideia de uma arte didática, explicativa ou de entretenimento das indústrias culturais para a ideia de experiência de contemplação, fruição, experimentação e reflexão como oportunidade educativa da dimensão estética do ser humano que se faz no interior de uma arte qualitativa.

B

de Big Bang. Festival de Música e Aventura para públicos jovens é um festival europeu que integra catorze instituições europeias que se juntam com o objetivo de impulsionar a criação e a circulação de novos projetos de música para crianças e jovens da europa. No CCB, o Festival acontece em outubro e vai já na sua 8ª edição: Concertos, instalações, oficinas, Quarto dos Músicos, dentro e fora de portas. Propomos trazer para a programação uma diversidade de propostas que inclui música de qualidade de vários estilos – música antiga, jazz, erudita, eletrónica, rock, … na maioria das vezes colocada em cena na relação com outras linguagens: vídeo, luz, cenários.

C

de Comunidade Educativa seja ela efémera ou continuada e que se funda na experiência e valores partilhados e cooperados; um grupo comprometido em encontrar o que há de comum e de diferente entre os elementos que compõem essa comunidade e que toma isso em conta para que todos se realizem. Quando alguém se realiza isso é educação.

D

de dimensão estética, transversal a todos os seres humanos é desenvolvida na experiência, a experimentação, no conhecimento, na reflexão das linguagens artísticas e na sua relação com o mundo e com a inventividade. Acredito numa educação musical que navega entre a fruição e escuta, a técnica e a repetição, a improvisação e a criação, mas que sempre procura inspiração, poesia, rutura e novidade para construir a sua gramática e o seu arquivo.

E

de educação que conta com a cultura para se fundar porque é a cultura que transforma ensino em educação.

F

de fruição que acontece quando se suspende a noção de tempo cronológico para se entrar no tempo intensivo da arte. É fácil entrar nesse tempo de fruição quando se toca um instrumento com prazer ou se assiste a um concerto musicalmente extraordinário.

G

de gamelão. É um instrumento coletivo da Indonésia, das ilhas de Java e Bali constituído por um conjunto de metalofones, xilofones, kendang e gongos. O termo refere-se tanto ao conjunto de instrumentos como aos seus executantes. Na programação da Fábrica das Artes iremos apresentar um espetáculo música interativo de Elisabete Davis e Teresa Gentil “Larasati“ ou canções para adormecer Estrelas dirigido a crianças dos 0 aos 5 anos. Junta-se o gamelão, a voz e o piano preparado para reunir diferentes culturas e oferecer uma experiência sonora coletiva aos pequenos espetadores.

H

de harmonia, conceito que atravessa toda a história da música e as suas revoluções. Lembra que dois sons concordam em aparecerem juntos.

I

de infâncias. Este plural tem um sentido subtilmente disruptivo porque se propõe por em causa a infância como uma categoria que se agrupa por etapas e que tem de responder à apropriação e reprodução do conhecimento de um mundo que já estava cá antes da chegada dos novos, os que estão não param de chegar pelo nascimento. Este plural de infâncias também convoca a ideia de que o mestre se coloca no lugar de observador do outro que aprende, para aprender como esse outro aprende, para ir ao seu encontro, da sua individualidade e particularidade, porque se aprende inevitavelmente sempre que se quer aprender.

J

de jogo, como impulso lúdico da curiosidade e de desejo de mais saber é a condição essencial para a música na educação: o jogo da procura e das suas tentativas; o lúdico das experimentações; o imaginário do conhecimento e da sua descoberta; a aprendizagem dos processos melhores pelas buscas mais atentas e insistentes; os próprios riscos de tomar a alucinação pela invenção; ou a obsessão propósito - tudo aponta para o caminho da música na educação.

K

de Kalimba. É um instrumento musical pertencente à família dos lamelofones, sendo da categoria dos idiofones dedilhados. Muitos criadores musicais do universo da música experimental e eletrónica têm utilizado a Kalimba para integrar instrumentos inventados.

L

de liberdade e improvisação que pode ser aprendida desde o princípio. Começar logo na iniciação musical a improvisar e a criar a partir de motivos simples abre um caminho entre os vários caminhos a percorrer para realizar uma música na educação sólida. A improvisação é a floresta da música na educação.

M

de mini concertos - Música para Ti. É uma programação da Fábrica das Artes que se organiza por temas anuais. Já aconteceu música erudita; jazz; música do mundo; pop-rock; instrumentos improváveis; e na próxima edição, música da cidade. Trata-se de um espaço íntimo e próximo entre coloca os pequenos espectadores e seus acompanhantes e músicos. O concerto desenrola-se durante trinta minutos e, a seguir, os espectadores podem fazer perguntas e experimentar os dispositivos em cena, numa oportunidade jamais oferecida nas grandes salas.

N

de Niza, Sergio Niza. O pedagogo português que sempre me inspirou, seja na minha vida de professora de música, seja nos múltiplos contextos não formais em que desenvolvi a minha atividade profissional. Um dos Fundadores do Movimento da Escola Moderna, demonstrou sempre a firme convicção de que só a “organização cooperativa do trabalho criativo” pode romper positivamente com o problema maior dos projetos pedagógicos do Estado-nação – o da associação entre disciplina e liberdade. Os lugares de aprendizagem podem começar por ser lugares de democracia e de cidadania. Os instrumentos, procedimentos e filosofia utilizados pelo MEM podem ser aplicados em contextos de sala de aula de educação musical.

O

de Ouvido. Pensante é um livro de Murray Schafer de 1986 que integra uma série de textos sobre o seu trabalho experiencial em educação musical e soundscape desenvolvido em diversos níveis de ensino da música: “O compositor na sala de aula”; “Limpeza dos ouvidos”; “A nova paisagem sonora”; “Quando as palavras cantam”; “O Rinoceronte na sala de aula” e “Além da sala de música”. Schafer partiu da escuta de paisagens sonoras e a gama imensa de sons e conceitos que estas oferecem para refletir profundamente sobre conceitos musicais, para desenvolver atividades criativas e experienciais e propor uma nova pedagogia musical. Ver aqui: https://monoskop.org/images/2/21/Schafer_R_Murray_O_ouvido_pensante.pdf

P

de propagação sonora e exploração sensorial constituem-se como um campo muito interessante a explorar na música, na educação. Voltar ao “princípio” das coisas, aos fenómenos acústicos, re-significa a da paleta de efeitos musicais.

Q

de Quadros de uma Exposição. É uma peça escrita por Mussorgsky. Esta peça surgiu depois de um grande amigo do compositor, o pintor Hartman ter morrido. Mussorgsky escolheu dez quadros do seu amigo e compôs uma música para cada um deles. Este é um bom exemplo de como a inspiração para a criação surge de inquietações fortes e da experiência da vida e do mundo. Há um forte jogo entre a imagem dos quadros e os conceitos musicalmente explorados. Uma boa sugestão para o trabalho de criação na música na educação.

R

de reflexão. É um dos aspetos fundamentais da música na educação seja do ponto de vista de quem aprende seja de quem ensina. Refiro-me a espaço de diálogo sobre os processos ou sobre a experiência.

S

de símbolos artísticos. É o elemento essencial para a leitura de significados de qualquer espetáculo de música, dança ou teatro. O campo de leituras possíveis numa experiência artística leva a tantas significações quantos os espectadores da sala.

T

de teatro, como arte que se potência no encontro com a música, nos ambientes que se ampliam e nas emoções que provoca.

U

de U2. É uma banda de rock irlandesa fundada em 1976. A sua música foi influenciada pela música popular e que explorou o pós-punk. Os U2 através das suas letras de cariz político e poético são considerados musica de intervenção. Influenciaram muitas bandas do novo rock.

V

de Vygotsky. Foi um pensador russo que contribui com descobertas fundamentais sobre o desenvolvimento das crianças e a importância das interações sociais no desenvolvimento. Um dos conceitos mais importantes que influenciaram a pedagogia é “Zona de desenvolvimento proximal” e que explora a relação educativa. Debruçou-se também sobre a importância do jogo e um contributo fundamental foi o seu trabalho sobre pensamento, linguagem e leitura simbólica que abriu caminho para a compreensão das relações entre arte e educação.

W

de Walter Omar Kohan, um filósofo da educação que se tem dedicado à filosofia na infância. Parte da inversão do conceito de educação da infância para infância da educação, problematizando a relação pedagógica. Esta provocação propõe a infância dos inícios, das potências e dos devires e que derruba a parede de vidro que separa crianças, jovens e adultos para, assim, encontrar uma qualidade comum vibrante e espantada mas exigente também: “…infância é devir, sem pacto, sem falta, sem fim, sem captura; ela é desequilíbrio; busca; novos territórios; nomadismo; encontro; multiplicidade em processo; diferença; experiência. Diferença não-numérica; diferença em si mesma; diferença livre de pressupostos. Vida experimentada; expressão de vida; vida em movimento; vida em experiência.” (Kohan, 2003) Podemos também fazer a pergunta invertida: o que é ser adulto? À primeira vista pode parecer distante da educação musical. Penso que o questionamento a estes níveis pode fazer reequacionar a relação pedagógica e manter infantil o modo entusiasmado de fazer e pôr coisas no mundo da educação musical. Ler mais aqui: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/educacao/0184.html

X

de xilofone, o instrumento mais democrático na educação musical. O xilofone pode fazer tocar num conjunto instrumental o instrumentista mais virtuoso ao mais iniciador. A tarefa constitui-se fonte de foco e atenção mais apurada e de prazer musical individual e coletivo, convocando um esforço pessoal adequado à competência de cada um.

Y

de Yellow Submarine dos Beatles, uma obra já clássica da história do pop e um bom exemplo de como cruzamento de linguagens, neste caso a música e a animação, são um campo rico para a criação. Podemos perguntar o que terá nascido primeiro, a história ou a música, o filme ou a banda sonora? O desvendamento dos processos criativos é um espaço extraordinário para a música na educação.

Z

de zirophone, instrumento inventado por um construtor de instrumentos improváveis do universo da música eletrónica a partir de gira-discos antigos e que numa instalação fascinante, pôs o público em interação numa lógica de DJ.

De A a Z para a Música na Educação... por Ana Luísa Veloso

Ana Luísa Veloso

Ana Luísa Veloso: Membro da Direção da APEM

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de andamento, ou movimento. Movement, em inglês. A velocidade, o passo, a forma como a música nos embala. Designa normalmente uma secção de uma determinada obra como uma sonata, uma suite uma sinfonia. Tem este nome porque a música é movimento. Porque a primeira sensação que temos ao escutá-la é exatamente esse sentir compassado de ir ao som de, esse sentir que nos atravessa os músculos e que por vezes nos faz, involuntariamente, bater o dedo, o pé, abanar a cabeça.

B

de Biesta. Gert Biesta. Filósofo, Educador, Professor na Brunel University em Londres. Um discurso novo sobre a educação, e escola, os professores, tão próprio para os dias de hoje. Confronta-nos com os nossos conceitos enraizados de democracia e inclusão. Propõe que repensemos a questão da opressão e da liberdade do aluno à luz de filósofos como Rancière. Imprescindível para todos os educadores, inclusive os de música. Ruth Wight faz um trabalho notável nesta aproximação de Biesta à música e ao que poderá ser aquilo que Biesta denomina de Pedagogia de Interrupção. Vejam o artigo em http://act.maydaygroup.org/articles/Wright13_1.pdf

C

de colaboração e criatividade. Dois conceitos que nem sempre andam juntos. Temos a tendência para associar a criatividade ao grande génio solitário, mas a verdade é que cada vez mais se aponta para o facto de que, mesmo estes génios, muitas vezes trabalhavam em parceria, expunham e dialogavam sobre o seu trabalho com mais alguém, alguém próximo, fonte inesgotável de ideias. Em Inglês usa-se o termo Collaborative Criativity, um conceito recente, mas indispensável para compreender fenómenos como o jazz, as bandas rock, ou a improvisação e composição dos nossos alunos, quando é feita em grupos. Em breve publicarei um artigo no British Journal of Music Education que fala sobre isto... Estejam atentos!

D

de Damásio. Comecei a ler Damásio com 16 anos. O livro que li primeiro foi “O sentimento de Si”. Percebi muito pouco e vi de imediato que tinha de ir à fonte, ao seu primeiro livro, “O erro de Descartes”. Deixei-me fascinar e de imediato comecei a estabelecer pontes diversas entre esta teoria das emoções e sentimentos, a música e a educação. Continuei a estudar, li todos os livros e muitos artigos. O resultado desta senda está em parte na minha tese de Doutoramento: https://ria.ua.pt/handle/10773/9066

E

de entrada. Aquele momento que antecede a luz, que antecede o início da música. Silêncio. Normalmente alguém dá um sinal com a cabeça, faz uma pequena respiração que indica “Vamos começar”. É um dos momentos de maior ansiedade para os músicos, e também para o público. Mas nem sempre é preciso um gesto. Sérgio e Odair Assad, dois guitarristas virtuosos, irmãos, contavam que ensaiavam estas entradas de olhos fechados, ou então em partes diferentes da casa. Dizem eles que é algo que se sente, que se sabe.

F

de flamenco. Música que remonta a origens ciganas e mouriscas. A guitarra, a percussão, a dança, tudo se junta num arrepio feroz de expressão de uma cultura. Ritmicamente muito denso, convida à dança e ao movimento. As melodias desenham-se não raramente à volta da escala menor harmónica, o que lhe traz aquele tom de dramatismo e fatalidade. Um dos maiores expoentes, músico que muito admiro: Paco de Lucia.

G

de guitarra. O instrumento que toco, tantas vezes chamado de viola. O termo viola é importado do Brasil onde chamam à guitarra “violão”. Mas a guitarra não é uma viola. A viola (de arco) é um instrumento de orquestra, um pouco maior que o violino, com uma tessitura que se encontra entre este e o violoncelo. A guitarra é o instrumento que todos conhecemos especialmente devido à sua divulgação no mundo popular, com seis cordas, e uma ampla caixa de ressonância. Mas não é só da música popular que se faz a guitarra. Há um reportório extensíssimo dentro da música erudita, que foi sempre muito apreciado por todos os músicos, entre eles, o compositor Schumann.

H

de harpa. Dizem ser um instrumento com um som muito semelhante ao da guitarra. As cordas são dedilhadas, tal como a guitarra, mas às cordas, nas harpas modernas, junta-se uma panfernália de pedais que ao serem pressionados, encurtam cada corda num meio tom ou num tom completo, permitindo assim que a harpa possa passar por todas as tonalidades. Instrumento fascinante, não deixa ninguém indiferente aos seus largos glissandos, que tantas vezes evocam um estado melancólico e sonhador nos ouvintes.

I

de improvisação. Assim se designam os diálogos musicais, a conversa que flui entre os músicos, quando estes tocam em conjunto sem que todas as frases musicais estejam previamente pensadas. É a essência da música, que remontará às formas mais ancestrais do fazer musical: a pergunta resposta, “o give and take”, a música criada e pensada no momento. Hoje em dia volta a ganhar lugar entre alguns compositores contemporâneos eruditos, que designam nas partituras espaços específicos para os músicos improvisarem. Mas nunca perdeu o seu lugar em músicas como o jazz, o blues, e certas correntes da música pop-rock.

J

de Jaqueline du Pré. Jaqueline fala através do violoncelo. Os dois cruzam-se e tornam-se um só. Ficou famosa pela sua interpretação do Concerto de Elgar, que escutei pela primeira vez, e tocado por esta senhora, ainda adolescente. Nunca mais me esqueci da forte impressão que me causou, parecia que a estava a escutar ao vivo, ouvia-se a respiração, o arco a tocar nas cordas. O romantismo mais profundo ali, nas mãos de uma violoncelista tão nova, que morreu prematuramente de cancro. É uma interpretação obrigatória para qualquer pessoa que ame a música.

K

de Koln Comcert: Lembro-me de dizer aos meus alunos “Este concerto é todo improvisado”. Lembro-me do espanto deles, a acompanharem no youtube todos os movimentos da música genial de Keith Jarrett, todos as nuances, todas as respirações. O concerto continua a deixar marcas a cada nova geração que passa e acredito que nunca irá morrer.

L

de Landays: Poemas de mulheres Afegãs, construídos e partilhados quase na clandestinidade. São gritos dirigidos aos homens e à cultura masculina dominante. São poemas ditos, cantados, normalmente ao ritmo do bater de uma mão. São compostos apenas por dois versos, o primeiro normalmente com nove sílabas e o segundo com 13. Falam da guerra, da separação, do amor, do luto. Encontrei-os no livro “A voz secreta das mulheres afegãs: O suicídio e o canto” de Sayd Bahodine Majrouh, editado pela Cavalo de ferro.

M

de metrónomo: O inimigo de todos os músicos. Porque cada um tem o seu tempo, a sua forma particular de sentir a pulsação. Criado a bem do rigor, é no entanto imprescindível para o trabalho de peças com indicações muito precisas quanto ao tempo e também para música de conjunto, qualquer que ela seja.

N

de notação. Durante anos foi vista como uma das coisas mais importantes a aprender na aula de música, mas depressa se percebeu que não poderia vir antes do resto. Do tocar, do cantar, do mexer nos sons. Tal como a escrita e a leitura não surgem antes da fala. E depressa se percebeu também que quem a aprende tem de perceber o seu propósito. Por isso hoje se fala da notação inventada, que surge muitas vezes a partir das próprias composições criadas pelas crianças. Surge por necessidade. Ou para que ninguém se esqueça do que foi composto, ou para a poder mostrar a alguém. E aí, sim, faz todo o sentido. E desta notação inventada, se pode então partir para a tradicional fazendo pontes, estabelecendo relações.

O

de "Orelhudo". Projeto do Serviço Educativo da Casa da Música que se destina a divulgar e a promover a audição e a apreciação musical em Escolas do 1º Ciclo. Tratam-se de 90 segundos de música diários, de todos os estilos e épocas, que vêm acompanhados, não só de informações relevantes quanto à peça escutada, como a algumas de atividades relacionadas com a mesma. Para todos os que querem começar a introduzir música na sua aula, parece-me ideal. E apela-se à criatividade de todos os professores na criação/desenvolvimento de novas atividades! Procurem aqui: http://orelhudo.casadamusica.com/

P

de Paynter. John Paynter. Compositor e Educador Inglês, lutou nas décadas de 60 e 70 por uma Educação Musical em que a criatividade ocupasse um espaço mais amplo nas vivências musicais das crianças. No seu mais famoso livro Sound and Silence (1970) refere-se ao “fazer música”, como uma resposta à vida e ao mundo que nos rodeia. Porque se trata de uma arte, esta resposta é criativa, expressão de sentimentos através de materiais moldáveis pela imaginação das crianças. Paynter desenvolve uma filosofia baseada na enação criativa com materiais musicais, na exploração de técnicas utilizadas por compositores contemporâneos e numa visão do professor como guia e facilitador.

Q

de quadrivium. Nem sempre a música esteve relegada para segundo plano. Muito pelo contrário. Na Grécia antiga e na Idade Média, ela fazia parte do quadrivium, que, juntamente com a aritmética, a geometria e a astronomia, consistia no conjunto de disciplinas obrigatórias no início dos estudos Universitários. Nesta altura, a música era estudada a partir dos seus intervalos, de forma a compreender de teoricamente e a nível prático as relações entre as notas, e de que forma estas evoluem em padrões musicais.

R

de Reijsegerr. Ernst Reijseger, um dos maiores violoncelistas do nosso tempo. Um virtuoso, que teve sempre bastantes problemas com os seus professores, já que olhava para o seu instrumento de forma aberta e criativa. Quis sempre explorar outros sons, outras formas de olhar e tocar o violoncelo. Nos workshops que dá a crianças e jovens leva-os numa viagem em que os conceitos mais básicos ligados à técnica e interpretação de violoncelo são totalmente desconstruídos, e em que a cada um é oferecida a possibilidade de encontrar a sua própria voz na ligação com este instrumento (http://ernstreijseger.com/).

S

de Soundscape, ou paisagem sonora, foi um termo introduzido pelo compositor Murray Schaffer. A Soundscape é o som, ou conjunto de sons que emergem de uma imersão sonora num determinado ambiente, natural ou criado por seres humanos. Em termos educativos é um conceito que convida as crianças e jovens a escutar, arquivar, catalogar todo o mundo sonoro que as rodeia, utilizando depois este mesmo universo sonoro em novos processos criativos, de composição ou improvisação. Em Portugal a Sonoscopia criou uma plataforma dedicada ao armazenamento e catalogação destes sons. Vale a pena visitar: http://www.phonambient.com/
Filipe Lopes, por sua vez criou o Polishphone, um software, mapa sonoro, plataforma criativa, utilizável em qualquer sala de aula que tenha um computador:http://www.filipelopes.net/Software/polisphone.html

T

de tocata e fuga em ré menor. Usada em filmes, videojogos ou como tema base para muito do reportório do rock e do metal, é uma das obras mais emblemáticas de Bach, expoente do período Barroco. Originalmente escrita para órgão, foi alvo de inúmeros arranjos para diversos conjuntos instrumentais. A primeira parte, a tocata, deriva to italiano toccare, tocar; representa uma forma musical para instrumentos de tecla feita para demonstrar o virtuosismo do intérprete. A segunda parte, a fuga, diz respeito a uma técnica de composição muito utilizada no Barroco e na qual Bach era mestre, em que o tema evolui a partir de uma série de repetições que se vão montando como linhas sobrepostas.

U

de underground. Toda a música não comercial, alternativa, que foge às grande marcas e mercados. Liga-se às ideias de criatividade, liberdade de expressão, honestidade e sinceridade.

V

de Vygotsky. Pedagogo Russo, introduzido no mundo Ocidental a partir das traduções feitas dos seus escritos por Jerome Bruner. Percursor da Psicologia Sociocultural cujos conceitos e ideias, apesar de terem sido escritos, maioritariamente, na década de 30, perduram até hoje na investigação e nas práticas educativas. No mundo anglo-saxónio, que domina grande parte da investigação escrita acerca da Educação Musical, é, juntamente com Bruner, autor basilar da recente Cultural Psychology of Music.

W

de Waters, Roger Waters, músico, baixista, e letrista fundador dos Pink Floyd, banda de rock psicadélico até hoje incontornável. The Dark side of the Moon, Wish You Were Here, Animals e The Wall, são alguns dos álbuns que ficam para a posteridade.

X

de Xerazade. Raínha Persa, narradora das mil e uma noites, foi inspiradora de uma série de obras musicais com o mesmo nome, como o poema sinfónico de Rimski-Korsakov, a abertura para orquestra de Ravel ou o ciclo de canções para voz e orquestra, também de Maurice Ravel.

Y

de Youth, Sonic Youth. Banda alternativa, formada em Nova Iorque em 1981. Incorporou uma série de técnicas experimentais e do noise no seu rock duro, muito influenciado pelo punk e pelo hardcore. Influenciou grande parte da minha adolescência e grande parte da minha forma de pensar a música.

Z

de Zorn. Saxofonista, compositor, e improvisador, virou o mundo da música do avesso com o seu estilo free improv. Criou um novo estilo de composição colaborativa baseada na improvisação, uma série de “Peças/jogo” que tocou com músicos como Dereck Baily ou Mike Patton. Criou também aquilo a que apelidou de “música judaica radical”, essencialmente através do grupo Masada. Fundador dos Naked City, onde tocou com alguns dos maiores músicos da cena improv: Bill Frisell, Fred Frith, Joey Baron e Wayne Horvitz.

De A a Z para a Música na Educação... por Brendan Rui Hemsworth

Brendan Rui Hemsworth

Músico, percussionista e educador, sempre encarou a música e o seu ensino como duas faces da mesma moeda. Fez o Curso de Percussão na Escola Profissional de Música de Espinho, licenciou-se em Produção e Tecnologias da Música na E.S.M.A.E., e tornou-se Mestre em Ensino de Música pela Universidade de Aveiro.

As suas experiências no ensino passaram pela Escola de Jazz do Porto, pelo Instituto Orff do Porto, e pelo 3º ciclo, onde foi professor das disciplinas de Música e Área de Projecto. Pelo caminho colaborou com o Serviço Educativo da Casa da Música. Atualmente leciona bateria no Curso de Música Silva Monteiro, e Percussão e Classes de Conjunto no curso da Licenciatura em Formação Musical da Escola Superior de Educação do Porto.

Colaborou em projetos ligados à Dança (Ballet Teatro), Teatro (Seiva Trupe / Teatro Nacional D. Maria II), Cinema (Anilupa), Poesia (Sindicato da Poesia). Tocou com Raul Marques e os Amigos da Salsa, O Sexteto de Mário Barreiros, Pedro Abrunhosa e os Bandemónio, Clã, Ornatos Violeta, Stealing Orchestra, Peixe, Manel Cruz e Foge Foge Bandido, entre outros. Produziu o álbum Paluí de Helena Caspurro. No âmbito da música experimental tem colaborado em projetos da Associação Sonoscopia e tocado com HHY & the Macumbas com quem atuou em festivais como o Primavera Sound, Milhões de Festa, Boom Festival, entre outros.

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de acústica. A compreensão dos fenómenos do som, seja ela empírica ou estudada, é uma parte importante na formação de um músico. Refiro-me, por exemplo, à forma como percecionamos a sala como uma extensão acústica do instrumento, e de que como essa interacção contribui para determinar o próprio carácter da música.

B

de bateria. Um dos instrumentos que moldou a música do século XX. Apesar de ser, ainda hoje, mais conhecida pela configuração popularizada por Gene Krupa, vejo-a como um instrumento-camaleão, em constante metamorfose, capaz de se adaptar aos variados géneros musicais em que se insere.

C

de composição. Parece-me importante que o ensino estimule os alunos a valorizarem mais as suas capacidades criativas, nomeadamente, no domínio da composição. Nas palavras de Frank Zappa, “a composição é um processo de organização, muito como a arquitectura. Desde que saibamos conceber o nosso próprio processo organizacional, poderemos ser compositores – em qualquer mídia.”

D

de documentação. Documentar experiências de vida, sob, por exemplo, a forma de um portfólio, com recurso ao áudio, ao vídeo, ou à escrita, pode ser uma forma importante de referenciarmos um percurso. Por mais desinteressantes que alguns registos nos possam parecer no momento, o tempo encarrega-se sempre de lhes atribuir a devida importância na definição do nosso rumo.

E

de experimentação. Tal como a investigação científica nos abre novas portas, na música, vejo a experimentação como uma forma de alargar horizontes. A música experimental não tem, necessariamente, que soar bizarra ou que ser efémera. Compreendo, em todo o caso, porque alguns levantam a questão da dimensão emocional subjacente. Talvez, por isso, em muitos contextos, se prefira designar a dita música experimental por “sound art”.

F

de funcional. Ao longo dos tempos, a humanidade sempre fez música com funções sociais bem específicas. Pensar a música de acordo com a função social que pretende servir, pode ser uma forma de trabalhar com os alunos diferentes registos de expressividade musical, fora da habitual lógica do género ou do gosto musical, normalmente ditada por velhos hábitos de escuta.

G

de gong. Um instrumento com imenso potencial, quer pela forma envolvente como permite preencher o espaço sonoro, quer pela riqueza harmónica que traz à música. O trabalho de João Pais Filipe, percussionista e criador de gongs e pratos, é um exemplo de uma procura por formas novas e personalizadas de conceber o instrumento.

H

de hiperinstrumento. O pensar a bateria enquanto instrumento composto por diferentes componentes que, embora fisicamente separados, se integram num todo orgânico, sugere-me que qualquer conjunto de fontes sonoras, coordenadas sobre uma só mente estruturante, possa dar corpo a um instrumento de características únicas. E que podemos projetar esse instrumento tanto em grande escala como numa micro-escala.

I

de interdisciplinaridade. Relaciono este termo com a ideia da música funcional: a música a relacionar-se com qualquer outro domínio. O pensar a música como um centro gravítico de uma filosofia de formação artística que pretenda por a música como motor de toda uma indústria criativa.

J

de Jazz. Apesar das inúmeras ramificações que este grande género musical produziu, e continua a produzir, podemos reconhecer ainda hoje, nas suas linhagens, o tributo aos antepassados, o que é, por si só, sinal de grandeza.

K

de Kotche. Glenn Kotche, além de ser conhecido por tocar com a banda Wilco e com Jim O´Rourke, é também um compositor e intérprete de obras para bateria/multipercussão de grande interesse, destacando em particular os seus Drumkit Quartets, interpretados em colaboração com o grupo de percussão, Só Percussion.

L

de liberdade. Apesar de todas os constrangimentos de viver numa sociedade moderna, de todas as influências e vivências que nos vão moldando sem que nos demos conta, é a liberdade de escolha que define quem somos.

M

de multipista. Gosto de pensar no sistema de gravação multipista e no papel que assume enquanto suporte da criação musical dos nossos dias, como um fenómeno análogo à invenção do contraponto. A diferença é que, mais do que permitir justapor vozes, como o baixo, tenor, soprano...permite justapor eventos ou singularidades musicais. Um pouco como no cinema, razão, aliás, pela qual penso que a invenção da gravação multipista veio aproximar mais a música do cinema.

N

de Noise. O livro de Jacques Attali que repetidamente sinto a necessidade de ler e reler. Um retrato social, económico e cultural dos vários papéis da música no mundo ocidental.

O

de objeto sonoro. Porque um músico deve encarar qualquer objeto pelo seu potencial expressivo, seja ele encontrado numa estante de uma loja de instrumentos ou numa lata do lixo.

P

de play. Curiosa versatilidade semântica da lingua inglesa que transporta para o contexto da música a ideia de brincar. No português, a palavra “tocar” é também ela versátil em termos semânticos, já que quando tocamos um instrumento, mais do que tocar um instrumento, podemos tocar as pessoas que nos ouvem.

Q

de quartas paralelas. Uma forma interessante de harmonizar vozes, em alternativa à harmonia por terceiras e sextas.

R

de rádio. Num mundo cada vez mais governado pelo poder da imagem, a ideia de haver um canal de comunicação que sobreviva unicamente graças ao poder da palavra e da música parece-me incrível. A criação de programas de rádio é também ela uma ferramenta de grande interesse em projetos escolares.

S

de sentido. Uma palavra que me fascina pela sua riqueza de sentidos, passo a aliteração. De resto, são as palavras que nos tornam humanos - uma ponte entre o mundo sensível e o inteligível. Na música, as palavras, por vezes, vivem como mantras, pelo poder mágico da sua ressonância. Em outros casos ainda, podem ser descontextualizdas, fragmentadas e reduzidas a vocábulos esvaídos de sentido.

T

de tempo. A maior parte das vezes pensamos no tempo unicamente na sua dimensão cronológica. Acho fascinante a ideia de explorarmos outras formas de fabricarmos o nosso tempo, que transcendam o cronológico, e a sua lógica “tempo é dinheiro”. Talvez possa ser essa uma das mais nobres missões da música: a de nos ensinar outras formas de habitar o tempo e o espaço.

U

de urbano. O meu habitat natural. Por mais que precise de, regularmente, conectar-me com a natureza, é a selva urbana que habito, com as suas ruas, as suas casas, que molda a música que faço.

V

de voz. O instrumento musical mais perfeito que existe.

W

de Waits de Tom Waits. Um artista que admiro pelo sua poesia, sentido de humor e pela forma como cruza a canção com soluções de instrumentação menos convencional.

X

de xilofone. Um instrumento que continua a ter o seu papel na formação de músicos de todas as idades, por mais que os novos instrumentos possam exercer o seu papel sedutor.

Y

de Yoruba. Povo da África ocidental, de onde grande parte das tradições musicais afro-cubanas emergem.

Z

de Zappa. ZAPPA um dos meus primeiros ídolos musicais, inspirador na forma subversiva e acutilante como questionou paradigmas.

De A a Z para a Música na Educação... por Kiko Pereira

Kiko Pereira

Francisco “Kiko” Pereira é um dos mais reputados cantores de Jazz portugueses com uma carreira de mais de 20 anos tendo lançado e participado em vários álbuns e atuado ao lado dos mais importantes músicos e projetos de Jazz portugueses e estrangeiros nos mais relevantes festivais.

Tem o Mestrado em Interpretação Artística em Jazz e o Mestrado em Ensino da Música pela Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo do Porto (ESMAE). É docente de Canto Jazz na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo do Porto e no Conservatório de Música do Porto.

Atualmente está a ultimar o seu mais recente trabalho discográfico com o projeto “Kite” com o pianista Telmo Marques, o contrabaixista José Carlos Barbosa e o baterista João Cunha.

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de Armstrong Louis (4 Ago 1901 / 6 Jul 1971). Foi a primeira superestrela do Jazz. Satchmo ou Pops foi o grande inovador e a sua influência tem um alcance que percorre a história do Jazz, tendo definido alguns dos cânones mais institucionalizados, como o formato Tema – Solo – Tema. Uma figura carismática, tanto pela voz inconfundível, como pelo som poderoso da trompete, a música foi o meio para sair da pobreza extrema onde nasceu e se tornar uma das figuras mais queridas e respeitadas do século XX. As suas gravações com os seus Hot Five, e mais tarde com Hot Seven, são lendárias.

Louis Armstrong - West End Blues 1928

B

de Bop ou Bebop.Este foi o nome dado ao movimento musical iniciado em Nova Iorque nos inícios da década de 40 e surge como um distanciamento do swing e das linguagens mais comuns do Jazz da época. O bom carateriza-se por tempos rápidos, estruturas harmónicas complexas e virtuosismo técnico. Os músicos procuravam exceder-se em rapidez e complexidade, estando as composições ao serviço do improviso, com as melodias a servir para lançar o mote. O bop foi o percursor de vários movimentos posteriores como o Cool ou o Hard. Charlie Parker, Dizzie Gillespie, Bud Powell, Max Roach foram alguns dos instrumentistas importantes nesta viagem.

Bud Powell - Anthropology (1962)

C

de Coltrane John (23 Set 1926 / 17 Jul 1967). Assim como Armstrong deu ao Jazz tradicional uma nova sofisticação, Coltrane foi um dos grandes responsáveis por expandir a música numa busca constante que transformou o Jazz. Compositor e instrumentista, foi um inovador a nível estético e um instrumentista de tal ordem influente que ainda hoje, passados 50 anos da sua morte, continua a ser uma das referências maiores do saxofone. Em constante evolução desde os seus primeiros dias como elemento do quinteto de Miles Davis, Coltrane procurou aprofundar cada vez mais a sua linguagem e estilo, tendo levado ao limite as possibilidades do saxofone em improvisos cada vez mais poderosos, complexos e livres.

John Coltrane Live in Germany 1960

D

de Davis, Miles (25 Mai 1926 / 28 Set 91). Miles Davis esteve sempre na linha da frente dos movimentos mais representativos do Jazz ao longo dos seus cerca de 50 anos como instrumentista, compositor e líder de algumas das formações mais celebradas da história. Visionário, procurou inovar e explorar novas e mais ousadas formas de viver a música. Esteve na vanguarda de muitos dos movimentos mais importantes desde o Bop, o Cool, ou a Fusão. Dos vários álbuns que gravou posso referir alguns que ilustram este percurso como “Birth of the Cool” (1957), “Milestones” (1958), “Sketches of Spain” (1960), “ESP” (1965) ou “Bitches Brew” de 1970. Os seus inúmeros projetos e formações foram espaço de desenvolvimento de dezenas de músicos como Herbie Hancock, Tony Williams, Dave Holland, Chick Corea, Keith Jarret, Wayne Shorter, para citar apenas alguns.

Miles Davis Quintet, 1967

E

de Ellington, Duke (29 Mai 1899 / 24 Mai 1974). Duke Ellington foi, e continua a ser, um dos nomes mais importantes da música Americana. As suas orquestras das décadas de 20 e 30 foram exemplo de um novo e mais sofisticado som que ajudou a definir o que seria apelidado de "a era do Swing". Apesar de pianista com créditos firmados, o seu instrumento por excelência foi a Orquestra, compondo a pensar especificamente nos seus integrantes procurando extrair o melhor que tinham de forma a tornar o som total mais coeso e excitante. A obra de Ellington é, pela sua extensão e qualidade, um património musical ímpar que lhe valeu, a título póstumo, um prémio Pulitzer. São dele algumas das composições mais conhecidas do repertório como “Take the A-Train”, “Don’t get around much anymore”, “It don’t mean a thing (if it ain’t got that swing)”, “Sophisticated Lady” ou “In a mellow tone”.

Duke Ellington - Satin Doll

F

de Fitzgerald, Ella (25 Abr 1918 / 15 Jun 96). Ella Fitzgerald, tornou-se pela alegria da sua voz, virtuosismo do seu scat e energia das suas atuações a “First Lady of Song”. A sua dicção quase perfeita, a sua mestria em executar as melodias mais complexas sem mácula e a sua capacidade quase inesgotável de improviso granjearam-lhe o respeito de críticos, entusiastas e músicos. Ella foi um prodígio que vivia para o palco, pois sempre procurou manter a sua vida pessoal longe do público que a idolatrava, evitando entrevistas e exposição mediática. Apesar de ter realizado dezenas de gravações em estúdio, são as suas prestações ao vivo que servem de testemunho ao seu talento como cantora e improvisadora. Alguns exemplos da sua vasta discografia são “Ella in Rome”, “Ella in Berlin”, “Twelve nights in Hollywood” ou “Ella in Budapest”.

ELLA FITZGERALD with Tommy Flanagan Trio at Montreux 1969

G

de Granz, Norman (6 Ago 1918 / 22 Nov 01). Foi um empresário que teve um papel de enorme importância ao tornar o jazz num fenómeno Americano e mais tarde mundial. Fundou várias editoras (entre as quais a Verve), foi empresário das maiores estrelas do Jazz (como Louis Armstrong, Ella Fitzgerald, Count Basie ou Anita O’Day) e foi um campeão na luta contra a discriminação de músicos negros e contra a segregação de públicos. Foi igualmente o mentor dos concertos itinerantes “Jazz at the Philarmonic”, responsáveis por levar em tournée vários dos artistas e projetos mais representativos do Jazz, permitindo um contacto mais próximo do público com as suas vedetas.

Norman Granz Jazz at the Philharmonic (1956)

H

de Holiday, Billie (7 Abr 1915 / 17 Jul 1959). Também chamada Lady Day, epiteto atribuído pelo saxofonista Lester Young, nasceu Elanora Fagen. Suportou várias agruras e dificuldades e tornou-se uma cantora que revolucionou o meio jazzístico com as suas interpretações profundas e tocantes. O seu fraseado relaxado, a ligação com os poemas que interpretava de forma apaixonada e o seu estilo (reflexo de uma existência marcada pelo abuso, dependência e descriminação) tornaram-na num dos maiores ícones do Jazz. Frank Sinatra confessou ter sido Lady Day uma das influências mais profundas na sua carreira. Para ouvir temas como “Billie’s Blues”, “Strange Fruit”, Trav’lin Light”, “God Bless the Child” e “Fine and Mellow” (ver Jam Session para ouvir e ver Billie em acção).

I

de Improvisação. A essência do Jazz, a improvisação é a razão de ser desta música em que cada interpretação busca algo especial, inédito, original, criativo, profundo, intenso e único. Geralmente o improvisador parte de uma base, ou tema, sobre o qual irá dar largas à sua sensibilidade criativa. Esta busca revela a singularidade de cada músico e permite uma infinidade de interpretações e visões do mesmo tema.

Improvisational jazz performance: Peter Epstein at TEDxUniversityofNevada

J

de Jam Session. Uma das razões pela qual o Jazz e as suas várias linguagens se desenvolveram tanto e tão depressa reside na Jam Session. São ajuntamentos, mais ou menos informais, de músicos de várias proveniências para tocar e improvisar sobre temas do repertório comum. As Jams de clubes nova-iorquinos como o Minton’s tornaram-se ponto de passagem obrigatória para jovens em busca de reconhecimento. Muitos eram convidados (de formas mais ou menos “amigáveis”) a sair de palco por não estarem à altura dos “requisitos mínimos”. Estas contrariedades tinham porém, o condão de levar os jovens a estudar mais afincadamente para voltarem aptos. Essa curva intensa de aprendizagem foi responsável pelo salto enorme, em termos qualitativos, que se notou a partir da década de 40. São vários os relatos da importância da Jam Session no desenvolvimento de músicos como Miles Davis, Charles Mingus, Ella Fitzgerald e outros. Ainda hoje essa tradição é mantida um pouco por todo o mundo e permite que músicos de proveniências, culturas e gerações distintas sejam capazes de comunicar e criar algo de único e irrepetível. Aqui fica um registo em ambiente de Jam com Billie Holiday, Ben Webster, tenor saxophone, Lester Young - tenor saxophone, Vic Dickenson - trombone, Gerry Mulligan - baritone saxophone, Coleman Hawkins - tenor saxophone, Roy Eldridge - trumpet, Doc Cheatham - trumpet, Danny Barker - guitar, Milt Hinton - double bass, Mal Waldron - piano and Osie Johnson – drums.

Fine and mellow (1957)

K

de "Kind of Blue”. O disco de Miles Davis é um dos mais acarinhados da história sendo, alegadamente, o mais vendido de sempre. Gravado em 1959 é constituído por um conjunto de composições baseados em modos e num ambiente que se afastava da linguagem do bop. A formação contou com os músicos Cannonball Adderley (sax alto), John Coltrane (sax tenor), Miles Davis (trompete), Bill Evans e Wynton Kelly (piano), Paul Chambers (contrabaixo) e Jimmy Cobb (bateria). O resultado foi uma obra única e um conjunto de improvisações inspiradas.

Miles Davis - Kind of Blue - 1959

L

de Latin. Quando se fala de Jazz e as suas origens geralmente considera-se como o resultado da mistura dos ritmos tribais africanos e a harmonia e tradição musical europeia. Mas o Jazz não seria a expressão musical que conhecemos sem o contributo dos ritmos das caraíbas e do sul da América. Nos anos 30 e 40 com a chegada de vários músicos latino-americanos a Nova Iorque, nomeadamente de Cuba, os estilos rapidamente se misturaram. Músicos como Mongo Santamaria, Tito Puente, Chucho Valdés ou Paquito D’Rivera deram um contributo à propagação desta influência. A descoberta do Brasil pelo Jazz com o aparecimento da Bossa Nova no panorama musical teve um impacto importante. As composições de António Carlos Jobim e a presença de músicos como João e Astrud Gilberto, Airto Moreira, Flora Purim ou Sérgio Mendes em Nova Iorque, foram uma influência decisiva para que estas tendências e expressões se tornassem parte integrante da linguagem e do repertório. Como exemplo desta miscigenação apresento a United Nation Orchestra de Dizzie Gillespie e a eterna “garota” do jazz na versão de Astrud Gilberto e Stan Getz.

Dizzy Gillespie and The United Nation Orchestra

Astrud Gilberto and Stan Getz ◊ The Girl From Ipanema

M

de Monk, Thelonius (10 Out 1917/ 17 Fev 1982). Apesar de ser considerado uma figura fundamental no desenvolvimento estético do Jazz, Monk foi algo incompreendido pelos seus contemporâneos devido à sua música e personalidade peculiar. Foi preciso uma década, de uma existência mais ou menos obscura, para que a sua genialidade fosse reconhecida. Numa época em que a fama estava reservada para os instrumentistas, Monk foi-o pelas suas composições com melodias arrojadas e ritmicamente exigentes para além da utilização de progressões harmónicas complexas e inesperadas. Muitas das suas composições são clássicos como “Round Midnight”, “Straight No Chaser”, “Misterioso” ou “In Walked Bud”. Apesar de lhe serem creditadas cerca de 70 composições é o segundo compositor mais gravado da história superado apenas por Duke Ellington (que compôs mais de 1000). A (re)descobrir no centenário do seu nascimento.

Thelonious Monk - Live At Berliner Jazztage (1969)

N

de NewOrleans. Esta é a cidade onde todo o movimento, que mais tarde viria a ser conhecido por Jazz, teve o seu impulso inicial e mais intenso. Local de coexistência mais ou menos pacífica entre culturas africanas e europeias foi igualmente uma rota de acesso ao norte de uma América em desenvolvimento profundo. Foi de lá que a tradição se misturou com a modernidade e se iniciou a diáspora do Blues, do Boogie Woogie, do Dixie e de outras manifestações, que seriam mais tarde cunhadas de New Orleans Jazz. Ainda hoje se vive e respira as raízes do Jazz na Bourbon Street ou na Basin Street. Como ilustração, deixo a primeira gravação conhecida de Jazz (na altura de chamava Jass) e “Do you know what it means to Miss New Orleans” com Billie Holiday e Louis Armstrong.

Original Dixieland Jazz Band "Dixie Jass Band One Step" 1917

Billie Holiday - Do You Know What It Means To Miss New Orleans

O

de Orquestras. De Count Basie a Jimmy Lunceford, de Duke Ellington a Benny Goodman, de Chick Webb a Fletcher Henderson, as Orquestras de Jazz, ou Big Bands, deram um contributo muito importante para a divulgação do Jazz pelo país pelas tournées que realizaram um pouco por toda a América, e mais tarde pela Europa, mas também pela difusão das suas criações pela rádio. Conhecida pela época do swing (década de 30 e início de 40) as orquestras não só levaram a música ao mundo, como foram escola para muitos jovens músicos que viriam a tornar-se artistas a nível global como Frank Sinatra (na Orq. de Tommy Dorsey), Ella Fitzgerald (na de Chick Webb) ou Dizzie Gillespie, Dexter Gordon, Miles Davis, Sarah Vaughan que foram integrantes da Big Band de Billy Eckstine. Como ilustração, incluo um link da Orquestra de Jazz de Matosinhos que tem sido um dos projetos mais importantes na divulgação do Jazz e compositores nacionais pelo mundo.

Turns - OJM + Kurt Rosenwinkel, Aliados, Porto, 2013

P

de Parker, Charlie (29 Ago 20 / 12 Mar 55). Conhecido igualmente por Yardbird, ou apenas Bird, Parker salienta-se no Jazz pelo virtuosismo, energia e inovação. A sua aparição nas noites de Nova Iorque foi uma revolução que deslumbrou público e músicos. Viveu a vida como viveu a música, de forma rápida, cheia e intensa, tendo encontrado a morte aos 34 anos (o relatório do médico legista indicou uma idade aparente de mais de 60). Apesar de fugaz, a sua carreira teve um impacto tão profundo no Jazz que ainda hoje é uma referência incontornável no seu estudo para gerações de apreciadores das suas inúmeras gravações. Algumas das suas composições mais conhecidas são “Donna Lee”, “Confirmation”, “Ornithology”, “Scrapple from the apple” e “Yardbird Suite”. Em 1988 Clint Eastwood realizou o filme “Bird” que retrata a vida e música deste artista genial.

Charlie Parker and Dizzy Gillespie - Hot house

Clint Eastwood "Bird" Charlie Parker Story - Trailer

Q

de Quintette du Hot Club de France. Formado em 1934 por Luis Viola, Joseph Reinhardt, Roger Chaput, Stéphane Grapelli e Django Reinhardt, foi um dos primeiros exemplos do efeito do Jazz no Mundo, e consequentemente, do Mundo no Jazz. A sonoridade resultante da apropriação de Django Reinhardt dos sons vindos da América aliada à sua técnica peculiar e forte ligação à cultura de onde era originário tornou-se um estilo a que se chamou Jazz Manouche. A realidade do Jazz reside na sua capacidade metamórfica, em constante fusão com linguagens musicais e culturais dos músicos que o interpretam criando sempre novas sonoridades. Podemos sentir esta miscigenação musical por todo o mundo onde existem comunidades ligadas ao jazz.

Django Reinhardt and Stephane Grappelli - The Ultimate Collection

R

de Riddle, Nelson (1 Jun 21 / 6 Out 85). A presença de Nelson Riddle nesta listagem serve de homenagem a todos os grandes profissionais que fizeram, ensaiaram e produziram alguns dos arranjos mais excitantes da história. O seu trabalho com Ella Fitzgerald e Frank Sinatra são um testemunho à sua capacidade de criar ambientes propícios à magia dos solistas. Outros arranjadores cujo trabalho se aconselha a descobrir são Neil Hefti, Billy Strayhorn, Gil Evans, Bob Brookmeyer, Sammy Nestico, Herny Mancini, Quincy Jones, Vince Mendonza, Don Costa, Gordon Jenkins, entre tantos outros.

Frank Sinatra and Nelson Riddle Orchestra playing Witchcrat

S

de Scat. Este é o nome que se dá ao conjunto de vocábulos e sílabas utilizadas por vocalistas em improvisos vocais. Reza a lenda que foi criada aquando de uma gravação de Louis Armstrong em que este teve que improvisar algo por a folha com a letra ter caído. Na verdade, o Scat era prática corrente em New Orleans. Como exemplos de artistas que foram prodigiosos praticantes do Scat podemos referir Ella Fitzgerald, Louis Armstrong, Betty Carter, Anita O’Day, Mark Murphy, Kurt Elling, entre muitos outros.

Sarah Vaughan - Scat Blues - 1969

T

de transcrição. O processo em que se memoriza (ou se escreve em notação convencional) um excerto ou peça de música improvisada. Este é um dos processos mais utilizados na aprendizagem/ensino do Jazz. Ao transcrever um solo o aluno tem a possibilidade de entender e replicar o processo criativo de um determinado instrumentista ou cantor. Funciona quase como uma aula privada com os maiores mestres do Jazz pois existem milhões de horas de gravações de performances excecionais à espera de transcrição.

Transcrição do solo de Sonny Rollins no tema "Almost Like Being in Love"

U

de US3. São uma banda de rap londrina que em 1992 lançaram o disco “Hand on the torch”, constituído exclusivamente por samples (excertos de gravações utilizados para criação de novas músicas) de temas de Jazz do catálogo da Blue Note. O cruzamento dos ritmos e tendências urbanas com o Jazz foi desde sempre cultivado, embora tenha esmorecido com o passar dos anos. Foi recuperado por novas gerações que descobriram os clássicos e reconheceram o imenso manancial de recursos que continham. Esta reutilização de matéria musical foi um grande um incentivo à reedição dos catálogos clássicos das editoras. Como exemplo, apresento o tema Cantaloop (Flip Fantasia) baseado no original de Herbie Hancock “Cantaloupe Island”.

US3 - Cantaloop (Flip Fantasia)

Herbie Hancock - Cantaloupe Island

V

de Vocalease. Esta é a técnica consiste na adaptação de letras a solos anteriormente transcritos. Alguns dos artistas que utilizaram este recurso foram Eddie Jefferson (“Moody’s mood for love” baseado num solo de saxofone de James Moody no tema “I’m in the mood for love”), Kurt Elling (ao escrever um poema magnifico para um solo de Charlie Haden do clássico “Moonlight Serenade” de Glen Miller) e Jon Hendricks, porventura o nome maior desta arte também apelidado como o “James Joyce do Jive”. No exemplo apresenta-se uma gravação do trio Lambert, Hendricks e Ross a interpretarem o tema Four de Miles Davis e Kurt Elling com um arranjo magistral do tema “Easy Livin’” e uma versão vocalease do tema de John Coltrane “Resolution”.

Lambert, Hendricks and Ross - Four LIVE 1961

Kurt Elling - Easy Living / Resolution

W

de West Coast Jazz. Foi o termo utilizado para denominar o Jazz que se ouvia na costa oeste dos Estados Unidos, com predominância na área de San Francisco e Los Angeles. A música, menos frenética que o bop, era mais calma e fluída com predominância para temas com arranjos mais complexos. O movimento West Coast deu visibilidade ao Jazz que se fazia fora do centro nevrálgico em que Nova Iorque se tinha tornado. Entre alguns dos nomes mais representativos do som da costa oeste temos Chet Baker, Gerry Mulligan, Stan Getz, Stan Kenton, Paul Desmond e Dave Brubeck.

Stan Kenton and his Orchestra - Crazy Rhythm

The Gerry Mulligan Tentet - Westwood Walk

X

de Xanadu Records. Esta editora discográfica especializou-se na gravação e divulgação de Jazz e editou discos de artistas consagrados como Bud Powell, Art Pepper, Jimmy Heath entre outros. A importância das editoras como a Blue Note, Verve, Capitol, Columbia, Impulse, Prestige ou Savoy é inestimável ao registarem para a posteridade os maiores intérpretes do Jazz em algumas das suas mais inspiradas prestações. E qual a importância da Xanadu para ser destacada nesta listagem? É o X que me faltava para completar a lista ☺.

Xanadu Master Edition Series Documentary

Y

de Young Lions. Foi o termo pelo que ficou conhecida uma geração de músicos que, a partir da década de 80, procurou fazer música em linha com os conceitos estéticos do bop e hard bop. Este movimento também apelidado de Neo-bop surge como contraponto aos sons mais elétricos do Jazz de Fusão e foi responsável por um regresso às origens, a um som e linguagem mais ligado à tradição do blues, swing e ao som acústico. Wynton Marsalis, Brian Blade, Joshua Redman, Joe Lovano, Roy Hargrove ou Terence Blanchard foram alguns dos músicos que empreenderam esta viagem de regresso a uma música de pendor revivalista e melancólica, mas igualmente virada para o futuro, em busca de novos caminhos.

Wynton Marsalis – Jazz em Marciac 2009

Roy Hargrove Quintet - Strasbourg Saint Denis

Z

de Zorn, John (12 Set 53). Incluo o saxofonista John Zorn para completar o ciclo com o regresso a Louis Armstrong. Zorn tem coexistido dentro do Jazz e outras linguagens musicais com o mesmo entusiasmo e espirito criativo que poderíamos encontrar em Armstrong na sua época. O futuro do Jazz está intimamente ligado à possibilidade de se reinventar e se tornar moderno, imprevisível e global, sem ter necessidade de se distanciar ou virar a cara à tradição. O jazz como manifestação artística tem espaço para várias tendências, estéticas e orientações e cabe ao público encontrar a música para si. Cabe aos pedagogos orientar os alunos para este estado de espirito aberto, sem preconceito e honestidade para ouvir e refletir. Viva a música!

John Zorn - Book of Angels - Marciac 2012

De A a Z para a Música na Educação... por Liliana Eira

Liliana Eira

Liliana Eira é professora do 1º ciclo, formada pela Escola Superior de Educação de Viana do Castelo. Trabalhou em Timor-Leste entre 2001 e 2014, primeiro no Projeto de Reintrodução da Língua Portuguesa e, mais tarde, na Escola Portuguesa de Díli.

Nesta última instituição foi responsável pela dinamização da biblioteca escolar e pela coordenação de projetos da escola. Para além da docência, colaborou em vários projetos no âmbito do desenvolvimento da língua portuguesa daquele país, principalmente na área das bibliotecas escolares, assumindo o papel de responsável pela implementação do Projeto Ler+ em Timor-Leste.

Desde que regressou a Portugal, tem desenvolvido parcerias com escolas europeias através da plataforma etwinning e do programa Erasmus+.

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de arte, essencial para o desenvolvimento integral da criança e da sua relação com o mundo que a rodeia.

B

de benefício, aquilo que a música traz enquanto forma de expressão livre, espontânea, lúdica.

C

de cooperação conceito essencial na educação, muitas vezes esquecido em detrimento do trabalho fechado e isolado da sala de aula. É uma espécie de formação informal e com sentido.

D

de desenvolvimento de projetos musicais, dentro e fora da sala de aula, que explorem a diversidade e a riqueza culturais das localidades, do país, do mundo.

E

de escutar vários tipos de sonoridades, de diversas partes do mundo, de diferentes estilos e tempos e com isso aguçar o apetite dos mais novos para conhecer o que está para além do seu quotidiano.

F

de formação, essencial para despertar nos professores a vontade e o à-vontade para desenvolver projetos musicais com os seus alunos, de ver a música como um par das outras disciplinas, que se trabalha no dia a dia.

G

de germinar, de ver crescer nos alunos o gosto por ouvir, cantar, dançar músicas de várias proveniências.

H

de histórias contadas/cantadas nas cantigas tradicionais que fazem as vezes dos avós contadores de histórias que vão sendo escassos nestes tempos. As histórias do nosso modo de vida, do nosso modo de sermos portugueses.

I

de imaginação e de como pode ser conduzida para explorar sonoridades variadas ou para construir músicas novas.

J

de janela para o mundo, que é o que é a música, em toda a sua diversidade, pode proporcionar aos mais novos.

K

de know-how. Faz falta um conhecimento mais aprofundado em termos de técnicas e de estratégias de exploração musical para que os professores se sintam seguros no desenvolvimento do seu trabalho.

L

de liberdade, palavra que tão bem casa com música!

M

de movimento, de exploração e perceção corporal, essenciais para o desenvolvimento completo da criança. Com música é ainda melhor!

N

de número(diminuto) de horas do tempo letivo dedicadas à música e a outras expressões.

O

de Orelhudo, o serviço educativo online e gratuito da Casa da Música onde se pode ouvir, diariamente, uma seleção eclética de obras musicais. http://orelhudo.casadamusica.com

P

de parceria, palavra importante na educação, na construção de novos saberes, no desenvolvimento de projetos que transcendem as fronteiras da escola.

Q

de qualidadeaquilo que devemos dar a ouvir aos nossos alunos. Diversidade, muita e qualidade, sempre.

R

de ritmo, esse formigueiro agradável que passa pelo nosso corpo quando ouvimos uma música.

S

de semente. Expor as crianças a diferentes experiências musicais irá certamente fazer delas pessoas mais curiosas, mais tolerantes, mais cidadãos do mundo.

T

de trabalho dedicado, essencial para levar a bom porto projetos e ideias que querem fazer das nossas crianças cidadãos ativos, capazes e tolerantes.

U

de utilidade, essa palavra que parece tão importante nos dias que correm. Que utilidade tem a música? Então a matemática não é mais importante? E o português? É urgente mudar mentalidades, fazer-se entender que uma criança deve crescer num todo e que é essencial explorar e acalentar os diversos tipos de inteligência.

V

de vontade, bem necessária para contrariar programas extensos, pressões externas e críticas veladas por se “perder tempo com a música e com as expressões”.

W

de workshop do Cantar Mais, essa ferramenta essencial na formação de professores e no incentivo ao uso da música no quotidiano da escola.

X

de xizambi, de xitembe e de xun, palavras estranhas para instrumentos musicais de outras paragens e que tanta curiosidade despertam nos mais pequenos...

Y

de youtube audio library, um ótimo recurso para projetos musicais, teatrais ou multimédia. https://www.youtube.com/audiolibrary/music

Z

de zoom, o que espero que a tutela faça em relação às escolas do 1º ciclo, para que se perceba o (tanto) que nos falta para que o Perfil do Aluno se comece a talhar desde os primeiros anos.

De A a Z para a Música na Educação... por Manuela Encarnação

Encontro Nacional da APEM - 2016

Manuela Encarnação: Presidente da APEM

Clique no seguinte link para ler este A a Z:

A

de audição e apreciação. A forma como a música é apresentada e ouvida em contexto educativo e o que isso representa no modo como cada um se relaciona com a própria música, é um importante ponto de reflexão.

As atividades de audição musical devem ter um propósito e se esse propósito se centrar naquilo que se ouve, ou seja, se se focar na maneira como a música funciona enquanto música, nos seus diversos aspetos musicais, permitirá descobrir elementos comuns a toda a música que poderão constituir-se como base para uma apreciação musical mais estruturada, significativa e abrangente.

B

de Bernstein (Leonard Bernstein, 1918-1990). Maestro-compositor e professor americano, autor dos Concertos para Jovens, produzidos e transmitidos pela televisão e que se tornaram uma referência internacional de programas de apreciação da música. Verdadeiras lições de música de um músico e um comunicador de excelência com muito sentido de humor.

Disponíveis aqui: https://www.youtube.com/user/ArtfulLearning/videos

O conceito de aprendizagem Artful baseado na filosofia de Bernstein consiste na ideia de que as artes podem reforçar a aprendizagem e podem ser incorporadas em todas as disciplinas académicas. O programa é organizado em unidades de estudo que assentam em quatro elementos principais: experienciar, questionar, criar e refletir.

Para aprofundar este modelo de aprendizagem pode ler aqui: https://leonardbernstein.com/artful-learning

Outro compositor de referência para a educação musical, Britten, Benjamin (1913-1976), compositor do “Guia do jovens músicos à orquestra” (variações e fuga sobre um tema de Purcell) uma excelente obra para dar a conhecer as famílias dos instrumentos da orquestra e vibrar com cada naipe.

Ouvir aqui: https://www.youtube.com/watch?v=4vbvhU22uAM

C

de cantar, Cantar Mais e criatividade. Assumir que o cantar deve ser uma experiência central da aprendizagem e da vida musical das crianças e jovens, implica proporcionar as condições necessárias para que essa experiência adquira e tenha a qualidade e a frequência indispensáveis.

O Cantar Mais representa o contributo da APEM para a concretização desta ideia, disponibilizando recursos artísticos e pedagógicos que permitirão a realização de atividades não só interpretativas como de audição e criação musical, em que o espaço para o desenvolvimento da criatividade das crianças deverá ter um lugar privilegiado.

Visite o sítio em: http://www.cantarmais.pt/

D

de diversidade e divertimento. Como se pode trabalhar hoje em dia na escola e nas aulas com a diversidade de alunos respeitando e valorizando as suas diferenças e ao mesmo tempo sem perder o divertimento que a música e o seu ensino pode e deve trazer?

Sem a transmissão de prazer e alegria numa aula de música, a aprendizagem pode ficar em causa. Fazer da diversidade dos alunos que se encontram na aula uma oportunidade para trazer e fazer música de vários géneros e estilos e de várias formas tocando todas as nossas emoções e sem perder a intencionalidade educativa.

E

de educação, ensino e estratégias de ensino. O conceito de educação está forçosamente ligado ao conceito de ensino. Ensinar consiste em desenvolver uma ação especializada, fundada em conhecimento próprio, de fazer com que alguém aprenda alguma coisa que se pretende e se considera necessária (Roldão, 2009). Mas é no modo como se ensina que se vão encontrar as potencialidades que viabilizam, induzem e facilitam a aprendizagem e é aqui que se situam as estratégias de ensino (Idem).

A justificação das estratégias de ensino implica saber responder às seguintes questões: como vou organizar a ação e porquê, tendo em conta o para quê e para quem? Num segundo nível, devemos responder à questão, com que meios, atividades, tarefas, sequência e porquê? (Idem). O professor de música que se questiona e responde a estas questões é por certo um melhor professor!

F

de flauta de bisel. A introdução deste instrumento na sala de aula de educação musical do ensino básico deu-se massivamente na década de 80 do séc. XX em Portugal tendo como justificação dois níveis de argumentos: o prático - é um instrumento barato, fácil de transportar e pode ser exigido a todos os alunos - e o pedagógico – a produção do som na flauta é fácil e rápida de ser aprendida.

Podendo ser estes argumentos válidos, nunca poderão estar desligados da educação musical que se pretende, tendo em conta esses objetivos, a realidade e os interesses dos alunos. Transformar as aulas de educação musical em apenas aulas de flauta, sem qualidade, é empobrecer todo o potencial que o espaço musical pode ter numa escola e contribuir para a construção de uma visão redutora das aulas de música, pelos alunos e pelas famílias.

A flauta de bisel é um instrumento muito particular:
https://www.youtube.com/watch?v=WRG9ASbj1ZU&list=RDWRG9ASbj1ZU#t=42

G

de Gordon (Edwin Gordon 1927-2015). O legado da Teoria de Aprendizagem Musical de Gordon deve fazer parte dos conhecimentos do professor e pode sintetizar-se nas próprias palavras do autor: a teoria de aprendizagem musical é uma explicação de como aprendemos, quando aprendemos música. Ensinar é uma arte , mas aprender é um processo. Toda a aprendizagem, e a aprendizagem da música não é exceção, começa pelo ouvido e não pelos olhos.

H

de holística. A importância de uma conceção holística do ensino da música, ou seja, que defenda a importância da compreensão integral e integrada dos variadíssimos fenómenos e componentes do ensino e da música e não uma análise de cada elemento isoladamente.

I

de interpretação e de improvisação duas dimensões essenciais das práticas musicais em sala de aula para o desenvolvimento de competências musicais. A interpretação implica cantar, tocar e movimentar e a improvisação implica exploração, experimentação com a voz, objetos, e instrumentos, por exemplo.

J

de juntar, no sentido de organizar estruturas musicais para fazer composição na sala de aula. Eis o ponto de partida de John Paynter (1931-2010) para o ensino musical. A sua proposta é a de incluir a música contemporânea nas escolas, para que se valorize a experiência individual e a estética baseada na experiência do sujeito, e não na manutenção das tradições.

A construção da música ou fragmentos musicais partem da escuta ativa e experimental, na qual, por meio do jogo exploratório, criam-se estruturas sonoras. No seu livro Sound and Structures, Paynter define quatro etapas para o desenvolvimento de projetos musicais:

(1) explorar sons da música e compreender como funcionam;

(2) organizar esses sons em ideias musicais;

(3) desenvolver a técnica, ou seja, as ideias exigem o desenvolvimento de meios de controlo artístico;

(4) juntar todas as etapas tornando possível a produção de peças musicais completas, estruturadas no tempo.

K

de Kódaly (1882-1987). A Música é para todos. Temos a obrigação de aproximar toda a população das artes e estas da população. O que deve ser feito? Ensinar Música (e em especial Canto!) nas escolas, de modo que ela não seja uma tortura mas sim um prazer; incutir nos alunos uma sede de “boa música” que dure a vida inteira. (Cruz, C.B. APEM,1988,)

Muitas vezes Kodály chama a atenção, nos seus escritos, para a importância da utilização nos primeiros anos do ensino da música (pré-escolar e início do ensino básico) de repertório adequado a cada país, música tradicional nacional ou composta a partir dela. (Cruz, C.B.APEM,1998)

L

de literacia musical. O ensino da música perspetivado no sentido do desenvolvimento da literacia musical dos alunos implica o envolvimento em práticas de audição, de interpretação, de improvisação, de composição, de conceptualização, de análise e de avaliação. A efetividade dessas práticas ocorre quando os materiais musicais são significativos para as crianças e jovens, pelo que a valorização tanto do contexto natural do material musical como do contexto social em que ele é usado se torna fundamental.

M

de música no currículo. Mais do que educação musical o que se pretende é que a música faça parte de todo o currículo básico do sistema de ensino, sem interrupções, sem hesitações. A música como parte integrante do currículo deve estar por valor próprio e as práticas associadas a esta área devem ser artísticas e musicais.

N

de necessidades de formação. Perceber e conhecer as necessidades de formação é um passo essencial para o desenvolvimento profissional que se faz colaborativamente e na interação com os outros. Músicos, artistas, professores, investigadores, escolas e universidades deverão constituir-se, a vários níveis, como parte de uma rede de formação que trará, por certo, mais sentido e consistência à Música na Educação.

O

de Orff (1895-1982). A ideia central da Orff-Shulwerk é colocar a música e a dança ao alcance de todos, fomentando a parte criativa e artística do ser humano , através da expressão vocal, instrumental, corporal e artes plásticas. É um processo de aproximação ao fazer música como uma forma de pensar e de utilizar a música como um meio de comunicação.

Maria de Lourdes Martins (1926-2009), primeira Presidente da APEM foi introdutora do sistema de aprendizagem Orff em Portugal depois de se ter diplomado em Orff-Shulwerk no Mozarteum de Salzburg em 1965. O impacto nas escolas foi grande, sendo o conhecido instrumental Orff o mais divulgado, e o reportório para estes instrumentos o mais praticado nas escolas do ensino básico. Ler e reler os princípios da Orff-Shulwerk e os seus desenvolvimentos ao longo do tempo, deverá ser uma prática de qualquer professor de Música.

P

de professores, práticas e projetos, uma trilogia para o currículo do século XXI. Professores reflexivos, com uma visão para o ensino e conscientes que as suas práticas profissionais são determinantes para as aprendizagens dos alunos.

A organização do ensino a partir de projetos que integrem e articulem o que de essencial se deverá aprender e nasçam a partir dos interesses dos alunos, é uma tarefa difícil, mas por certo conducente a um ensino de excelência, mais motivador e para todos.

Q

de qualidade e de querer melhorar as práticas e querer ser melhor professor. A motivação do professor para melhoria das suas práticas é o principal fator para que a mudança venha a acontecer e para o seu desenvolvimento profissional.

R

de repertório para a educação musical no ensino básico. Que repertório devemos selecionar? Que critérios devemos delinear para essa seleção? Esta é uma questão muito discutida por diversos autores e na literatura e na investigação sobre educação e formação musical, mas que não tem uma única resposta correta. A decisão para a seleção de um repertório deve ter claramente definida uma visão de ensino, os objetivos desse ensino e os contextos em que desenvolve.

S

de Swanwick, o autor de referência que deverá ser lido e estudado por todos os professores de música. Swanwick defende que saber música é como conhecer uma pessoa: são precisos vários encontros e a diversos níveis, contextos e situações. Por isso os professores devem ter em conta a promoção de experiências musicais de várias espécies e os alunos devem viver diversos papéis numa variedade de ambientes musicais e num envolvimento direto que pode ser visto em três ângulos: a composição, a audição e a interpretação.

Para além destas formas de experienciar a música existem outros dois grupos de atividades periféricas à própria música e que devem ser incluídos. A síntese desta perspetiva é a palavra C(L)A(S)P. Para facilitar: C- Composição (composition), formulação de uma ideia musical, fazer um objeto musical; (L)- Estudo da literatura (Literatura studies) – literatura da e sobre música; A- Audição (audition) – audição reativa como audiência; (S) – Aquisição de competência (skill acquisition), oral, instrumental, notacional ; P – interpretação (performance), comunicação da música em “presença”.

Para Swanwick o C(L)A(S)P constitui um modelo para a educação, incorporando uma teoria cognitiva da aprendizagem musical que tenta reparar a separação do conhecimento formal/intuitivo, na qual os tipos de conhecimento estão integrados numa espiral de desenvolvimento musical.

T

de tocar. Tocar de ouvido, ou seja, primeiro ouvir, tocar/cantar e só depois ler e escrever. Os músicos oriundos de culturas fora da tradição ocidental têm bem presente que a fluência musical tem precedência sobre a leitura e escrita musical.

A educação musical pode aprender com estas práticas e experiências. Foi por exemplo o que fez Ken Zuckerman https://www.facebook.com/Ken-Zuckerman-237769542981340/ nas classes de Improvisação Modal no Conservatório de Música da Basileia (Suíça).

Este trabalho resulta de uma investigação de longa data na integração de competências de improvisação monofónica modal, como ensinada na Índia, na sala de aula de música ocidental. O ensino é feito recorrendo às metodologias da tradição oral, sem quaisquer materiais escritos. Veja aqui um resumo deste trabalho: https://www.youtube.com/watch?v=-NoWreaGr6o

U

de urgente valorizar, apresentar e divulgar as boas práticas musicais que se fazem nas escolas e felizmente não são poucas, mas muito desconhecidas da maioria dos professores e da sociedade em geral. A APEM tem procurado divulgar essas mesmas práticas.

V

de voz. A voz é o instrumento musical mais acessível. Independentemente da origem social, cultura ou capacidades musicais, a voz é o único instrumento que está disponível para todas as crianças. Saber usá-lo é também uma tarefa educativa.

W

de Ward, Willems e Wuytack. Compreender e conhecer pedagogos e métodos de ensino deve fazer parte da formação de qualquer professor de Música. Estes são alguns dos mais utilizados e com mais tradição em Portugal, para além de Orff, Gordon e Suzuki. A bibliografia é muita e os materiais de qualidade estão à disposição de todos no catálogo bibliográfico da apem: http://www.apem.org.pt/biblioteca/catalogo-bibliografico.php

X

de xilofones. Os diversos Xilofones (Soprano, Contralto e Baixo) e outros instrumentos de lâminas do instrumental Orff que estão em muitas escolas do país, permitem recriar uma orquestra na sala de aula e essa foi a grande descoberta e inovação de Carl Orff.

Y

de youtube. Uma ideia genial, um recurso riquíssimo de música e cheio de potencialidades para o ensino da música.

Z

de zero contratos para professores de música nas escolas do 1º ciclo. Apesar da música (expressão musical) fazer parte do currículo do 1º ciclo, a maior parte dos professores generalistas não tem formação suficiente e nem se sente à vontade para realizar atividades musicais com as crianças.

A par de uma formação musical estruturada para os professores do 1º ciclo que a APEM defende, a possibilidade dos professores de música poderem concorrer a jardins de infância e escolas do 1º ciclo para a área da música seria um ganho imenso para a formação global das crianças.

Mostrar mais

A APEM

A Associação Portuguesa de Educação Musical, APEM, é uma associação de caráter cultural e profissional, sem fins lucrativos e com estatuto de utilidade pública, que tem por objetivo o desenvolvimento e aperfeiçoamento da educação musical, quer como parte integrante da formação humana e da vida social, quer como uma componente essencial na formação musical especializada.

A APEM é filiada na ISME - Internacional Society for Music Education como INA - ISME National Affiliate

Cantar Mais

Cantar Mais – Mundos com voz é um projeto da Associação Portuguesa de Educação Musical (APEM) que assenta na disponibilização de um repertório diversificado de canções (tradicionais portuguesas, de música antiga, de países de língua oficial portuguesa, de autor, do mundo, fado, cante e teatro musical/ciclo de canções) com arranjos e orquestrações originais apoiadas por recursos pedagógicos multimédia e tutoriais de formação.

Saiba mais em:
http://www.cantarmais.pt/pt

Newsletter da APEM

Caros sócios, A APEMNewsletter de dezembro acaba de ser publicada e encontra-se disponível para visualização no site da APEM.
Clique na imagem em cima para ter acesso à mesma.

Apoios:

 República Portuguesa
Fundação Calouste Gulbenkian

Contactos:

apem associação portuguesa de educação musical

Praça António Baião 5B Loja
1500 – 712 Benfica - Lisboa

  21 778 06 29

  932 142 122

 Envie-nos um email


©  Associação Portuguesa de Educação Musical

©  Associação Portuguesa de Educação Musical