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Editorial - APEMNewsletter - Outubro de 2017

Editorial da APEM Newsletter - Outubro - 2017

Aferições, música e cidadania artística

No início do mês de outubro, foram tornados públicos os resultados das provas de aferição, nomeadamente, os resultados das provas de aferição de Expressões Artísticas do 2º ano de escolaridade. A APEM já se debruçou várias vezes sobre o tema e agora elaborou um parecer final sobre os resultados das provas de aferição na área da Expressão Musical que pode ser lido aqui.

Os poderes políticos de uma maneira geral gostam e até investem em exames e provas de aferição. Não resistem... Mas o que seria bom mesmo era o investimento na qualidade da educação através da disponibilização de condições, meios humanos e materiais.

A música precisa de tempo, precisa de apoio, precisa de flexibilidade, precisa de dinheiro. Precisa de ser valorizada e precisa de ser protegida e defendida. Nas palavras do compositor húngaro e filósofo educacional Zoltan Kodály: "A música é para todos". É parte da vida das pessoas seja por meio da rádio, de anúncios, de filmes, de programas de televisão, de aplicações, não se pode ignorar. As nossas memórias mais antigas geralmente incluem música. Lembramo-nos, se não logo das canções da nossa infância, dos temas da nossa adolescência e juventude, e essas memórias transportam-nos para outros sítios. A música tem o poder de evocar tempo, lugares e pessoas. A música pode transportar-nos instantaneamente para uma hora e um lugar. E a música tem o poder de transformar vidas individuais e coletivas.

Continuamos a defender a urgência da existência de atividades artísticas e musicais nos primeiros anos de vida e de escolaridade. No 1º Ciclo de Educação Básica do ensino geral público, apesar de fazer parte do currículo, a música não faz parte das rotinas diárias nem semanais das crianças. E isto acontece por tudo o que já dissemos em muitos lugares, mas essencialmente, porque os professores não se sentem seguros, têm receio de organizar atividades musicais porque “não sei cantar”, “sou desafinada/o”, “nunca aprendi música”, “não percebo nada”, “às vezes ponho uma música de fundo para acalmar as crianças, mas mais nada”... é o que tantas vezes ouvimos.

Temos que começar por algum lado, e seria bom pelo princípio. A música é para todos e todas as crianças têm o direito a uma educação artística global, completa. Enquanto todas as crianças não tiverem acesso à música na sua educação e escolaridade inicial, os futuros professores não terão essa vivência nem memória consigo. A formação musical no ensino superior politécnico nos cursos de formação de educação básica não é suficiente. Seria como se exigisse ao futuro professor do 1º ciclo que ensinasse inglês aos seus alunos, sem nunca ter tido inglês durante toda a sua escolaridade.

Por isso propusemos ao Senhor Secretário de Estado da Educação um conjunto de medidas que contribuiriam para quebrar este ciclo e que damos notícia nesta Newsletter. As artes em geral e a música em particular têm que fazer parte do quotidiano escolar das crianças porque é essencial para o seu desenvolvimento holístico.

A educação artística deverá constituir-se como um conjunto de aprendizagens através das quais os alunos aprendem a abordar a arte de forma socialmente responsável, adequada e construtiva para o desenvolvimento de uma cidadania artística, conceito apresentado por David Elliot, Marissa Silverman e Wayne Bowman no livro Artistic Citizenship (2016, Oxford University Press) que editaram conjuntamente e que recomendamos vivamente. A cidadania constrói-se com e em todas as dimensões do conhecimento humano. É preciso abrir portas!

Manuela Encarnação

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